Peter Hujar's Day

Pedro João Santos
23 de Janeiro de 2026

Em Peter Hujar’s Day, filme-conversa, bastam dois minutos para o gravador ficar esquecido. A escritora Linda Rosenkrantz pousa-o sobre o vidro, aciona o mecanismo que vai registar as vozes, e faz as bobines girar. Se o microfone metálico decide espreitar, fá-lo com timidez, rasante ao plano, consciente de que é supérfluo em campo. Quando o dispositivo da fita magnética volta a aparecer, é um bibelô na mesa, ao lado do cesto de frutas, do serviço de chá, do castiçal. Trocado por miúdos: a tecnologia reduz-se à sua insignificância, incapaz de interferir no falatório.

Nem sempre é assim. A captação desfigura a privacidade do momento: impõe-lhe um auditório iminente ou imaginado, e imprime consequências aos enunciados que, de outra forma, seriam feitos com liberdade. Veja-se Weekend (2011), de Andrew Haigh, em que um dos personagens complica um one night stand: não só acorda ao lado de um estranho, como o convida a descrever a corte e o coito, gravador em punho. O parceiro responde-lhe com meias-palavras, num discurso pudico e truncado. Mas um aparelho semelhante não constrange o fotógrafo Peter Hujar, que reconstitui fielmente as suas últimas 24 horas, a pedido de Rosenkrantz. Interpretam esses papéis, com sensibilidade calibrada e um afeto especial, Ben Whishaw e Rebecca Hall.

Ira Sachs, realizador de Love is Strange (2014) e Passages (2023), dramatiza o relato a partir de uma transcrição de Rosenkrantz (a fita perdeu-se, explica-nos um intertítulo). Tintim por tintim: não parece suprimir nenhum elemento. O pão de grão germinado que Hujar levou à boca. O telefonema de um conhecido, anunciando que se masturbava. A revelação, na câmara escura, dos seus míticos retratos a preto-e-branco (um deles é hoje a capa de A Little Life, polémico romance de Hanya Yanagihara). O cartão para as impressões fotográficas que está quase a acabar. As emendas que tem de fazer à sua assinatura desengonçada… Pode a rotina ser de outra forma? Cíclica, induz um tom monocórdico, e nem falar com Susan Sontag e Allen Ginsberg faz surtir algum entusiasmo na fala. É natural: era tudo malta ombro a ombro, apenas “artista[s] entre artistas, numa cidade em que ninguém ganha dinheiro”, explica Sachs.

Mas Peter Hujar’s Day trata essa ordem de trabalhos com um prazer hipnótico. A ata arrasta-se em discurso direto, ininterrupto, pelas diferentes divisões de um apartamento impossivelmente estético: regalo de cores e ângulos, patamares e artesanato. Por limitado que seja, o movimento deste Sachs mede-se pelo décor e pelo entardecer, pelo encaixe dos corpos e da luz. E há ainda uma mão-cheia de interlúdios surrealistas, ao sabor de Pablo Larraín (Spencer, 2021), numa ação disruptiva sobre a linearidade do diálogo: Whishaw e Hall quebram a quarta parede, ao som de Mozart, fazendo poses de um rigor pictórico.

Ao fim e ao cabo, estamos na companhia de um vulto da Nova Iorque nos anos 70 e 80, ou não estamos? Toda a banalidade nos interessa quando o sujeito nos seduz. Se assim for, o nosso olhar rima com o de Rosenkrantz — ou talvez o queiramos imitar ativamente. Difícil não cobiçar a generosidade da sua expressão enquanto ouve o amigo dissertar sobre algo tão frívolo como o cliente do restaurante chinês que rabisca com caneta de feltro um cartão de visita. Azucrina Hujar por não comer vegetais suficientes; não tem problemas em recordá-lo de que ele consegue ser hostil no trato. E, num raro momento de ternura mais física que tácita, deixa-o demorar a cabeça sobre o seu colo. Rosenkrantz é o contraponto feliz do olhar intruso em My Dinner with Andre (1981), pertencente ao empregado de mesa que desconfia do parlapié em cena. A algum ponto das quase duas horas do filme de Louis Malle, belíssimo e exaustivo, será certamente tentador para o espectador identificar-se com ele.

Aqui, a figura a seguir é Rosenkrantz: modelo do encantamento platónico. Tal como Wally em Andre, o mais condecorado filme-conversa de todos, é ela que se contenta com o mister de entrevistador, satisfazendo a sua curiosidade; o outro será o orador dominante, mas não desinteressado no interlocutor. Mas Sachs opõe-se a Malle em quase tudo o resto. Também se debruça sobre intelectuais, mas dispensa o onanismo intelectual. Rejeita monólogos meticulosos, para abraçar o ritmo para-arranca da oralidade; como quem diz, a tagarelice — se não mesmo a coscuvilhice — deve ser disforme e naturalista. E, na era de podcasts compulsivos e conversas instrumentalizadas para autopromoção, esse não é um gesto menor.

Em Peter Hujar’s Day, põe-se o sol e a conversa continua, num leito; as nucas encostadas à parede. Hujar vai desempacotando o resto do dia passado, recortado pela luz filtrada da janela: um holofote sobre a amena cavaqueira, que não alcança Rosenkrantz. A amiga, de braços cruzados, fita-o com um sorriso fechado e refastela-se na penumbra.

Pedro João Santos
Jornalista, radialista e programador de cinema (n. 2001). Focado na crítica de música pop, escreve para o Ípsilon, no jornal Público, e outras publicações (The Guardian, The Quietus, Bandcamp Daily). Trabalha na Antena 1, rádio para a qual concebeu o documentário Madonna: A Lei da Reinvenção. Após defender uma dissertação sobre telediscos de António Variações e Lena d’Água, tornou-se mestre em Etnomusicologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Fundou o cineclube da associação cultural Albardeira, produzindo e moderando sessões no Teatro Municipal de Ourém.

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