Yi Yi

Christopher Small
3 de Maio de 2026

É um cliché recorrente falar de modo efusivo sobre as cidades no cinema, atribuindo-lhes o papel de personagens ativas na narrativa ou insinuando que o facto de o realizador rodar um filme dentro dos seus limites municipais corresponde a escrever uma carta de amor à dita cidade. Contudo, no caso de Edward Yang, a vida urbana de Taipé — simultaneamente a sua cidade e a dos seus protagonistas — é um aspeto crucial da sua obra. Ele foi o cineasta por excelência de Taipé e dos seus arredores; nenhum outro realizador está tão estreitamente ligado a esta cidade, ou talvez a qualquer outra cidade específica. [1] Todas as sete longas-metragens de Yang decorrem na capital taiwanesa: documentando as suas dores de crescimento no pós-guerra, durante os anos da ditadura militar (A Brighter Summer Day, 1991), ou a sua transformação durante o milagre económico do país (Taipei Story, 1985; A Confucian Confusion, 1994). Passando-se durante (e confrontando) a incerteza económica dos últimos anos do milénio, Yi Yi (2000) seria o último trabalho de Yang, antes da sua morte precoce sete anos mais tarde, aos 59 anos, devido a um cancro dos intestinos.

“Construída pelos japoneses”, como afirmou o próprio Yang, durante a era colonial, e profundamente marcada pelas diferentes influências dos seus vizinhos, Taipé é um ambiente urbano bastante específico, mas também efémero. Isto reflete, e não por acaso, aquilo de que tratam os filmes de Edward Yang: a inexorável passagem do tempo, as transformações inevitáveis das famílias e dos círculos sociais, o papel do trabalho e dos negócios na formação da identidade social, o fascínio pela influência estrangeira nos assuntos pessoais e profissionais.

Nenhum outro filme da carreira de Yang expressa tão perfeitamente esses interesses como Yi Yi, uma obra intemporal com a qualidade inconfundível, embora não intencional, de ser uma súmula da sua carreira — não intencional porque Yang não estava ciente da sua doença aquando da realização. Depois de Yi Yi, trabalhou num filme de animação protagonizado e coproduzido por Jackie Chan, antes de a doença o ter fatalmente incapacitado. O título, Yi Yi, um trocadilho visual no chinês escrito, significa literalmente “um por um”, mas quando as pinceladas se sobrepõem umas sobre as outras, também sugere “um por dois”. O filme centra-se numa família (os Jian) que lida com a vida sobretudo como seres individuais, os “uns” que vivem vidas paralelas em espaços domésticos partilhados, cujas ações se cruzam sem por isso se influenciarem. Um filme do complexo ano 2000, financiado por Taiwan e pelo Japão, Yi Yi é uma das últimas obras-primas do século passado, que indicia na sua forma a desagregação social provocada pela globalização na era do Fim da História. Em Yang, vemos como as profundas transformações sociais se refletem nas famílias, nos grupos de amigos, na maneira como as pessoas se relacionam com rituais comunitários antigos, agora em processo de erosão. Uma das linhas narrativas transporta brevemente a ação para Tóquio, alterando assim radicalmente a relação das personagens com o espaço: ao contrário do que acontece em Taipé, podem movimentar-se de um modo distinto, com a liberdade do anonimato, e distanciar-se, recordando o passado, quando se deparam, em Tóquio, com versões similares de lugares que reconhecem da sua adolescência em Taipé.

De alcance quase literário, Yi Yi retrata as convulsões emocionais que assolam uma família da classe média quando a sua matriarca — a avó — entra em coma após uma queda. O pai reacende inadvertidamente uma paixão há muito adormecida, quando reencontra a sua namorada da adolescência; a mãe cai numa perigosa depressão e parte para um retiro nas montanhas sob a orientação de um guru bastante questionável; a sorte do tio nos negócios derrapa no preciso momento em que a sua mulher dá à luz; a filha adolescente, atormentada pela culpa que, injustificadamente, acredita ter sobre a queda da avó, descobre pela primeira vez a intensidade assustadora das relações amorosas; e o filho mais novo, Yang Yang, começa a desenvolver um impulso criativo, documentando com a sua máquina fotográfica as partes do mundo que não podemos ver, sejam mosquitos a zumbir num canto de uma sala ou a parte de trás das nossas cabeças.

Começando com um casamento e acabando num funeral, a descrição simplista do enredo de Yi Yi poderá soar como um melodrama telenovelesco, mas o filme desenrola-se, transcendentemente, como um retrato emocional pintado com pontilhismo. Poucos cineastas têm a extraordinária capacidade sugestiva que Yang possui, mesmo num estilo visual tão despojado. Ele consegue encenar sequências de modo a que o tempo parece fluir através das suas imagens. Por esta altura, Yang tinha já adotado quase exclusivamente os planos gerais, abdicando dos elaborados movimentos da câmara dos seus filmes anteriores, como que simplificando até à essência um estilo já por si estoico e, ao mesmo tempo, introduzindo um uso expressivo dos reflexos — por exemplo, nas janelas do apartamento dos Jian, que se abrem sobre a cidade. Yang combina simultaneamente os impulsos de um romancista e de um estilista visual: mesmo as personagens secundárias mais insignificantes, como os vizinhos do fundo do corredor, que passam a vida a discutir, são desenvolvidas e ganham profundidade através da repetição e dos gestos, como figuras periféricas num fluxo narrativo denso e elaborado.

A família Jian é uma família típica de Taipé em todos os seus aspetos, mas é justamente esta especificidade realista que, talvez paradoxalmente, nos permite relembrar momentos semelhantes de rutura e revelação das nossas próprias vidas. No final das três horas de Yi Yi, é fácil acreditar que partilhámos uma vida inteira de recordações com os Jian. Como afirma uma das personagens, sem dúvida falando em nome do próprio cineasta: “Vivemos três vezes mais tempo desde que o Homem inventou o cinema… São os filmes que nos dão o dobro do que nos proporciona a vida quotidiana.”

[1] De facto, para os cinéfilos que visitam Taipé, presente autor incluído, a peregrinação pelos locaisde filmagem de Yang é uma forma agradável de se orientarem nesse local extraordinário

Christopher Small
Christopher Small é crítico de cinema, programador e editor, e vive em Praga, na Chéquia. É responsável pelo editorial e pelas publicações do Festival de Locarno, incluindo a revista diária Pardo, e dirige a Academia de Críticos desde 2017. Durante quatro anos, foi curador internacional da DAFilms e, entre 2019 e 2021, integrou o Comité de Seleção do Sheffield DocFest. É fundador e coeditor da Outskirts Film Magazine, uma publicação anual impressa dedicada ao cinema do passado e do presente.

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