The Philadelphia Story

Cristina Fernandes
15 de Julho de 2026

Houve um tempo em que o cinema sabia fazer magníficas comédias românticas dentro do próprio sistema de produção dos grandes estúdios. O segredo era juntar um realizador que dominasse o tempo, o espaço e a representação (a famosa mise-en-scène), um argumento bem escrito — com diálogos curtos, rápidos e mordazes — e, claro, actores dispostos a excederem-se. É por ter tudo isto que The Philadelphia Story continua a ser uma obra tão divertida e admirável.

 

Baseado numa peça da Broadway escrita por Philip Barry para animar a carreira de Katharine Hepburn, o filme descreve três dias na vida de Tracy Lord: uma jovem da alta sociedade — bela, inteligente e tremendamente arrogante — que se prepara para casar de novo. A acção decorre quase toda na luxuosa residência da família e abre com um flashback sem diálogos em que a implacável Tracy expulsa Dexter (Cary Grant) de casa e parte-lhe um dos tacos de golfe. Ele ameaça responder com um murro, mas contém-se, abre a mão, empurra-a e ela cai ao chão. Dois anos depois de um divórcio tempestuoso, Tracy vai casar com George Kittredge (John Howard), o perfeito oposto do primeiro marido. Voltamos ao mesmo plano da casa e entramos: estão a preparar a boda.

 

Logo no primeiro diálogo, ficamos a saber que Tracy é uma mulher moralmente intransigente e preconceituosa; o pai está mais ou menos exilado em Nova Iorque depois de um caso com uma dançarina e não foi convidado para a cerimónia; a mãe tem saudades dele, mas submete-se às ordens da filha; e a irmã mais nova, Dinah, detesta George e adora Dexter. Como um duendezinho, a miúda formula o desejo de que algo aconteça, e é esse capricho que vai desviar a história para fora dos eixos. A seguir, conhecemos o tio Willie, um velho aristocrata que gosta de beber e dar uns beliscões. E, por fim, o noivo: apesar de ter subido a pulso na vida, ou por isso mesmo, George não encaixa lá muito bem no snobismo de uma das mais antigas e prestigiadas famílias de Filadélfia, como se vê na forma desastrosa como monta a cavalo. O primeiro núcleo de personagens está apresentado.

 

Num raccord rápido, passamos de um plano da revista de bisbilhotices Spy a ser pisada pelos cavalos para os escritórios onde se engendra uma conspiração. Com a cumplicidade de Dexter, o contrariado jornalista e escritor Macaulay “Mike” Connor (James Stewart) e a sardónica fotógrafa e pintora Elizabeth Imbrie (Ruth Hussey) vão infiltrar-se na casa da família para, como diz o director da revista, Kidd (nesta história todos os nomes têm o seu propósito), fazer a reportagem que dá título ao filme: A História de Filadélfia. Estas são as personagens que vão abalar a festa dos Lord.

 

Nem 15 minutos passaram e os dados já estão lançados. A partir daqui, e à semelhança de Sonho de Uma Noite de Verão, a trama vai enredar-se em numerosos quadros, combates verbais cheios de chiste, trocas de pares, mal-entendidos e por aí fora. O plano de Dinah está em marcha e, apesar do ritmo frenético, Cukor capta todas estas peripécias com enorme elegância, dando aos actores espaço para nos encantarem.

 

Voltamos ao enquadramento inicial da casa, pela terceira vez, para um dia extremamente intenso que preenche mais de metade do filme: a véspera do casamento. Dexter impõe os repórteres como contrapartida para a Spy não publicar nada sobre as aventuras extraconjugais de Seth Lord e impõe-se a si mesmo como elemento perturbador. Em jeito de retaliação, Tracy e a irmã resolvem montar uma excêntrica representação pour épater les journalistes. Dinah aparece em pontas dos pés, a falar francês e, sem mais nem menos, senta-se ao piano a tocar e cantar “Lydia, the Tattooed Lady”. Os esquemas de Tracy são mais sofisticados: lança uma série de alfinetadas aos repórteres, dá cabo do rolo fotográfico e faz passar o tio Willie por pai — e vice-versa quando o pai verdadeiro aparece de surpresa —, sempre com um sorriso falso na cara. Mas as coisas não lhe correm bem: Mike acusa-a de ser uma privilegiada que nada sabe da vida; Dexter e o pai criticam-na por não ter um pingo de compaixão e comportar-se como uma deusa inacessível; só George lhe elogia a moralidade sobre-humana, mas também isso não lhe agrada, pois ela não quer ser adorada como uma estátua. De uma forma geral, as máscaras começam a cair na festa do tio Willie: o pai volta a ser pai; o tio, tio; os jornalistas, jornalistas; e a puritana Tracy, farta da sua realeza, embebeda-se. Não é a única. Perdido de bêbado, Mike vai a casa de Dexter e, no meio da conversa, acabam por vir à baila uns podres de Kidd que vão usar para pôr fim à reportagem forçada. A noite parece não ter fim. Tracy e Mike acabam a dançar e namoriscar junto à piscina. Dexter e George surpreendem-nos depois de um banho: Mike aparece com Tracy ao colo e a cantar “Over the Rainbow”. Mais do que um triângulo, Cukor desenha um inusitado quadrado amoroso. Dinah vê tudo da janela do seu quarto, como um cupido traquinas.

 

O dia da boda começa de forma desastrosa: o tio Willie e Mike estão ressacados, Tracy também e, além disso, não se lembra do que se passou na véspera. É a irmã que se encarrega de a espicaçar, contando-lhe as suas desventuras nocturnas. Tracy percebe que está a transformar-se num ser humano com defeitos, mas o que poderia ser uma perda é, afinal, um ganho: pede desculpa ao pai e a Dexter pelos julgamentos excessivos, renuncia a George e a Mike — que, rico ou pobre, não pertencem à sua classe social — e acaba por seguir as deixas de Dexter e casar com ele outra vez, agora com pompa e circunstância. No fim, Dinah diz que foi ela que conseguiu tudo e não está longe da verdade. Para encerrar um círculo perfeito, o infiltrado director da Spy tira uma fotografia e apanha Stewart, Grant e Hepburn de olhos esbulhados. Como diz o ditado espanhol e Cukor demonstra: com os ricos e poderosos, é preciso um pouco de paciência.

A autora escreve segundo a antiga norma ortográfica.

Cristina Fernandes
Cristina Fernandes (Porto, 1966) é investigadora independente na área do cinema. Desde 2004, escreve sobre filmes e literatura em diversas plataformas, atualmente no blogue Bicho Ruim. Tem publicado artigos em revistas e projetos editoriais dedicados ao cinema, assim como traduções de autores como Emil Cioran, Chantal Akerman e Marguerite Duras, em editoras como Edições 70, BCF e Contracapa. O seu percurso combina crítica, tradução e investigação, refletindo um interesse pelo diálogo entre artes, pensamento e imagens em movimento.

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