Segundo Ovídio, Narciso era um rapaz belo, alvo da paixão de homens e mulheres, que um dia, ao ver pela primeira vez o seu rosto refletido na água, se apaixonou perdidamente pelo próprio reflexo. Incapaz de concretizar aquele amor, permaneceu à beira do lago, admirando-se até morrer de angústia, fome e sede.
No início do século XX, Freud recuperou este mito clássico para desenvolver uma rebuscada teoria do narcisismo, na qual relacionou a escolha narcísica com a homossexualidade.
O Narciso deste filme é mais literal: olha-se ao espelho, delicia-se com a sua imagem e entrega-se ao autoerotismo. O protagonista, interpretado por Bobby Kendall, imagina-se em cenários e fantasias envolventes: num harém, como escravo romano, ou a tourear a própria imagem no espelho e satisfazendo-se com a visão do seu corpo coleante, revelado pelas calças justas.
É apresentado como um prostituto que mergulha nas suas fantasias para escapar a uma realidade difícil, mas prefiro não me agarrar a esta storyline, pois o filme, sem diálogos e com a estrutura delirante dos sonhos e dos pesadelos, dificilmente satisfaz quem procura uma história com princípio, meio e fim. O próprio autor, James Bidgood, afirmou que a edição final de Pink Narcissus, feita à sua revelia, tinha transformado o filme em algo que nem ele conseguia acompanhar e durante o qual era difícil manter-se acordado.
Foi, aliás, a discordância com a edição imposta pela distribuidora que levou Bidgood a retirar o seu nome dos créditos finais. Realização, argumento, fotografia e produção surgem sob anonimato, e a identidade do autor permaneceu durante muitos anos em segredo.
Esta perda de controlo sobre a identidade da sua obra só pode ter sido dolorosa para Bidgood, que, durante sete anos, entre 1963 e 1970, filmou clandestinamente no seu apartamento, praticamente sem orçamento. Campos de flores, a lua, os pássaros: toda a natureza de Pink Narcissus é artificial, criada artesanalmente com papel, retalhos de vestidos, brilhantes e todo o tipo de objetos encontrados. Até a iluminação, colorida e saturada, foi conseguida com recurso a gelatinas coloridas e filtros brilhantes. Bidgood era também figurinista e drag queen, e essa experiência atravessa a construção visual do filme.
É difícil imaginar alguém a viver dentro daqueles cenários, mas foi isso que aconteceu. Muitos anos depois, numa entrevista à revista Butt, Bidgood contou que o seu apartamento tinha tão pouco espaço que partilhava o colchão de solteiro com um manequim de gesso de quase dois metros, que usava para fazer moldes de papel machê e drapear figurinos.
Pink Narcissus ganha outra dimensão quando conhecemos as curiosidades da sua produção e o contexto histórico e social em que foi criado.
O filme foi lançado em 1971. A Revolta de Stonewall tinha acontecido apenas dois anos antes e a homossexualidade ainda constava da lista de perturbações mentais do DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders). A sua classificação como doença mental conferia legitimidade científica e institucional a um estigma com consequências concretas: pessoas homossexuais podiam perder empregos, ser sujeitas a intervenções psiquiátricas, perder a guarda dos filhos ou enfrentar perseguição legal por causa da sua orientação sexual.
A sociedade da época considerava as relações homossexuais antinaturais, e Bidgood respondeu criando um mundo assumidamente artificial, onde todas as fantasias eram permitidas e livres de vergonha, censura e violência estatal.
Dentro de quatro paredes, Bidgood construiu um mundo seguro e idealizado. Um paraíso queer intenso, luxuriante, vibrante, excessivo e artificial. Pura estética camp, no sentido que Susan Sontag havia descrito poucos anos antes.
Na cultura gay da época, o camp funcionava como uma linguagem partilhada e como uma forma de resistência. Através do exagero, da teatralidade, da ironia e do artifício, permitia brincar com as normas de género e ridicularizar a seriedade com que essas normas sociais se apresentavam como naturais.
Pink Narcissus é uma exaltação do prazer homossexual e um protesto estético. Uma afirmação do direito ao prazer e à beleza.
A história é sacrificada em favor da estética, da cor e da fantasia, transformadas em instrumentos de libertação e de sobrevivência psicológica. As suas imagens envolventes ajudaram a estabelecer um imaginário gay e abriram caminho a artistas como David LaChapelle ou Pierre et Gilles.
Pink Narcissus celebra este ano o seu 55.º aniversário e conhecê-lo é conhecer um pouco mais da história queer.
André Tecedeiro é poeta, dramaturgo e artista plástico. É licenciado em Pintura (FBAUL) e em Psicologia (FPUL) e mestre em Artes Plásticas e em Psicologia do Trabalho. Publicou oito livros de poesia em Portugal, Brasil, Colômbia e Espanha, entre os quais A Axila de Egon Schiele (Porto Editora, 2020), recomendado pelo Plano Nacional de Leitura. Os seus poemas estão representados em mais de vinte revistas literárias e antologias. Para teatro, escreveu Joyeux Anniversaire (2021), Desfazer (2021) e O Ensaio (2023).
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