Punch-Drunk Love

Pedro João Santos
30 de Abril de 2026

Paul Thomas Anderson sabe como pôr a render um ativo: pegando fogo à carteira. Em 2002, investir em Adam Sandler era imprimir dinheiro na ordem dos nove dígitos, e aguardar para recolher os maços das bilheteiras de cinema. Sandler estava então em pico de forma: um cómico sem a motricidade fina de um Jim Carrey, mas com toda a motricidade grosseira do slapstick, naturalmente tendente para a flatulência, para as vozinhas parvas, para o humor de balneário. Anderson tinha-o ao seu dispor, o palerma afável dos domingos à tarde, o primo mais velho de quem todos gostam, e encolheu os ombros. Não se desfez desse Sandler por inteiro: deu-lhe corda e fechou-o numa caixa. Deixou-o circular e bater nas paredes, ferido, mas inamovível, até ser todo ele um hematoma sem Deus nem razão.

Angústia, ansiedade. Estamos na presença de um filme cruel para o espectador? O que dizer, então, de Uncut Gems (2019, Josh e Benny Safdie), espécime ainda mais implacável do cinema-panela-de-pressão a que Sandler chama um passatempo? Punch-Drunk Love só é cruel para o Sandler da época. Anderson, um Pavlov fílmico, a provocá-lo com a sineta do caricato; até um piaçaba chega a partir. Exige-lhe força nas canetas e saca-lhe acessos de raiva, como em Happy Gilmore (1996) e The Waterboy (1998) ,mas, ao contrário desses filmes, não lhe concede qualquer triunfo ou redenção de carácter. Anderson, um Yosemite Sam argumentista, a disparar sobre os pés de Sandler, o Bugs Bunny obrigado a dançar por entre os tiros.

Se nas suas comédias dos anos 1990, Sandler interpretou o que o crítico Bilge Ebiri designa “variações expressionistas sobre o idiota estilizado”, a permutação em Punch-Drunk Love é absurdista. Encriptada e mirrada. É o protagonista médio — cromo irascível, perdido dentro de si — de um conto de Roberto Bolaño. E Anderson tem ainda o desplante de pedir ao seu personagem, Barry, que seja ele próprio o inventor da sua recompensa: um deus ex machina a pulso, tão forjado que se desqualifica da expressão latina. Isto se não aceitarmos muito simplesmente, que a máquina é o amor, desconexo e insistente no seu adejar.

Embriagado de Amor, afirma certeiro o título do lançamento em Portugal, ainda que perca o sentido do original: referência à punch-drunk syndrome, a “demência dos pugilistas”, de impactos acumulados na cabeça. O amor enquanto traumatismo craniano: bonita imagem, não haja dúvida, mas não explica toda a fúria de viver repentina de Barry. No primeiríssimo plano de Punch-Drunk Love, já veste um anómalo fato azul — cor vivaça, um ou dois tamanhos acima — para o estranhamento geral (e continuado) dos colegas e familiares. Também no início do filme, um harmónio (nunca ouvido na banda sonora de Jon Brion) é depositado à sua porta; talvez esta seja a verdadeira máquina. Por que motivo seja, está a mudar, processo em curso. Admite não saber porquê, e nem por isso reprime o impulso.


Quando conhece a Lena de Emily Watson, magistral na sua forma de adocicar uma intrusão total, o Barry de Adam Sandler fecha-se em copas (prudente!). Quando um telefonema para uma linha erótica — inócuo, sem sexo, um gesto contra a solidão — se revela uma tentativa de extorsão, algo desbloqueia o personagem. Algo anula o que seria o seu melhor instinto protetor, como se entendesse que, nos trânsitos do amor, não há procedências mais válidas do que outras. Nem tampouco há sujeitos mais aptos para o romance. Lena e Barry giram no “carrossel dos esquisitos”, como apelidado pelos Clã, com uma química latente e confrangedora. Na cama, Barry afirma querer partir a cara de Lena; esta, por sua vez, confessa desejar arrancar-lhe os olhos com uma colher.


Watson e Sandler corporizam a inadequação à vida, individual e partilhada, e como isso não tem de ser castrador. Robert Elswit, o diretor de fotografia, dá-lhes uma bênção especial: expulsos de um restaurante, procuram o carro e deixam-se captar em tons de azul; um One from the Heart improvisado à luz de um stand de automóveis. Supõe-se que Barry pagará tudo isto a duras penas, no clímax com Dean Trumbell, vendedor de colchões e coordenador da falcatrua. Coube a Philip Seymour Hoffman assumir esse perfil tresloucado, assíduo nos filmes de Anderson, de quem acabou de roer um fio de alta tensão — como Alfred Molina o fez em Boogie Nights ou como Bradley Cooper o faria, mais tarde, em Licorice Pizza. Quase no fim, sacode o telefone fixo, e há aí um quê de terror: não percebemos se o faz para esticar o cabo ou para ensaiar um murro.


Diz muito da força de Adam Sandler que, nesse duelo, seja a sua intervenção a mais assustadora: “I have a love in my life. It makes me stronger than anything you can imagine.” Esse amor, esse mesmo: apesar de abandonado à sua porta, apesar da cor aberrante, apesar de ter chegado um ou dois tamanhos acima.

Pedro João Santos
Jornalista, radialista e programador de cinema (n. 2001). Focado na crítica de música pop, escreve para o Ípsilon, no jornal Público, e outras publicações (The Guardian, The Quietus, Bandcamp Daily). Trabalha na Antena 1, rádio para a qual concebeu o documentário Madonna: A Lei da Reinvenção. Após defender uma dissertação sobre telediscos de António Variações e Lena d’Água, tornou-se mestre em Etnomusicologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Fundou o cineclube da associação cultural Albardeira, produzindo e moderando sessões no Teatro Municipal de Ourém.

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