Fogo de arte e ofício
Com a mão direita a sentir as folhas das árvores junto das quais passeia e a esquerda a segurar um pequeno gravador que regista as suas palavras, Helena parece contar-nos algo de secreto e instrumental para a compreensão do que vamos ver daí em diante, tanto mais que, a dado ponto, olha por cima do ombro a certificar-se de que ninguém a persegue. A sensação de preciosidade desse plano inicial avoluma-se com o seu fecho logo após a mensagem ter sido concluída, não sem que um fio de estranheza sobrevenha do facto de, ali mesmo, a “estratega” de Todos mienten — o cérebro por trás da máquina de sete pétalas que está prestes a desabrochar perante nós — se entregar voluntariamente à fonte das maiores perseguições: o passado. Ela aceita o determinismo de uma tradição familiar que remonta ao tempo do seu tetravô, Domingo Faustino Sarmiento, escritor e intelectual argentino de perfil viajante que assumiu a presidência do país entre 12 de outubro de 1868 e 12 de outubro de 1874 (coincidência cronológica não mencionada pelo filme, mas que lhe assenta como uma luva). Reza a história, ou a lenda, que a partir deste homem a árvore genealógica de Helena cresceu na obediência a um padrão: sempre que uma filha mulher nascia, o pai morria. Perpetuar a linhagem torna-se assim, qual aviso prévio, o destino anunciado da jovem que convida os espectadores para a casa de onde pretende sair. Antes mesmo de entrar nela, e sem suspeitar, já estamos a andar sobre o léxico de contrários que pavimenta o filme de Matias Piñeiro: passado/futuro, nascimento/morte, realidade/ficção, chegada/partida.
Insidiosamente, à medida que nos instalamos na casa, onde os residentes que nos vão sendo dados a conhecer participam da geração de novas dicotomias, instala-se também em nós um espírito detectivesco, algo da ordem da segurança que responde instintivamente a uma sensação de perda de pé, quando nada parece bater com nada nos termos de apropriação que, desde logo pelo título, nos são sugeridos — se todos mentem, há que descobrir onde a verdade se esconde. É, porém, ao tomar consciência da mentira fundadora desse modelo observacional que temos um primeiro vislumbre de verdade. E vice-versa. Assim que as oposições deixam de funcionar como alternativas, entramos na brecha de onde este filme, noutro sentido, ganha sentido, reverberando as palavras sábias de Susan Sontag: “A verdadeira arte tem a capacidade de nos deixar nervosos. Ao reduzir a obra de arte ao seu conteúdo e depois interpretá-lo, domesticamo-la. A interpretação torna a arte administrável, conformável.”
O prazer fluido na navegação de Todos mienten, quando confrontado com os nós de marinheiro aplicados à narrativa e as sucessivas ondas de dessincronia formal que o sacodem, é a sua marca de água, uma proposta de sintaxe moral para lá do meramente discursivo, abrindo espaço à legitimação de um olhar sobre a mentira como a superfície fotográfica onde a luz da verdade deixa a sua impressão. O jogo de representação a que as personagens se entregam é um mecanismo de reelaboração epistémica que, ao resgatar a estranheza da familiaridade, abre fissuras por onde novas possibilidades de desejo se libertam e encontram campo para circular, permitindo-nos sorrir perante o voo de borboleta em que a dúvida deixa de ser o intervalo entre duas certezas e se torna matéria de arte.
Todos mienten convida-nos a permanecer tempo suficiente junto da aparência para que a ilusão com que proverbialmente a associamos se nos revele como uma tecnologia de passagem. E fá-lo de tal modo que nesse caminho de impermanências nos esquecemos de que o caminho do filme permanece imperturbável. Matias Piñeiro, o realizador, e Helena, a protagonista, chegam a parecer gémeos siameses no ardil da teia que tecem. A história dentro da história na corrente da História. Um conluio que sublinha a tendência contemporânea da arte para a liminaridade e — mesmo evocando assumidamente (nos cartões de título que apresentam cada novo capítulo) cineastas que fizeram escola — convida o espectador a desacademizar-se e a participar no jogo da compreensão do incompreensível.
Um objecto que sai da bruma dos contos de fadas e nos lembra que a camada de fantasia de que fomos espoliados pela funcionalização da vida continua a chamar-nos lá de longe. Nestes tempos de chão a cair, suspensos entre o que está a morrer e o que ainda não nasceu, precisamos de escutar o seu pedido para que não decidamos depressa o que é verdade ou mentira, civilização ou barbárie, arte ou ofício. Criar um espaço comum entre o “ou” e o “e” reerotiza a nossa relação com o mundo. E torna possível que um ponto de interrogação se revele a forma do sorriso de Deus.
O autor escreve segundo a antiga norma ortográfica.
Marcos Cruz
Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto, integrou a redação do Diário de Notícias durante 16 anos, a maior parte dos quais como responsável pela secção de Cultura da delegação Norte. Colaborou comos jornais Correio da Manhã e Norte Desportivo e fez crítica de teatro, música e cinema. Integrou o júri de vários festivais de cinema do país, além de ter organizado e moderado um ciclo de debates no Coliseu do Porto. É autor do livro Os pés pelas mãos (Coolbooks, 2018). Atualmente, é copywriter na Casa da Música.
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