O realizador Kamal Aljafari nasceu em 1972 numa família palestiniana com um percurso muito comum ao de muitos compatriotas seus: famílias de mãe e pai expulsas na Nakba de 1947–1949 das suas casas e comunidades e transferidas para casas de onde outros palestinianos tinham sido, por sua vez, expulsos, em bairros que os israelitas transformaram em guetos para refugiados palestinianos, neste caso dentro do território do Estado de Israel. Parte da sua família materna foi expulsa para Gaza e, até à Segunda Intifada (2000–2005), era-lhe permitido viajar até Jaffa, a cidade onde nasceram, a capital social e económica da Palestina histórica. A partir de então, Israel fechou todos os acessos a Gaza. A Faixa, mais do que simplesmente território ocupado onde já haviam sido construídos vários colonatos (evacuados em 2005), passou a ser tratada por Israel como um campo de prisioneiros. O maior campo de prisioneiros do mundo.
Em 2001, aos 28 anos, Aljafari ainda consegue visitar Gaza, “já eu morava [e estudava cinema] na Alemanha. Peguei numa câmara, voltei à Palestina e filmei durante três dias”, ajudado por Hasan Elboubou, um habitante de Khan Younis, que o guia pelos campos de refugiados, os becos entre casas de autoconstrução, semidestruídas pelas bombas israelitas, remendadas; que o leva a Rafah ou próximo das barreiras de arame farpado (o muro estava em construção), enquanto ouvem as ordens dos soldados israelitas por altifalante, seguidas de disparos, à praia, ver os pescadores, as crianças, ao mercado… “Na altura, a minha ideia era fazer um filme sobre a minha experiência na prisão. Procurei alguém em Gaza que tinha estado preso comigo” durante a Primeira Intifada (1987–1993). Aljafari tinha 17 anos quando foi preso numa prisão israelita e partilhava a mesma cela com outros 40 palestinianos detidos, uma lâmpada acesa dia e noite — técnica usada para fazer com que os presos percam a noção do tempo —, e procurava lembrar-se de imagens da sua adolescência. Até que perdeu “a capacidade de imaginar” e “a vida tornou-se a prisão”, deixa ele escrito nos minutos finais do filme. Um dos detidos era Abdel Rahim, de 18 anos, de Gaza, que uma noite foi levado pelos guardas para nunca mais aparecer. É quem o cineasta vai procurar, dez anos depois, a Gaza. “Não o encontrei, mas filmei essa busca e nunca mais vi o material. Guardei-o comigo durante quase 25 anos. Por incrível que pareça, nunca o visionei. Nunca digitalizei essas filmagens, nunca as vi até agora" [1].
Há um ano, em pleno genocídio, o realizador regressou a este material para fazer “uma homenagem a Gaza e ao seu povo, a tudo o que foi apagado e que me voltou à mente neste momento urgente da existência, ou inexistência, palestiniana. É um filme sobre a catástrofe e a poesia que resiste” [2]. No filme, todos (e Hasan em primeiro lugar) querem mostrar, querem que a câmara grave os efeitos da ocupação, da violência, o quotidiano. As casas arrasadas e aquelas que, habitadas, foram bombardeadas no dia anterior; as bicicletas dos palestinianos que trabalham em empresas israelitas, nos colonatos ou no território do Estado de Israel, e que só podem cruzar a pé os checkpoints, barreiras impostas dentro do território que é o país deles, para melhor serem controlados e vigiados pela tropa israelita.
