Seleção Nacional: A Pedra ainda Espera Dar Flor

Carlos Natálio, Joana Gusmão e Luísa Sequeira
7 de Maio de 2025

O realizador Víctor Erice defende que “todos os cinéfilos são órfãos”. Esta procura pelos pais, simbólica ou real, aproxima o espectador de cinema da condição das crianças, assim como o aproxima do facto de ambos verem o mundo em grande, de baixo para cima. Essa “pequenez” adensa o obstáculo do mundo que não deve ser minimizado e inicia o processo que torna tão eficaz a passagem do ecrã ao olhar do espectador e a alteridade projectada como forma de crescimento de quem observa esse mundo.

Assim, podemos juntar às múltiplas dimensões do cinema a particular força que este possui na formação dos olhares e dos imaginários dos espectadores. A observação da realidade e o poder da ficção, pela lente do cinema, são modos particulares de conceber a alteridade, como forma de irmos crescendo, aprendendo sobre o mundo e adquirindo ferramentas para o enfrentar. Por outras palavras, cada cinema vai expondo os seus problemas, que têm tanto de universal como de particular, pois são tanto declinações da experiência de estar vivo, como de cada território e geografia afectiva, bem como também o resultado do acto criativo de cada cineasta, com o seu próprio olhar e forma de ver o mundo.

O que este programa propõe é uma reflexão sobre a pergunta: como é que o território do cinema português tem vindo a filmar os diversos desafios do crescimento? E, a partir desta, outras perguntas surgem. Que questões se colocam aos seus protagonistas e que formas têm estes de lhes responder? Quais os seus gestos, as suas aspirações, as suas dificuldades? O que muda e o que permanece nesse acto de crescer no cinema? Como se filma a sensibilidade infantil, adolescente e de entrada na idade adulta? É apenas o local e a altura da câmara que divergem ou é todo o universo que, ao mudar, exige diferentes métodos de realização e linguagens do cinema?

No programa A Pedra ainda Espera Dar Flor, cujo título é retirado de um livro que compila textos de Raul Brandão, sugerimos um percurso que caminha para trás, comparando desafios do crescimento à medida que o mundo se vai alargando e estranhando quando somos ainda crianças. Assim, o programa começa com um protagonista na casa dos 30 e terminará com uma menina de dez anos. Em A Cara Que Mereces, Miguel Gomes filma a dificuldade de passar esse portal para o mundo adulto, onde a manutenção de um mundo de fantasia é ainda uma forma de conservar uma certa dádiva da juventude e colocar à distância a responsabilidade pelas próprias escolhas de vida. A obra de estreia de Pedro Cabeleira, Verão Danado, ao recuar um pouco, dá acesso a outro “portal”: a passagem do fim da formação a um conjunto de expectativas relacionadas com os sonhos de futuro ainda por concretizar. Curiosamente, enquanto a primeira longa de Gomes, que este realizou quando tinha 32 anos, é filmada com um desejo melancólico de permanecer, a obra inicial de Cabeleira, estreada aos 25 anos do realizador, é feita de urgência e vontade de partir e encontrar um caminho.

Em 1986, Vítor Gonçalves, com Uma Rapariga no Verão, já compreendia, também no seu primeiro filme, essa urgência do fim de um tempo de Verão, de calor, como metáfora para a passagem de Isabel, a jovem protagonista, para um mundo de responsabilidade e independência. Se os “modos” de Gonçalves e Cabeleira naturalmente divergem nesse fosso de mais de três décadas que separam ambos os filmes, os problemas de ansiedade dessa passagem mantêm-se inalterados.

Os Mutantes, a obra mais aclamada de Teresa Villaverde, expõe a capacidade de resiliência da juventude quando falham os dispositivos tradicionais da família ou do amparo social: a rua é um espaço que requer adaptação, criar raízes mesmo onde só existe pedra, como refere o nosso título. Uns meses após o 25 de Abril de 1974, com Sofia e a Educação Sexual, Eduardo Geada começa a sua carreira como realizador com o “escândalo” que a descoberta sexual de uma jovem burguesa impunha às mentes nada habituadas às questões do desejo no ecrã. Com outra linguagem que reflecte sobre o vídeo e a tensão entre a reality TV e a exploração da intimidade, Lavado em Lágrimas, de Rosa Coutinho Cabral, é uma obra que também percebe a sexualidade na juventude como questão delicada, sobretudo num contexto de pobreza e orfandade.

Uma das obras mais marcantes do cinema português é também atravessada pelo signo da orfandade. O arranque do cinema de Pedro Costa, O Sangue (1989), é um filme feito entre o onirismo da infância e a súbita necessidade de reorganização familiar de dois irmãos, em virtude da partida do seu pai. Finalmente, mostraremos também o primeiro filme de Lauro António, que realiza Manhã Submersa de forma dura e meticulosa, mostrando-nos a imposição a uma criança de 12 anos de um futuro forçado na fé, forma de tentar fintar a miséria. O programa termina com o olhar surpreendido e inocente de Salomé, a menina de dez anos, protagonista de Alma Viva, de Cristèle Alves Meira. A morte da avó e os conflitos familiares numa aldeia em Trás-os-Montes são os primeiros sinais de uma perda que no fim deste programa se anuncia como o início de uma vida longa.

Carlos Natálio
Carlos Natálio é licenciado em Cinema e em Direito e Doutorado em Ciências da Comunicação. Tem desenvolvido atividade como crítico de cinema, tendo cofundado em 2012 o site À pala de Walsh, e como programador (IndieLisboa, Batalha Centro de Cinema). Tem escrito sobre cinema contemporâneo, cinema português, cinema e tecnologia e redigido vários cadernos pedagógicos no contexto de diversos projetos de educação para o cinema. Atualmente, é investigador contratado no CITAR e professor nas áreas da História do Cinema e Crítica de Cinema na Escola das Artes, da Universidade Católica do Porto.

Joana Gusmão
Joana Gusmão é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (FLUP) e tem um mestrado em Estudos de Texto e Performance (RADA/King’s College). Em 2014, cofundou a produtora Primeira Idade onde coproduziu o documentário de Catarina Vasconcelos, A Metamorfose dos Pássaros, entre outros projetos. Entre 2016 e 2021, trabalhou como diretora de produção e depois como diretora executiva no festival Doclisboa. Em 2022, passou a fazer parte da equipa do festival Porto/Post/Doc, trabalhando como programadora e editora. Continua a desenvolver o seu trabalho em cinema, com foco na produção, desenvolvimento de projetos e programação.

Luísa Sequeira
Luísa Sequeira é cineasta, artista visual e curadora de cinema. Doutorada em Arte dos Media, trabalha em diferentes plataformas, combinando colagem, arquivo e cinema expandido na sua prática artística. Entre os seus trabalhos mais recentes destacam-se All Women Are Maria, Rosas de Maio, Cine Constelação, O Que Podem as Palavras, A Luz da Estrela Morta, Quem é Bárbara Virgínia?, Os Cravos e a Rocha, Motel Sama, Limite e La Luna. Desde 2010, é diretora artística do Shortcutz Porto e do Super 9 Mobile Film Fest. Além de ter criado e coordenado o programa televisivo Fotograma, é cofundadora da Oficina Imperfeita.

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