Perfect Blue

Isadora Neves Marques
18 de Setembro de 2026

Não seria ousado da minha parte afirmar que a fan fiction tomou conta dos media contemporâneos — mas também do público. Noutros tempos, fãs reuniam-se em míseros clubes temáticos e, mais tarde, em chatrooms na Internet dedicados a discutir os seus filmes, séries de televisão, bandas desenhadas e romances favoritos; escreviam e partilhavam entre si histórias personalizadas e não oficiais sobre assuas personagens prediletas; preenchiam buracos numa determinada mitologia, fantasiavam romances, faziam shipping entre personagens e desenhavam pornografia que subvertia orientações sexuais. Isto foi antes de a Comic Con ser o evento que é hoje e de os easter eggs, bem, serem simplesmente sobre os ovos da Páscoa. A fan fiction era o território dos nerds; algo socialmente embaraçoso, com pouco ou nenhum peso nos media que emulava. Eventualmente, alguns fãs acabariam por entrar na indústria e escrever os seus ídolos ,e talvez tenha sido aí que tudo mudou. Mas foi também a própria indústria, ansiosa em lucrar de uma cada vez mais significativa propriedade intelectual, que começou a ceder aos fãs — não necessariamente para realizar os seus sonhos, mas certamente para brincar com eles. Hoje, os fãs reivindicam vocalmente as suas histórias; ficam furiosos quando séries, sequelas e spin-offs não os satisfazem; mostram-se enraivecidosonline quando, aos seus olhos, as personagens agem de forma incoerente; boicotam e fazem review bombing àquilo queconsideram errado. O resultado é um simulacro de fantasias, sempre satisfeitas, sempre frustradas — um universo mediáticopobre que soa intuitivamente vazio, derivativo, brain rot. Poder-se-ia dizer que a fan fiction começou com Star Trek e Star Wars(talvez até com Tolkiene a sua mitologia da Terra Média, pré-Peter Jackson), mas o universo Manga no Japão e, sobretudo, os populares yuru-kyara, personagens vazias, sem qualquer biografia ou propósito senão promover um qualquer negócio ou produto — pense-se na Hello Kitty e nos seus amigos da Sanrio — são aqui fundamentais.

 

Estas personagens fofas (cutified) foram deliberadamente criadas para serem colecionadas e para que os fãs se projetassem nelas. Da passagem da fan fiction sobre personagens mediáticas para a fan fiction sobre pessoas reais é um pequeno passo, isto é, a ficcionalização narcisista de ídolos pop e celebridades ou a ideia de que os nossos heróis nos pertencem. Afinal, quando alguém se torna um objeto mediático, o seu eu deixa de lhe pertencer inteiramente. Torna-se um objeto cultural: libidinal, erótico, pornográfico.


É precisamente aqui que Satoshi Kon coloca Mima, a protagonista de Perfect Blue, uma estrela pop que deseja mudar de carreira, passando da música para a televisão ou o cinema. Mas estão os seus fãs disponíveis para que tal aconteça? Não tarda para que Mima dê por si a perdera noção da realidade, atormentada por expectativas que não são suas, vendendo-se a si própria — e o seu corpo — por nada, simultaneamente horrorizada e fascinada pelo love bombing criminoso dos seus perseguidores, arrastada para o então novo mundo online e lendo-se a si mesma como se estivesse num romance, pressionada pelos seus agentes a encarnar uma fantasia erótica, literalmente traduzida numa cena de violação diante das câmaras, sujeita quer a um prazer perverso quer a um fascínio repulsivo. Entretanto, aqueles mais próximos acabam por ser brutalmente assassinados. Mima, cantora, atriz, fantasia, simultaneamente objeto e sujeito — quem é ela? Uma mulher sexualizada, retratada de forma neurótica, reprimida e propensa a atos homicidas, determinada, mas nem por isso menos subserviente.


Perfect Blue( 1997) é a primeira longa-metragem de Kon e encontramos já aqui os traços que viriam a definir a sua carreira. Assistente e, por vezes, co-argumentista dos lendários realizadores Katsuhiro Otomo e Mamoru Oshii, Kon não era estranho à confusão psicológica entre realidade e fantasia. Uma confusão própria de uma época em que o mundo se tornou global, todos nós nos tornámos sujeitos capitalistas e todos os recantos da realidade passaram a ser mediados. Para o bem e para o mal, Perfect Blue é um estereótipo dos meados dos anos 90. À semelhança de Lost Highway (1997) e, mais tarde, Mulholland Drive (2001) de David Lynch, ou de The End of Violence (1997) de Wim Wenders, Perfect Blue constrói-se conscientemente de insinuações e reviravoltas narrativas, da dissolução psicótica da protagonista, dos media e dos seus dispositivos tecnológicos (ecrãs de televisão, câmaras de vídeo, a World Wide Web), que se fundem numa fantasia mortal. Há algo de quase nostálgico no filme, agora que, hoje, a psicose foi normalizada, cada um de nós vívida e deprimentemente parte de um drama capitalista viral, sórdido e emocionalmente envolvente, observado panopticamente em infindáveis ecrãs portáteis. A vertigem autoconsciente de Perfect Blue desperta em nós, público e elenco combinados, a noção de que somos todos uma ficção enganadora.


E assim é também com os problemas de género de Perfect Blue— ou, de modo mais geral, com os problemas do corpo. A dismorfia e uma forma feminina idealizada ou a fealdade do voyeurismo traduzida em traços físicos anormais, a própria política da normalidade, são exploradas aqui de forma impiedosa e de modos que certamente incomodam muitos hoje — mas que, ainda assim, perturbam a nossa moralidade, ela própria capitalizada e viralizada para benefício privado. Mima é perseguida por si própria, ou por uma imagem idealizada de si mesma, vestida a rigor e pronta para o palco, alegre e avidamente segura de quem é, de forma maníaca, em pânico, lembrando a quem quer que Mima seja ou queira vir a ser que ela não pertence a si própria. Afinal de contas, é impossível apanharmos a nossa própria sombra.

Isadora Neves Marques
Isadora Neves Marques é realizadora de cinema, artista visual e escritora. Os seus filmes estrearam em festivais como Cannes (Semana da Crítica), Toronto e Roterdão. Em 2022, foi distinguida com o Ammodo Tiger Short Award. No mesmo ano, foi a Representação Oficial Portuguesa na 59.ª Bienal de Veneza e recebeu, entre outros prémios, o Special Prize do Pinchuk Future Generation Art Prize. É cofundadora da produtora de cinema Foi Bonita a Festa e da editora de poesia Livros do Pântano. Contribui regularmente para o e-flux Journal e é autora dos livros de poesia A Campa de Marx (2025) e Sex as Care and Other Viral Poems (2020), da coletânea de contos Morrer na América (2017) e de várias antologias de pensamento. É doutoranda na Ruskin School of Art, Universidade de Oxford.

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