Num ensaio de André Rui Graça, intitulado O Cinema Português como “Cinema Nacional” (2016), o investigador refere que: “A descrença na possibilidade de retratar algo tão complexo como uma nação — termo, de resto, em crise na pós-modernidade —, e a desconfiança de que qualquer esforço no sentido de representar a identidade de um país resultaria numa construção (termo conotado com artificialidade e forjamento da autenticidade) dessa mesma identidade, motivaram a desmontagem sistemática (…) do conceito de cinema nacional.”
Arrancando desta mesma lógica de desconstrução, este ciclo procura evidenciar que além categoria e além género, o cinema português — e por extensão, o cinema de um país — é fruto de uma soma de olhares livres que ultrapassam fronteiras e traços culturais, que, afinal, não conhece realmente país, dono ou fronteira.
Para tornar esse cruzamento em algo que possa ser visto e debatido, propomos neste Em Cada Olhar, Um Forasteiro, um diálogo no qual realizadores(as) estrangeiros(as) vieram filmar o nosso território e, inversamente, cineastas portugueses fizeram o mesmo no espaço estrangeiro. Em todas estas co-produções portuguesas, destes diferentes olhares, é proposta uma viagem que nos desafia a questionar o que vemos e a forma como vemos. Que espaço português é revelado pelo olhar estrangeiro? Com que perspectiva os portugueses filmam o exterior? Quem é o estrangeiro? Não filma sempre o cinema um espaço que existe e que, ao mesmo tempo, se revela apenas como não lugar, como idealidade, como utopia?
A palavra “utopia” tem origem no grego e significa precisamente “não-lugar”, referindo-se a um espaço inexistente. Traz-nos à memória o livro de Thomas More, Utopia, publicado em 1516, que desenha uma ilha utópica, antítese da sociedade europeia do século XVI. Um texto profundamente humanista que destapa a possibilidade de um mundo novo.
Há que pensar então como pode um cinema nacional necessitar de âncoras — muitas vezes mais de cariz material, de produção ou reconhecimento comercial — e, ao mesmo tempo, tornar evidente essa forma mais complexa de compreender a potência dos olhares que estão sempre a fazer dos espaços reais, espaços de utopia e diálogo. Do outro o nosso, e do nosso o outro. Todos os filmes aqui apresentados não fazem outra coisa senão mostrar essa crise da noção de “cinema nacional” e, simultaneamente, mostrar a fertilidade destes diálogos.
A primeira sessão traz-nos o olhar de Wim Wenders sobre o processo de criação artística por entre as adversidades que o próprio cinema enaltece. Uma narrativa sintomática da fragilidade do próprio cinema que se assemelha a um À Espera de Godot. O Estado das Coisas (1982), é um filme sobre cinema que nos transporta para um lugar de ameaça e contemporaneidade. O filme inicia-se com a rodagem de um remake do filme de Roger Corman, The Day the World Ended (1959), sob o título The Survivors, que retrata um grupo de sobreviventes de uma guerra nuclear escondidos num vale — um território estranho, com o mar português como cenário. Durante a rodagem, o produtor desaparece, e a equipa é forçada a interromper as filmagens por falta de película.
A Costa dos Murmúrios (2004), de Margarida Cardoso, é baseado no romance homónimo de Lídia Jorge. O filme recria o ambiente da Guerra Colonial em Moçambique e é um dos poucos filmes portugueses que aborda este conflito a partir de uma perspectiva feminina. O filme propõe um olhar crítico e íntimo, afastando-se de uma visão heróica ou exclusivamente masculina da guerra, explorando temas como a perda, a culpa, o fim do império e a desconstrução da masculinidade militar.
Em Terra Estrangeira (1995), de Walter Salles e Daniela Thomas, vivemos os anos fatídicos do governo de Fernando Collor de Mello e o exílio forçado de muitos brasileiros em busca de melhores condições de vida. Portugal, na periferia da Europa, é o cenário. O filme culmina com sonhos estilhaçados numa praia, com um grande barco encalhado ao som de Gal Costa, que canta “Vapor Barato”, do poeta Wally Salomão e Jards Macalé.
É a partir destes encontros — entre geografias, línguas e inquietações — que este capítulo se projecta no tempo. Em Abril, estes diálogos continuarão através de uma nova selecção de filmes que aprofundará esta ideia de cinema como território partilhado e instável, sempre em trânsito. A programação será anunciada ao longo de Março, em conjunto com o restante programa do Batalha Centro de Cinema.
Carlos Natálio
Carlos Natálio é licenciado em Cinema e em Direito e Doutorado em Ciências da Comunicação. Tem desenvolvido atividade como crítico de cinema, tendo cofundado em 2012 o site À pala de Walsh, e como programador (IndieLisboa, Batalha Centro de Cinema). Tem escrito sobre cinema contemporâneo, cinema português, cinema e tecnologia e redigido vários cadernos pedagógicos no contexto de diversos projetos de educação para o cinema. Atualmente, é investigador contratado no CITAR e professor nas áreas da História do Cinema e Crítica de Cinema na Escola das Artes, da Universidade Católica do Porto.
Joana Gusmão
Joana Gusmão é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (FLUP) e tem um mestrado em Estudos de Texto e Performance (RADA/King’s College). Em 2014, cofundou a produtora Primeira Idade onde coproduziu o documentário de Catarina Vasconcelos, A Metamorfose dos Pássaros, entre outros projetos. Entre 2016 e 2021, trabalhou como diretora de produção e depois como diretora executiva no festival Doclisboa. Em 2022, passou a fazer parte da equipa do festival Porto/Post/Doc, trabalhando como programadora e editora. Continua a desenvolver o seu trabalho em cinema, com foco na produção, desenvolvimento de projetos e programação.
Luísa Sequeira
Luísa Sequeira é cineasta, artista visual e curadora de cinema. Doutorada em Arte dos Media, trabalha em diferentes plataformas, combinando colagem, arquivo e cinema expandido na sua prática artística. Entre os seus trabalhos mais recentes destacam-se All Women Are Maria, Rosas de Maio, Cine Constelação, O Que Podem as Palavras, A Luz da Estrela Morta, Quem é Bárbara Virgínia?, Os Cravos e a Rocha, Motel Sama, Limite e La Luna. Desde 2010, é diretora artística do Shortcutz Porto e do Super 9 Mobile Film Fest. Além de ter criado e coordenado o programa televisivo Fotograma, é cofundadora da Oficina Imperfeita.
©2025 Batalha Centro de Cinema. Design de website por Macedo Cannatà e programação por Bondhabits by LOBA