Em 2023, um dia antes da demolição de um armazém abandonado em Providencia, no Chile, o proprietário do edifício encontrou uma coleção particular de cópias de filmes que estavam guardadas há mais de quatro décadas. De facto, a própria providência pareceu abençoar os cinéfilos deste mundo, pois esse herói anónimo, talvez ele próprio um cinéfilo — ou simplesmente uma pessoa invulgarmente escrupulosa nas suas ações —, decidiu entrar em contacto com o Festival Internacional de Cine Recobrado, em Valparaíso, que desde 1997 exibe filmes restaurados e cópias vintage.
Jaime Cordova, o jornalista, professor e investigador que dirige o festival, chegou a tempo ao armazém para inspecionar as cópias. Pessoas na sua posição dão certamente muito valor a este tipo de telefonemas — que, quando resultam em descobertas, são, na maioria das vezes, modestas. São raros os casos de destaque, como a redescoberta, em 1981, da versão não censurada de La passion de Jeanne d’Arc (1928), há muito perdida, encontrada por um zelador num hospício em Oslo. É mais comum que filmes mudos perdidos sejam encontrados aquando da catalogação e inspeção mais detalhada de arquivos existentes: no oceano dos filmes mudos esquecidos, é mais provável dar de caras com uma grande descoberta numa caixa mal etiquetada, no fundo de um arquivo, do que numa despensa de vassouras.
No entanto, as bobinas que aguardavam Cordova encerravam uma descoberta extraordinária, uma importante peça em falta no puzzle da obra de um dos maiores cineastas de todos os tempos. A partir do que viu na fita, o arquivista conseguiu distinguir os familiares contornos estilísticos e narrativos de um filme de John Ford. O que incluía a representação de Abraham Lincoln, ecoando os muitos retratos quase míticos do presidente americano feitos pelo célebre realizador (como se veria novamente, de forma hagiográfica, no primeiro sucesso comercial de Ford, The Iron Horse [1924]). Uma comparação mais aprofundada com as personagens mencionadas nos cartões de título existentes confirmou a identificação: The Scarlet Drop (1918), um popular western protagonizado por Harry Carey que, de outra forma, só teria sobrevivido em fragmentos guardados pelo Museu Getty. Este armazém chileno continha quatro dos cinco rolos do filme, totalizando 40 minutos de exibição, em bom estado de conservação, apesar de terem passado mais de 100 anos em condições verdadeiramente precárias. “Alguns filmes simplesmente querem viver”, afirmou Cordova.
Realizado quando Ford tinha apenas 24 anos, The Scarlet Drop faz parte de uma série de curtas-metragens westerns que o realizador assinou no começo da sua carreira, orientado por Carl Laemmle, na Universal Studios (repare-se na versão maravilhosamente rudimentar do vídeo promocional da produtora, logo no início). Um período prolífico em que Ford realizou 36 filmes, dos quais apenas alguns sobreviveram até hoje.
Com a sua habitual graciosidade física e ternura melancólica, Harry Carey, com quem Ford colaborava frequentemente, interpreta “Kaintuck” Harry Ridge, um homem a quem foi negada a permissão para lutar pela União na Guerra Civil. Confrontado com essa rejeição, livra-se do jugo da sociedade normal, torna-se um fora-da-lei e muda-se para o Oeste. Algum tempo depois, ainda foragido, assalta uma diligência. A bordo estão Calvert, o homem que o impediu de entrar para o exército, e a sua filha adulta, Molly, por quem Harry se apaixona à primeira vista. Agindo com uma ternura comum até ao mais rude dos heróis de Ford, este primeiro contacto é um momento de doçura desarmante da parte de Carey, amplificado pelo gesto sugestivo e silencioso com que retira lentamente o chapéu. Kaintuck Harry é, nos filmes de John Ford, outro daqueles pequenos homens que assistem aos grandes acontecimentos da história, à luta entre o progresso e a barbárie, à lenta caminhada rumo ao futuro, e que são forçados — seja pelo destino, pelo remorso ou simplesmente pela condição humana — a abandonar a sua comunidade para levar uma vida difícil fora da civilização. Quando Harry se cruza com os Calverts naquele momento fortuito, sentimos que ele finalmente toma consciência da sua própria transformação num pária social — um bandido, um renegado.
Como também é evidente nos seus westerns anteriores, Straight Shooting e Bucking Broadway (ambos de 1917), o incrível sentido pictórico de Ford estava intacto mesmo naquela idade incrivelmente precoce. Em The Scarlet Drop, o prelúdio ao assalto mostra Harry a cavalgar pelas terras rochosas acima do deserto, circulando por caminhos de terra batida, antecipando a chegada da diligência lenta, visível à distância. Tais imagens têm uma grandiosidade que confere à história um poder quase primitivo. Especialmente memorável é a extraordinária sequência de perseguição a cavalo nos pântanos à noite, iluminada apenas pela luz das tochas, com as chamas tremeluzentes tingidas de um laranja efervescente (felizmente, as cores originais estavam bem preservadas nos rolos descobertos). Quando Harry vê os cavaleiros a aproximarem-se, apaga rapidamente a fogueira onde ele e Molly se aqueciam, e o efeito é como o do desaparecimento de um feiticeiro: os dois corpos — amantes fugitivos — são consumidos pela fumaça ondulante e extinguem-se na escuridão. Mesmo com todas as maravilhas em redor, às vezes, uma imagem como esta é tudo o que precisamos.
Christopher Small
Christopher Small é crítico de cinema, programador e editor, e vive em Praga, na Chéquia. É responsável pelo editorial e pelas publicações do Festival de Locarno, incluindo a revista diária Pardo, e dirige a Academia de Críticos desde 2017. Durante quatro anos, foi curador internacional da DAFilms e, entre 2019 e 2021, integrou o Comité de Seleção do Sheffield DocFest. É fundador e coeditor da Outskirts Film Magazine, uma publicação anual impressa dedicada ao cinema do passado e do presente.
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