Hard, Fast and Beautiful

Cristina Fernandes
14 de Junho de 2026

Hard, Fast and Beautiful é um título poderoso. O filme ainda não começou e os três adjectivos já impõem esse ritmo opressivo que se prolonga na segunda imagem do genérico: um curto travelling nocturno sobre um campo de ténis vazio; o vento sopra com força e arrasta jornais e papéis velhos; a música de Roy Webb é tensa e as sombras são profundas. Trata-se de uma espécie de aviso para o que se segue. Mais do que um melodrama desportivo sobre a ascensão de uma jovem tenista, tudo indica que estamos perante a espiral fatalista de um filme noir.

Passamos para um plano de Florence Farley (Sally Forrest) a bater bolas contra a porta da garagem; a ingenuidade do gesto é cortada pela voz-off da mãe, carregada de expectativas e ambições. Gordon McKay (Robert Clarke) é a terceira personagem a entrar em cena. Millie entusiasma-se com o apelido, mas quando a filha lhe diz que ele não passa de um sobrinho pobre do famoso magnata, perde logo o interesse no rapaz. Na cena seguinte, conhecemos o pai (Kenneth Patterson): um homem humilde, desprezado pela sua esposa por não lhe ter conseguido proporcionar a vida que esta sonhara e condenado a ficar para trás na história. O retrato está feito: os Farley são uma típica família de classe média americana destinada a reproduzir-se eternamente segundo os mesmos padrões. O problema é que vai entrar um grãozinho de areia na engrenagem deste microcosmo.

Após a primeira vitória no clube local, Florence é convidada para o campeonato nacional de juniores em Filadélfia, onde chama a atenção de um olheiro. Fletcher Locke (Carleton G. Young) torna-se uma espécie de treinador e empresário, lança-a numa digressão exaustiva de competições e arranja uns esquemas para receber dinheiro por baixo da mesa.

Depois de inúmeros treinos e troféus, o comportamento de Florence vai-se alterando e culmina na cena em que o medo de defrontar a campeã Wilson no estádio de Forest Hills, em Long Island, se revela de forma asfixiante. Ao baixar-se para apertar os atacadores da sapatilha, esta vê (e nós também) Fletcher e a mãe num contra-picado angustiante; depois, caminha entre os dois como se fosse uma prisioneira a caminho do cadafalso; por fim, assusta-se com a multidão que enche o estádio. Consegue ganhar o jogo, mas algo se quebrou dentro dela: o entusiasmo e a liberdade que sentia em campo — e que Ida Lupino filma numa sequência enxuta de planos curtos e enquadramentos certeiros — estão a desaparecer e o seu futuro estreita-se. A ligação à mãe empurra-a para uma carreira internacional fútil, e a paixão por Gordon (a sua única alternativa) puxa-a para um casamento que a obrigará, sem dúvida, a abdicar do ténis.

Florence deixa-se levar pela conversa dourada da mãe e só se apercebe da trama manipuladora e gananciosa em Londres. Vemos isso no seu rosto crispado e nos ataques durante a partida em Wimbledon (Ida Lupino volta a integrar imagens reais do estádio, o que confere uma energia formidável ao filme). Quando regressa ao faustoso hotel de madrugada — apesar de embriagada ou por causa disso —, acerta contas com a mãe. Em Paris, já é outra mulher: não quer aquele mundo de fama fugaz e mercantil; liberta-se das regras impostas e decide regressar a casa para defender o seu título pela última vez.

A entrevista que dá na véspera do jogo revela bem a que ponto de cinismo a sua vida chegou: debita umas frases afectadas sobre o dever de uma campeã jogar limpo, com garra e respeito, mas a jornalista do Times-Dispatch até revira os olhos, pois sabe bem que essas frases feitas não correspondem à realidade.

A cena final em Forest Hills é uma réplica da primeira vitória, agora num tom menor. Os nervos da mãe, Fletcher e Gordon na assistência são os mesmos — e porque deveriam mudar, se cada um deles representa convenções sociais que teimam em se perpetuar? As jogadas de Florence, porém, mostram uma mulher cansada e desiludida: a vida perdeu a graça juvenil e o ténis tornou-se uma actividade pesada e suja. O jogo é renhido, mas, apesar de cansada, ela consegue manter o título. Quando entrega a taça à mãe, corta irrevogavelmente o fio umbilical que as prendia e livra-se do aparato e dinheiro que assombraram a sua ascensão. Abraça Gordon e vai tentar recuperar um pouco da sua vida. A mãe fica sozinha no estádio vazio, o vento empurra de novo os papéis, ouve-se o som de bolas de ténis fantasma. Desconhecemos o que acontecerá a Florence — embora seja duvidoso que reencontre a alegria de jogar ténis depois de casada —, no entanto, sabíamos desde o início que não havia saída para Millie Farley (que, não por acaso, é interpretada por Claire Trevor, a “rainha do noir”). Fica ali abandonada, mas sem qualquer julgamento moral: nesse último plano, Millie é simultaneamente carrasco e, pela segunda vez na vida, vítima das circunstâncias.

Só uma mulher independente e livre como Ida Lupino poderia produzir e realizar um filme com tantas inquietações. Trabalhando em projectos de série B com um orçamento apertado, mas também com mais margem de manobra, Lupino conseguia abordar temas que os grandes estúdios evitavam. Para além de audazes, as suas obras são muito concentradas (a economia de meios é uma das suas especialidades) e cinematograficamente muito fortes. Ela gostava de dizer, por brincadeira, que era a “Don Siegel dos pobres”; à distância, podemos acrescentar: “dos pobres cinéfilos que a descobrem agora com imensa alegria”.

A autora escreve segundo a antiga norma ortográfica.

Cristina Fernandes
Cristina Fernandes (Porto, 1966) é investigadora independente na área do cinema. Desde 2004, escreve sobre filmes e literatura em diversas plataformas, atualmente no blogue Bicho Ruim. Tem publicado artigos em revistas e projetos editoriais dedicados ao cinema, assim como traduções de autores como Emil Cioran, Chantal Akerman e Marguerite Duras, em editoras como Edições 70, BCF e Contracapa. O seu percurso combina crítica, tradução e investigação, refletindo um interesse pelo diálogo entre artes, pensamento e imagens em movimento.

Batalha Centro de Cinema

Praça da Batalha, 47
4000-101 Porto
+351 225 073 308

batalha@agoraporto.pt

A enviar...

O formulário contém erros, verifique os valores.

O formulário foi enviado com sucesso.

O seu contacto já está inscrito! Se quiser editar os seus dados, veja o email que lhe enviámos.

©2025 Batalha Centro de Cinema. Design de website por Macedo Cannatà e programação por Bondhabits by LOBA

batalhacentrodecinema.pt desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile