No último capítulo da Seleção Nacional, apresentamos um conjunto de obras de Portugal e Espanha que se entrelaçam de forma profusa com o “tellus” peninsular.
Os filmes integrados nestas experiências e histórias telúricas, escolhidos em diálogo com Luis Parés, director da Cineteca Madrid, perscrutam conexões entre práticas de cinema diversas e as forças imanentes destas terras e paisagens: ora num diálogo vivo com pessoas e seres que as habitam, ora exercitando (de forma cinematicamente interpretativa) a agência dos seus elementos, dando espaço às suas “materialidades vitais”, invocando o termo de Jane Bennett.
Fazemo-lo colocando em evidência dois momentos históricos distintos: o período próximo às quedas das ditaduras nos dois países; e, com maior ênfase programático, os anos que se seguem à crise financeira que atingiu com particular intensidade as sociedades do sul da Europa, em 2008. Deste modo, o programa analisa as intenções de um cinema que surge ao longo de processos sociais que se confrontam com crises sistémicas, manifestando desejos profundos de reorganização política, cultural, e, de um modo mais amplo, ontológica. É precisamente no lugar onde esse desejo de transformação se manifesta que este cinema — entre as suas histórias e experiências formalmente múltiplas — se quer encontrar. Especulamos, pois, de que forma a dificuldade em imaginar um amanhã, também um devir, alicerça a génese destes intuitos fílmicos e as suas procuras por espaços onde a cultura (e a vida) se recentra em valores primordiais.
Tentamos questionar de que forma o cinema absorve essa movimentação que reivindica certas centralidades e vira as costas a outras, para expressar uma vontade de mudança e transformação. Na sua base, depreende-se uma visão de um “futuro lentamente cancelado”, tal como descreveu Franco “Bifo” Berardi e a partir dele Mark Fisher: uma vicissitude geracional que provocou “deslocações” culturais para valores, materialidades e epistemologias que se opõem àquelas que sustentaram o fracasso social em diversos contextos. Em vários filmes, torna-se evidente que existe um confronto com a própria noção de “colapso” — com formas de o denunciar, contrariar, mas também, por vezes, abraçar. Não estamos, por isso, perante uma movimentação linear de cinema. As respostas ao que ele pode questionar ou procurar — e assim se definir — podem simplesmente assentar na forma como se vai expressar a partir do ambiente elementar da natureza, de gestos quase recolectores dos seus organismos e do embrenhamento em dinâmicas (também sociais) que aí se estabelecem. É no pulsar da natureza e no modo como a vivência humana nele se funde, e com ele confronta, que estes filmes se instalam, muitas vezes com sentido de vulnerabilidade (intelectual, sentimental ou até técnica). Não se pretende, com este grupo de obras, sugerir qualquer tipo de questão identitária, ou discursos em torno de “iberismos” per se; pretende-se, antes, elaborar um recorte de paisagem e natureza, do seu magnetismo, acima de tudo, onde estas práticas de cinema — que encontram paralelo noutros países, importa salientar — se vão desenvolver e filiar. Será que da sobreposição entre práticas cinematográficas dos dois países se podem inferir ligações e movimentações com características comuns? Eventualmente (ou seguramente), em alguns casos. E o que podem elas significar? Talvez os filmes e a forma como eles dialogam entre si nos possam sugerir respostas que não procurámos frontalmente obter.
Até Janeiro, recuperamos obras-chave do passado que manifestam essa vontade pulsante de reencontro com raízes e com formas de entender o cinema através de entrosamentos colectivos e de ritos ancestrais. Estes filmes reivindicam ideias e lugares de cultura esquecidos; um esquecimento que se traduziu, ao longo de décadas, em formas de injustiça política. Existe nestas obras, por isso, também uma procura que não deixa ser reparadora. Neste âmbito, destacamos o lastro da influência de Reis e Cordeiro (a propósito dos 50 anos da sua obra maior, Trás-os-Montes), através de filmes que absorvem traços de uma prática de cinema que a dupla portuguesa experimentou com uma visão reconhecidamente distinta a nível internacional.
Vamos dar atenção ao tempo geológico e, em particular, à força atractiva que os vulcões dos arquipélagos portugueses e espanhóis têm exercido sobre cineastas. Com estas obras, podemos questionar o que procuram artistas e cineastas de hoje em ideias de erupção e erosão: compreender e testar o colapso, a redenção, o apagamento, a reinvenção? Todas estas sugestões serão válidas se olharmos para os inúmeros filmes que se precipitam sobre estas fenomenologias em tempos recentes (e para os três filmes que ilustram o tema dentro do programa); dentro da temática dos “vulcões” pretendemos dar também espaço a uma indagação sobre a relação entre a força eruptiva da terrae a do filme, enquanto matérias que implodem e se revelam para fixar realidades.
Destacamos o Pão como matéria e a sua presença em várias obras de hoje e do passado, para invocar principalmente uma ideia de tempo, espera, mutação e simbiose matérica. Uma ideia de produção, também.
Quisemos destacar experiências laboratoriais de hoje, colectivas, que exploram uma relação diversa com a terra. Interessa-nos compreender, neste domínio, os contornos e significados desta inclinação de cinema (a partir das motivações acima descritas), incluindo as ligações entre a materialidade da película, os mecanismos de produção, os processos de revelação e os elementos naturais.
Telúricas é, portanto, permeado por constantes e evidentes “regressos”. O programa termina como poderia começar, evidenciando este conceitoe o que ele pode transportar consigo: um regresso a modos de ser, existir e estar; regresso a lugares físicos e imatéricos que se perderam pelo caminho e que a maioria dos filmes pretende resgatar. Será este o principal fio condutor deste “cinema telúrico”, cuja predominância histórica e, acima de tudo, contemporânea, em ambos os países, justificou este diálogo sem nação e sem fronteiras definidas.
O autor escreve segundo a antiga norma ortográfica.
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