The Prince and the Showgirl

Janaína Oliveira
20 de Junho de 2026

Uma outra Marilyn

Diferentemente do que o título parece sugerir, The Prince and the Showgirl não se resume a uma narrativa romântica convencional nos moldes de um conto de fadas. O longa-metragem de 1957 é o primeiro concebido e executado sob o selo da Marilyn Monroe Productions e atua fundamentalmente como um trabalho de autoafirmação. Por meio desta obra, a atriz, historicamente encapsulada pela indústria na imagem de símbolo sexual passivo, buscou retomar as rédeas de sua trajetória profissional, até então monopolizada pelas diretrizes engessadas de Hollywood.

Com direção e coestrelato de Laurence Olivier, e roteiro de Terence Rattigan a partir de sua peça The Sleeping Prince, o filme serviu como laboratório prático para a transição de Monroe. De início, a trama apresenta a mesma dinâmica de subestimação que marcou a trajetória da atriz: a narrativa introduz Elsie Marina, uma corista americana em passagem por Londres, recebida pelo príncipe regente Charles com o desdém habitualmente direcionado a mulheres de sua classe e ocupação. O arranjo das cenas iniciais no palácio demarca visual e textualmente essa hierarquia: Elsie é posicionada como um adorno, uma distração noturna efêmera para o regente. E aqui é curioso notar como a fricção presente na ficção espelhou a realidade dos bastidores: o próprio Olivier, a princípio, menosprezou a atriz, tratando seu método de trabalho com impaciência e condescendência durante as filmagens. Foi apenas anos mais tarde que o diretor reconheceu publicamente seu erro, admitindo a genialidade do tempo de comédia de Monroe e a força inegável de sua presença em tela. No entanto, o desenvolvimento do enredo subverte ativamente o arquétipo de ingenuidade que tanto a indústria quanto, inicialmente, seu próprio diretor impuseram à atriz.

Essa ruptura de estereótipos ganha materialidade na decupagem e na dinâmica das cenas em que a protagonista vai afirmando sua autonomia de pensamento, seja quando se recusa a interferir nas engrenagens políticas da corte de Carpátia, seja quando impõe sua independência não participando das dinâmicas que a colocam no lugar de objeto. Longe de ser um elemento passivo, a aparente alienação de Elsie revela-se um instrumento analítico. O contraste narrativo atinge seu ápice, por exemplo, nas sequências em que ela revela domínio da língua alemã, tanto para o rei, quanto para o personagem de Olivier. Quando Elsie rompe essa barreira linguística, ela não apenas altera o rumo dos diálogos, mas desestabiliza as hierarquias de ambas as cenas. A performance de Monroe nesses momentos opera a transição de uma atitude supostamente vaga para uma postura de ativa, consciente de sua posição e importância.

Ao navegar por essas intrigas palacianas, a corista assume o papel de mediadora. Sua agência nas cenas de conflito não deriva da força imposta, mas de uma inteligência relacional que falta aos homens de Estado. É Elsie quem percebe que a crise política entre o autoritarismo do regente e o ímpeto de revolta do jovem rei é, em sua raiz, uma fratura afetiva. Ao conduzir o diálogo entre pai e filho, ela utiliza uma perspicácia diplomática que contorna a rigidez institucional do palácio. O intelecto, portanto, desloca o corpo feminino do lugar de fetiche passivo para o de sujeito de ação política e resolução narrativa.

A recusa definitiva em ocupar uma posição subalterna cristaliza-se na sequência final. O desfecho recusa a resolução pacificadora e moralista comum ao gênero. A câmera acompanha o momento da despedida não como uma derrota romântica, mas como uma tomada de posição. Em vez de ceder à estrutura onde a mulher comum abandona sua identidade para ser absorvida e silenciada pela realeza (o clássico complexo de Cinderela), Elsie opta por retornar ao seu ofício no teatro. A encenação de sua partida estabelece que a manutenção de sua autonomia é inegociável. Qualquer continuidade dos afetos para com o regente precisaria ocorrer a partir de uma premissa de igualdade, recusando o enquadramento de resgate paternalista.

Analisando essa postura de independência narrativa em paralelo direto ao contexto profissional vivido pela própria atriz naquele período, a posição irredutível da personagem reflete a movimentação que motivou a fundação da sua produtora. A criação da Marilyn Monroe Productions foi o mecanismo encontrado para materializar a ruptura com o sistema de estúdios da 20th Century Fox, que a limitava a contratos abusivos e papéis rasos. Ao exigir controle sobre o roteiro e a direção, Monroe emitia uma declaração sobre o domínio de sua própria imagem. Assim, a obra transcende a comédia de costumes para registrar uma transição histórica no cinema. Ao desconstruir a tipificação da loira vulnerável por meio da própria performance, emerge na tela uma outra Marilyn. Tornando-se indissociável da figura de produtora e estrategista, Monroe utilizou a ficção para documentar sua própria emancipação, atestando que por trás da superfície moldada pela indústria operava uma mulher, dona de seu olhar e de seu próprio destino.

Janaína Oliveira
Janaína Oliveira é pesquisadora de cinema e curadora independente. Professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e consultora da JustFilms — Fundação Ford, é doutora em História e foi Pesquisadora Visitante da Fulbright no Centro de Estudos Africanos da Howard University. Desde 2009, desenvolve pesquisas e curadoria de programas de cinema, com foco principalmente nos cinemas negros e africanos, além de atuar como consultora, jurada e palestrante em diversos festivais de cinema e instituições no Brasil e no exterior. É fundadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro. Desde 2021, faz parte do conselho curatorial do Criterion Channel. Programou o Flaherty Film Seminar (EUA) em 2021 e em 2025.

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