Velvet Goldmine

Christopher Small
4 de Janeiro de 2026

Quando vi o filme, pensei que a melhor coisa nele eram as cenas gay — francamente, a única parte verdadeiramente bem-sucedida. O filme não compreendia o quão inocentes éramos todos naquela altura em relação ao que estávamos a viver.” 
— David Bowie em conversa com Andrew Davies, em The Big Issue, janeiro de 1999

O homem é menos ele próprio quando fala em nome próprio. Dê-lhe uma máscara, e ele dirá a verdade.” 
— Oscar Wilde, citado em Velvet Goldmine
 

Em meados da década de 1990, o passado glam rock de David Bowie, bem como a sua abertura em relação à sua identidade queer, pareciam ter ficado para trás. Uma década antes, Bowie renegara a sua “experimentação” com a bissexualidade, classificando-a como o seu “maior erro”, pouco tempo depois de se divorciar de Angela Bowie, com quem mantivera um casamento notoriamente aberto, marcado por uma promiscuidade sexual assumida com homens e mulheres. Com esta mudança abrupta de estilo de vida e de atitude, a persona flamboyant e andrógina de David Bowie — tão determinante para a sua ascensão ao estatuto de superestrela como Ziggy Stardust — foi igualmente abandonada. Em 1992, Bowie casou com a supermodelo somaliana Iman e instalou-se numa vida de heteronormatividade em Nova Iorque e na Suíça, longe das escapadelas e transgressões sexuais dos seus anos em Berlim e Londres.  


Em 1991, Todd Haynes afirmou-se como uma voz central de um movimento queer emergente no cinema norte-americano com Poison, um filme tripartido inspirado na obra de Jean Genet, que se revelaria influente para toda uma geração de cineastas gay. Após o filme seguinte, Safe (1995) — uma obra-prima sobre uma dona de casa afetada por uma doença desconhecida —, Haynes abordou o seu ídolo, David Bowie, com uma versão inicial do argumento de Velvet Goldmine, uma biografia ficcionalizada de ascensão e queda inspirada na vida do artista, centrada num jovem jornalista que investiga o desaparecimento cultural de um ícone. Para além da aprovação geral de Bowie, Haynes e os seus produtores solicitaram autorização para utilizar sete das suas canções: “All the Young Dudes”, “Sweet Thing”, “Lady Stardust”, “Moonage Daydream”, a versão de Bowie de “Let’s Spend the Night Together”, “Lady Grinning Soul”e o tema que dá título ao filme, “Velvet Goldmine”.

O facto de Bowie ter recusado o jovem cineasta e, mais tarde, ter criticado duramente o filme em público após a sua estreia revelou uma ambivalência e um desconforto da sua parte em relação aos anos de “inocência” retratados em Velvet Goldmine — uma época que o Bowie dos anos 90 não tinha qualquer interesse em revisitar ou, sobretudo, em glorificar. Em simultâneo, o artista disse a Todd Haynes que estava a preparar o seu próprio projeto sobre a era de Ziggy Stardust e que, por esse motivo, não pretendia ceder as suas canções a uma produção concorrente, embora não seja claro se esse projeto alguma vez ultrapassou o estádio especulativo. Embora as primeiras versões do argumento de Velvet Goldmine não estejam disponíveis ao público, é bastante evidente que, mesmo na fase inicial em que o apresentou ao músico, Haynes encarava a era do glam rock — e, em particular, o papel de Bowie nesse período — como uma revolução de libertação, queer e de outra ordem, cuja promessa foi desperdiçada nas décadas seguintes. Haynes viria mais tarde a comentar explicitamente que os anos 80, mais rígidos e autoritários, extinguiram essa chama e inverteram o progresso desordenado da década anterior. 

Coprodução britânica de média dimensão que atraiu atenção significativa e contribuiu para afirmar Haynes como cineasta no panorama internacional, este filme é uma investigação imperfeita, mas fascinante, sobre uma persona pública e sobre o significado de uma época, recusando muitos dos instrumentos convencionais de identificação que definem a maioria dos filmes biográficos. Com efeito, a recusa de uma interioridade “real” para o seu protagonista à imagem de Bowie sugere antes uma preferência — ou um interesse — pelas superfícies, pelas máscaras e pela performance, algo que se reflete nos movimentos deslizantes da câmara e nas transições suaves do filme. Brian Slade (Jonathan Rhys Meyers) é uma figura enigmática, cuja ascensão e queda é narrada, à maneira de Citizen Kane, através de uma série de histórias orais contadas pelos seus contemporâneos (incluindo figuras inspiradas em Iggy Pop e Angela Bowie). A sua vacuidade enquanto estrela, mesmo no auge da fama, parece estar a anos-luz da personalidade singular e dos interesses artísticos que caracterizavam o próprio David Bowie.

“O glam rock foi a primeira associação explícita entre a noção do alienígena e a noção do homossexual”, afirmou Haynes, “ambas se tornaram uma espécie de potencial fantástico e galvanizador para a expressão musical, uma liberdade possível para jovens presos em vidas cinzentas e entediantes”. Começando com a visita de um extraterrestre que entrega um misterioso orbe luminoso a Oscar Wilde na Londres vitoriana, Velvet Goldmine torna explícita essa ligação ao extraterrestre, ao mesmo tempo que apresenta claras afinidades com duas obras anteriores de Haynes, que revelavam o mesmo interesse pelas profundezas humanas por detrás das personas públicas das celebridades: Superstar: The Karen Carpenter Story (1987), uma biografia trágica da estrela pop homónima, realizada com bonecas Barbie e posteriormente retirada de circulação após um processo judicial movido pela família; e a curta-metragem Dottie Gets Spanked (1993), na qual uma criança queer desenvolve uma obsessão por um programa televisivo ao estilo de I Love Lucy, como expressão ambígua da construção da sua identidade emergente — não muito diferente do arco narrativo que vemos Arthur Stuart (Christian Bale) percorrer em Velvet Goldmine.  

Pode discutir-se o impacto que a recusa dos direitos sobre o catálogo de Bowie teve em Velvet Goldmine. O que é claro é que essa decisão obrigou Haynes a orientar o material noutra direção, mesmo continuando a apoiar-se no esqueleto evidente da biografia de Bowie para lhe dar forma. Um projeto haynesiano em todos os sentidos, Velvet Goldmine permanece hoje, tanto para os fãs de Bowie como para o público em geral, simultaneamente deslumbrante e confuso, rico em pormenores e, muitas vezes — na sua tentativa de encontrar sentido nas contradições da persona de Bowie —, profundamente comovente. 

Christopher Small
Christopher Small é crítico de cinema, programador e editor, e vive em Praga, na Chéquia. É responsável pelo editorial e pelas publicações do Festival de Locarno, incluindo a revista diária Pardo, e dirige a Academia de Críticos desde 2017. Durante quatro anos, foi curador internacional da DAFilms e, entre 2019 e 2021, integrou o Comité de Seleção do Sheffield DocFest. É fundador e coeditor da Outskirts Film Magazine, uma publicação anual impressa dedicada ao cinema do passado e do presente.

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