Raw Rhythms

Cecilia Bengolea
17 de Setembro de 2026

Raw Rhythms é a minha primeira exposição no Porto e em Vila do Conde. Foi produzida durante uma residência artística em Vila do Conde entre abril e maio de 2026 e reúne três novos filmes, criados na sequência de um convite da Solar — Galeria de Arte Cinemática e do Batalha Centro de Cinema. Na minha investigação centrei-me na transmissão das danças ancestrais e nos ofícios tradicionais do trabalho marítimo, mergulhando no património cultural da costa atlântica do Norte de Portugal.

Combinando ficção e documentário, as obras compõem uma coreografia cinematográfica em que a relação entre tradição, memória e representação revela como as identidades contemporâneas continuam a ser moldadas por gestos herdados. Os três filmes constituem uma reflexão sobre memória coletiva, conhecimento internalizado e a cadência poética da vida costeira.

O projeto baseia-se numa reflexão inspirada na distinção feita por Serge Daney entre imagens que procuram persuadir e imagens que produzem uma experiência vivida do tempo. Em vez de procurar paisagens pitorescas ou composições visuais atraentes, a minha investigação com a câmara resiste ao espetáculo, procurando não estetizar a realidade, mas sim suspendê-la — criar uma densidade temporal em que a duração se torna palpável e o espectador perde gradualmente a certeza de onde termina o documentário e começa a ficção. Os filmes convidam a uma experiência de imersão em que a verdade emerge menos como uma questão de exatidão factual e mais como uma condição sensorial e emocional partilhada.


Nicole and the Lonely Dories, 23', 2026
Sala-Filme

O filme decorre em Vila do Conde, cidade piscatória portuguesa, e acompanha a chegada de Nicole, uma figura hiperfeminina do Equador, cuja presença perturba silenciosamente os ritmos de uma comunidade de pescadores muito unida. Tendo atravessado o Atlântico na esperança de que seguir os pescadores a pudesse conduzir ao casamento — e, com ele, à possibilidade de se tornar europeia —, Nicole personifica uma outra economia do mar, que não traz só peixe, mas também migrantes, desejos e futuros projetados. Ao invés de incitar o conflito, Nicole torna-se um catalisador através do qual se revelam as representações da masculinidade — os seus códigos, vulnerabilidades, rituais e contradições latentes.

Inspirada por The Lonely Dorymen, o mítico documentário de 1968, dirijo o meu olhar para a poética do trabalho marítimo, em que resistência física, repetição e gestos coletivos se tornam formas de coreografia. Atualmente, o mundo está impregnado de uma melancolia silenciosa, à medida que sucessivas gerações abandonam progressivamente o mar, relutantes em herdar uma profissão cujos perigos são implacáveis. Uma importante fonte de inspiração foi o encontro com Abel Coentrão, escritor, intelectual e fundador da Associação Bind’ó Peixe, nas Caxinas.

Em paralelo com esta narrativa, há uma reflexão sobre a infância e a transmissão. Mulheres de idade ensinam aos netos antigas danças folclóricas, preservando formas de conhecimento internalizado que subsistiram ao longo dos séculos. Estas coreografias arcaicas abrem-se como arquivos vivos, revelando como a identidade, tal como a tradição, é ensaiada, herdada e permanentemente reimaginada.

A presença de Nicole introduz um inesperado contraponto de modernidade numa comunidade profundamente enraizada num universo de rituais ancestrais. A sua feminilidade contemporânea e abertamente estilizada perturba códigos estabelecidos, enquanto as suas aspirações revelam o mar como espaço de circulação — não apenas de trabalho e comércio, mas também de migração, saudade e mobilidade social. Os barcos que regressam ao cais trazem mais do que a sua pescaria diária; também transportam histórias, imigrantes, romances, esperanças e sonhos. Através desta subtil dissonância, o humor coexiste com a saudade, interrompendo suavemente a cadência melancólica de uma comunidade suspensa entre a persistência da tradição e as incertezas do presente.


Moura Encantada, 8', 2026
Sala-Filme

Moura Encantada decorre no porto de pesca da Póvoa de Varzim, onde um coro de figuras semelhantes a sereias habita na fronteira entre a terra e o mar. Existindo numa espera suspensa, quem fica em terra anseia que os seres amados regressem do mar. Através de danças e canções, realizam rituais de invocação, transformando a saudade em gestos coletivos. Situado nesta paisagem liminar, o filme evoca a figura mítica da Moura Encantada, entrelaçando folclore, presença feminina e a memória do mar numa meditação poética sobre ausência, esperança e regresso.


25 de Abril with Rancho Folclórico da Associação Cultural e Desportiva de Mindelo, 12', 2026
Foyer da Sala 2

Tendo como pano de fundo a Revolução de 25 de Abril, o filme reflete sobre a vida durante a ditadura através da lente do folclore. Danças populares antigas, interpretadas pelo Rancho Folclórico de Mindelo, tornam-se simultaneamente um repositório da memória coletiva e uma subtil linguagem de resistência, revelando como os rituais culturais subsistiram apesar de décadas de repressão política e da instrumentalização do folclore pela propaganda do regime.

Através de uma linguagem visual inspirada no claro-escuro dos filmes do realizador Manoel de Oliveira, luz e sombra evocam a tensão entre silêncio e libertação, ocultamento e revelação. O filme explora a forma como corpos, gestos e tradições preservam os vestígios do passado de uma nação, perguntando como pode a liberdade ser recordada, representada e transmitida de geração em geração.

Cecilia Bengolea

Cecilia Bengolea (Buenos Aires, 1979) é uma artista que trabalha nas áreas da performance, do vídeo, da escultura e da dança. Utilizando o movimento como uma forma de escultura animada, concebe a dança e a performance como espaços onde convergem energias simbólicas, sociais e naturais, posicionando frequentemente o seu próprio corpo simultaneamente como sujeito e objeto.

O seu trabalho coreográfico, desenvolvido em colaboração com François Chaignaud, foi distinguido com o Prix de la Critique (Paris, 2010) e recebeu o Prémio Jovem Artista na Bienal de Gwangju (2014). Bengolea recebeu encomendas de peças coreográficas por parte do Ballet de Marseille, do Ballet de Lyon, do Ballet de Lorraine e do Tanztheater Wuppertal de Pina Bausch.

O seu trabalho tem sido apresentado internacionalmente em instituições e eventos como o Guggenheim Bilbao, o Centre Pompidou, a Tate Modern, o Palais de Tokyo, a Dia Art Foundation, a Bourse de Commerce — Collection Pinault, o Museo Reina Sofía, o MUDAM Luxembourg, a Art Basel Parcours, a Desert X e as bienais de Gwangju e de São Paulo, entre muitos outros. Em 2023, foi professora convidada no mestrado em Performance da Universidade de Arquitetura de Veneza, em Itália. Vive e trabalha entre Paris e Buenos Aires.

Batalha Centro de Cinema

Praça da Batalha, 47
4000-101 Porto
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