Quase dois anos e meio depois do início da campanha genocida que Israel leva a cabo contra os dois milhões de habitantes, dos 72 mil mortos (até fevereiro de 2026), dos mais de 200 mil feridos, dos milhares de desaparecidos, é inevitável que nos perguntemos o que terá acontecido a cada uma das crianças que pedem para serem filmadas, às casas, aos padeiros do mercado, aos pescadores na praia; e o que terá acontecido a Hasan que, no filme, tenta permanentemente tranquilizar o então jovem realizador quando este lhe pergunta se os soldados israelitas, cujas vozes se ouvem ao longe a darem instruções por altifalante, lhe dispararão por estar a filmar. Respondem-lhe que não, que apenas o fazem quando veem delegações estrangeiras para impedir “que as pessoas sejam testemunhas do que nos acontece”. E lembramo-nos dos quase 250 jornalistas e fotógrafos palestinianos mortos pelas tropas israelitas em Gaza (e só até junho de 2025), dos milhares de trabalhadores da saúde assassinados (1150 só até setembro de 2024)…
As imagens de With Hasan in Gaza talvez não tenham sido recolhidas como cumprimento de um dever de memória, mas é assim que nos aparecem, em toda a sua espontaneidade, aos nossos olhos. Da mesma forma que os palestinianos, cujas vozes nos são dadas a ouvir, cumprem um dever de testemunho (de lembrar, de contar, de construir memória). Também há 80 anos, em pleno Holocausto, Viktor Klemperer (um judeu alemão que conseguiu sobreviver ao genocídio no interior da Alemanha) levantava-se às 3:30 da madrugada para, antes de “começar o trabalho na fábrica, anotar tudo o que se referia ao dia anterior. Eu dizia a mim mesmo: ouves com os teus ouvidos e ouves a vida quotidiana, precisamente a vida quotidiana, o comum, o normal, o desprovido de brilho e heroísmo…” Uma das suas vizinhas de Judenhaus, deportada para Auschwitz em 1942, confiava neste seu ofício e pedia-lhe todos os dias que anotasse “a última busca dentro de uma habitação, o último suicídio, o último cancelamento de um cartão de racionamento” [3].
As imagens recolhidas em With Hasan in Gaza funcionam como a prova de vidas, já então precárias, antes de serem atiradas para o abismo. Provas da existência humana, da vítima da opressão enquanto ainda sobrevive. Ao filmar ruínas de casas arrasadas para forçar a expulsão definitiva de palestinianos que viviam junto à área onde os ocupantes quiseram construir um colonato, um jovem palestiniano que trabalha em território israelita pede para não ser filmado. Hasan tranquiliza-o: “Não te preocupes, estas imagens não serão usadas, os israelitas nunca as verão”. O que será hoje dele, 25 anos depois? Num dos diálogos entre Hasan e uma moradora, esta refere um “cessar-fogo” durante o qual a sua casa fora bombardeada. “Mas qual cessar-fogo? Nunca houve cessar-fogo, não há cessar-fogo”, responde-lhe Hasan, que insiste com ela que conte para a câmara como é a vida dela. E aí é a mulher que, no mesmo tom, lhe responde: “Para quê contar? Estamos fartos de falar… A minha vida? Isto não é vida.”
[1] Oberto, D. (2025, 3 de julho). Accidents, archives, and acts of sabotage: A conversation with Palestinian film director Kamal Aljafari. Untold Mag. https://untoldmag.org/accidents-archives-and-acts-of-sabotage-a-conversation-with-palestinian-film-director-kamal-aljafari/
[2] Meza, E. (2025, 6 de agosto). Kamal Aljafari’s Locarno competition opener ‘With Hasan in Gaza’ rediscovers lost existence of land and people. Variety. https://variety.com/2025/film/global/kamal-aljafari-locarno-film-festival-with-hasan-in-gaza-1236480509/
[3] Klemperer, V. (2005). LTI: A linguagem do Terceiro Reich. Antígona. (Obra original publicada em 1947)
Manuel Loff
Manuel Loff é Doutor em História e Civilização pelo Instituto Universitário Europeu (Florença), professor de História Contemporânea na Universidade do Porto e investigador no Instituto de História Contemporânea-NOVA FCSH/IN2PAST e no Centre d’Estudis sobre Dictadures i Democràcias (Universitat Autònoma de Barcelona) nas áreas da História política, ideológica e social do século XX, especialmente no estudo do fascismo e do neofascismo, das revoluções e dos processos de transição autoritária e democrática, e dos estudos da memória coletiva. Escreve no diário Público desde 2011.
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