Tohé Commaret: Um Cinema de Cumplicidade

Martha Kirszenbaum
10 de Março de 2026

Artista franco-chilena radicada em Paris, Tohé Commaret é autora de uma obra que entrelaça cinema experimental e documentário. Através de uma prolífica produção de curtas-metragens enigmáticas, desenvolveu uma linguagem cinematográfica singular, que desafia construções narrativas tradicionais e convenções visuais. Explorando a experiência humana através de uma lente poética, funde memórias pessoais e coletivas, identidade e temas sociopolíticos. A delicada interação entre imagem e som cria mundos imersivos onde intimidade e questões sociais mais amplas convergem, muitas vezes esbatendo as fronteiras entre realidade e ficção. O trabalho de Commaret redefine a expressão cinematográfica numa era de rápidas mudanças culturais e tecnológicas. Os seus filmes questionam o papel da arte como forma de resistência, confrontando estruturas de poder, marginalização e a marca duradoura da história na identidade contemporânea.

A herança chilena, transmitida pela mãe que fugiu da ditadura de Pinochet para se refugiar em França, surge como pano de fundo da maioria das suas obras. A estética e o universo narrativo de Commaret remetem subtilmente para o realismo mágico — um género literário e artístico que surgiu na América Latina em meados do século XX, fundindo elementos de fantasia com o quotidiano. Os seus filmes inspiram-se profundamente no folclore, na mitologia e nos contos de fadas, adquirindo uma profundidade cultural e histórica. Antepassados e fantasmas assombram profusamente os seus filmes. Algumas personagens parecem flutuar entre dois mundos, enquanto outras parecem possuídas ou à procura de algo além da realidade, além do que é visível — como as jovens que continuam a tocar, em vão, nas campainhas e nos intercomunicadores de corredores vazios. Uma música hipnótica feita de camadas de sons e ecos contribui para esta impressão de realidade flutuante.

Os espaços suburbanos e a arquitetura de betão parecem desempenhar um papel fundamental na estética da artista. Tendo crescido em Vitry-sur-Seine, no sudeste de Paris, a sua infância gravitou em torno da Dalle Robespierre, uma esplanada feita de betão e rodeada por edifícios sociais, um espaço cru que evoca uma sensação de estranheza, ansiedade e paranoia — mas ainda assim marcado pela convivência social. Tohé Commaret parece ter transformado a Dalle num palco onde atração e repulsa interagem continuamente, uma dinâmica tão profundamente entrelaçada no seu cinema que assume o papel de protagonista por direito próprio. As personagens que retrata, que transitam facilmente de um filme para outro, são todas do seu bairro, sendo algumas até amizades de infância. Filma crianças a brincar e a conversar na esplanada de betão, e personagens a vaguear por um bairro e uma praça fictícios, que na realidade são Dalle em Vitry. Aqui, a artista parece transcender tanto a sua cidade como o seu bairro, transformando-os num reino surreal, indefinido e distópico.

Os vídeos de Tohé Commaret são, em grande parte, realizados sem guião, incentivando a colaboração e a improvisação. Ela capta o que as suas personagens escolhem revelar sobre si mesmas. Vendo o cinema como uma ferramenta para abordar a injustiça, cria espaço para aquelas pessoas a quem é negada visibilidade ou voz, dando-lhes uma plataforma para moldar as suas próprias imagens. O seu trabalho explora as narrativas que construímos para nos proteger de verdades dolorosas, as identidades que nos são impostas e os esforços que fazemos para nos libertarmos delas. A sua filmografia é composta por um cinema de empatia e hipersensibilidade, focando-se em personagens marginalizadas, particularmente mulheres e crianças, e representando as suas experiências e sentimentos. A sua atenção aos detalhes do universo feminino pode ser observada nos inúmeros grandes planos que capta graciosamente: detalhes de unhas, maquilhagem azul e collants azuis, sapatos de plataforma e ganchos de cabelo. Algumas cenas exalam uma intensa sensação de masculinidade tóxica e violência profunda, refletindo a sensibilidade da artista à dor das mulheres. Crianças e adolescentes também desempenham papéis centrais nos seus filmes — personagens que não só personificam a pureza, mas que são retratadas como excecionalmente perspicazes, intuitivas e, acima de tudo, honestas e sem filtros.

Há também humor e leveza na sua representação da sororidade, da cumplicidade e da solidariedade femininas. A exposição no Batalha Centro de Cinema apresenta duas obras fundamentais que esbatem as fronteiras entre a realidade e a ficção: em Mustard (2023), Commaret explora as dinâmicas de poder do desejo. Através de uma série de telefonemas divertidos, duas mulheres orquestram uma performance sedutora para um cliente fora de campo, recuperando a sua autonomia através do humor e da cumplicidade partilhados. Em contraste, Placenta Chips (2022) adota a estética do vídeo DIY. Esta vinheta improvisada capta a meditação improvisada de uma protagonista adolescente sobre a autonomia corporal e a escolha de não ter crianças. Juntos, estes filmes mostram a capacidade de Commaret de encontrar o profundo no lúdico, questionando como a identidade contemporânea é forjada através da experiência coletiva.

Martha Kirszenbaum

Curadora, escritora e editora sediada em Paris. Formou-se na Sciences-Po em Paris e na Columbia University em Nova Iorque. Foi curadora do Pavilhão Francês da 58.ª Bienal de Veneza, representado por Laure Prouvost, e fundou e dirigiu a Fahrenheit, um espaço de exposições e programa de residências em Los Angeles. Anteriormente, trabalhou no MoMA, no New Museum e no Centre Pompidou e organizou exposições, exibições, performances e palestras em instituições internacionais de renome. É colaboradora regular de várias publicações de arte e leciona internacionalmente.

Batalha Centro de Cinema

Praça da Batalha, 47
4000-101 Porto
+351 225 073 308

batalha@agoraporto.pt

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