Este é, antes de mais, um filme que, por vários motivos, e apesar do próprio objeto e do que John Huston terá desejado que este fosse, fica para a História como uma obra amaldiçoada. Em primeiro lugar, porque foi o último filme de Clark Gable (que morreu de ataque cardíaco aos 59 anos, dias antes da conclusão das filmagens); um ano e meio depois, em agosto de 1962, seguiu-se a morte de Marilyn Monroe, com 36 anos; apenas quatro anos e três filmes mais tarde, em 1966, Montgomery Clift, com 45 anos, morre também. Monroe e Clift ficarão para a história do cinema como duas das personagens mais atormentadas pelo star system de Hollywood e pelo emaranhado de preconceitos, ilusões e ansiedades que empapavam a cultura ocidental da época.
É claro que The Misfits não tinha que, com o tempo, vir a ser lido desta forma; mas é inevitável, contudo, que o tenha sido ao longo dos últimos 60 anos. Além do mais porque, para isso, contribui deliberadamente o guião — pesado, penalizador dos atores, crescentemente inconsistente ao longo do filme — que Arthur Miller idealizou a partir de um conto que havia escrito anos antes, em 1957. É como se, ao longo de toda a narrativa, as personagens não fizessem outra coisa senão procurar a resposta a uma pergunta que Miller coloca na boca de Roslyn (Marilyn Monroe) no final do filme: “Como é que se consegue descobrir o caminho no meio da escuridão?”.
O problema da obra, creio, é o do sobrepeso dos diálogos, a vontade demasiado evidente de escrever para uma atriz em crise amorosa dentro da sua, mais ou menos permanente, crise pessoal, ainda por cima quando o guionista é o marido (prestes a deixar de o ser). Para lá da fotografia impressionante de Russell Metty (que, entre outros, trabalhou com Orson Welles) e da realização muito sólida de Huston, é pena que o filme acabe por ser muito mais guião do que fotografia e mais Miller que Huston. À época, May Tinee, pseudónimo da crítica residente do Chicago Tribune, escreveu com razão que “este filme volta a provar que o palco e o ecrã são meios diferentes e que exigem técnicas de escrita distintas.” Mais ácida ainda, rematou: “Arthur Miller parece estar a esforçar-se por dizer alguma coisa, tal como todas as suas personagens, mas a mensagem não sai.” [1]
Boa parte dos diálogos das primeiras cenas do filme parecem propositadamente (e de forma algo paternalista) escritos para falar de Marilyn e desafiar os estereótipos que toda a vida lhe foram atribuídos. A "loira burra" que se revela, afinal, lúcida e crescentemente autodeterminada, que tem “o dom da vida” (como lhe diz Guido [Eli Wallach]) mas a incapacidade de entender os homens (isto é, de conseguir estabelecer relações estáveis com eles). Digressões em torno de como maridos e mulheres se esquecem de ensinar coisas uns aos outros; ou da ideia de que “estão todos a morrer aos poucos”, pensamentos em torno da solidão e da tristeza (“I think you’re the saddest girl I’ve ever met”, diz-lhe Gay/Clark Gable)... Arthur Miller encheu os diálogos de reflexões sobre a vida e sobre a morte, sobre tirar a vida a pessoas e a animais, numa toada que, a posteriori, foi frequentemente considerada premonitória. De novo, foi a tragédia pessoal de Marilyn e do próprio Gable, até mesmo de Clift, a dar um sentido adicional a um guião que, de outra forma, provavelmente não teria ficado para a História.
O papel de Monroe — um dos muito raros num filme dramático e, de entre estes, o único verdadeiramente escrito para ela — permite-lhe um registo absolutamente consistente de representação na primeira metade do filme, aquela em que a história e as personagens não são apenas credíveis, mas na qual, para contrariar a crítica do Chicago Tribune, a mensagem é efetivamente percetível. Marilyn aparece-nos, nesse momento, e apesar de todos os vestidos de designer e da intensidade da maquilhagem com que se apresenta, como uma mulher em transição para a maturidade e que deliberadamente rejeita a personagem que Hollywood lhe construiu, a da dumb blonde (que hoje todos parecem reconhecer que ela soube competentemente pôr em cena), cujas fotos (da própria Marilyn Monroe em vários dos seus papéis anteriores) Roslyn deixa coladas atrás da porta de um armário da casa que passou a partilhar com Gaylord (tratado por Gay ao longo do filme), o cowboy em crise de identidade representado por Clark Gable. A atriz, que começara a sua carreira em 1950 num filme emblemático de Huston (The Asphalt Jungle), foi sempre muito elogiosa do trabalho do realizador.
Já na segunda metade do filme, de que quase só se aproveita a fantástica fotografia a preto-e-branco, Monroe é obrigada a debitar frases forçadas que Miller põe na sua boca, encenando uma espécie de “verdade” moral e psicológica que, rezam as biografias, o dramaturgo quis colar à pele da mulher de cujo drama pessoal se apropriaria em obras posteriores. [2] A única outra personagem feminina — uma mulher lúcida e bem humorada encarnada pela extraordinária Thelma Ritter — desaparece nesta segunda metade do filme, deixando Monroe rodeada de três magníficos atores (Gable, Clift e o possante Eli Wallach), cada um debatendo-se com personagens sofridas, teimosas e carentes que Miller desenhou a traço tão grosso que poucas vezes parecem convincentes. Deixando a Roslyn o papel de centro de produção moral da narrativa, qualquer dos atores masculinos pode sair-se melhor do que ela, o que nos deixa (a mim, pelo menos) a sensação amarga de perceber que este foi o último papel da atriz. [3] Para ser o último, seria preferível que tal tivesse sido qualquer um dos papéis fantásticos de comédia que ela paciente, mas caoticamente, soube construir em Bus Stop (1956), em Some Like It Hot (1959), ou até mesmo em The Prince and the Showgirl (1957).
[1] "The Misfits is talkative and lengthy". (1961, 2 de fevereiro). Chicago Tribune.
[2] Miller, A. (1964). After the fall [Peça de teatro].
Miller, A. (1987). Timebends: A life. Grove Press.
[3] Monroe deixou filmagens incompletas de Something’s Got to Give (Cukor, 1962). A produção foi suspensa pela 20th Century Studios, que despediu a atriz, tentou sem sucesso substituí-la por Lee Remick, e acabou por chegar a acordo com Monroe para retomar as filmagens. A atriz, contudo, morreu poucos dias depois.
Manuel Loff
Manuel Loff é Doutor em História e Civilização pelo Instituto Universitário Europeu (Florença), professor de História Contemporânea na Universidade do Porto e investigador no Instituto de História Contemporânea-NOVA FCSH/IN2PAST e no Centre d’Estudis sobre Dictadures i Democràcias (Universitat Autònoma de Barcelona) nas áreas da História política, ideológica e social do século XX, especialmente no estudo do fascismo e do neofascismo, das revoluções e dos processos de transição autoritária e democrática, e dos estudos da memória coletiva. Escreve no diário Público desde 2011.
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