Uma das características essenciais das imagens, sobretudo das imagens em movimento como o cinema, é a poderosa relação mnemónica que mantêm com a realidade. Juntemos-lhe a potência que lhes advém da ficção e encontramos nelas uma ferramenta fundamental para o entendimento do mundo.
O filme Palestine 36 enquadra-se perfeitamente neste quadro de reactivação da memória em tempos absolutamente desmemoriados, como os que vivemos, marcados de modo inequívoco pela temporalidade maquinal da instantaneidade.
Aliás, não será por acaso que a realizadora coloca de forma deliberada uma data no título: 1936 foi a sua escolha. Poder-se-ia pensar em outros filmes; tantas são, infelizmente, as possibilidades: 1948 (a Nakba), 1967 (ocupação ilegal dos territórios palestinianos), 1993 (Acordos de Oslo), 2000 (Segunda Intifada), 2014 (agressão militar contra Gaza). Todas estas referências temporais são o resultado de eventos que, tal como no filme, foram forjando a história de um povo colonizado até ao presente.
As datas afirmam-se como marcadores contextuais importantes; trazem a história incrustada em si. Daí o grande acerto da realizadora em colocar a data no título do filme: à necessária memória junta-se, desta forma, a história e o seu percurso. E é esta associação que permite ao filme libertar-se das amarras do documento que apenas chega até nós e se mostra perante nós. A história, ao contrário da memória, persiste no tempo; ultrapassa o nosso tempo. A história tem um passado, um presente e um futuro. Daí a sua importância no contexto de resistência a que o filme quer pertencer. Annemarie Jacir nunca quis fazer um filme “neutral”; nunca o poderia fazer. O seu filme é, acertadamente, parcial. A resistência, diz-nos a história, tem um futuro; a resistência, diz-nos a estória contada no filme, tem um futuro. Não é, portanto, possível ser neutral perante a história.
A compreensão do mundo que passa pelo olhar dos fazedores de imagens e que é partilhada connosco é, assim, importante para que possamos pensar de forma autónoma e informada.
A realizadora coloca Palestine 36 antes da grande catástrofe de 1948, a Nakba palestiniana, e, ao fazê-lo, está a dar-nos elementos fulcrais para o entendimento do trauma que perdura até hoje. Isto não pode, por isso, ser visto como uma acção diferida, no sentido psicanalítico do termo, quer dizer, um olhar para trás liberto do trauma. Este encontra-se bem presente e profundamente incutido na população palestiniana. Seja no interior dos territórios ocupados, seja no exílio onde vive a maioria.
A questão palestiniana não é, nunca foi, uma questão religiosa. É um problema colonial. O filme dá-nos pistas importantes sobre a presença colonial europeia, sobretudo no período seguinte à famigerada Declaração Balfour e às repercussões que teve na zona, então chamada Palestina, com a promiscuidade que o colonizador manteve com as novas organizações sionistas preparadas para ocupar o território e expulsar os seus legítimos habitantes.
E, estranhamente, as imagens que o filme nos mostra são quase brandas diante dos desenvolvimentos que 90 anos de colonização, primeiro britânica e depois de Israel, fizeram chegar até nós, numa espiral de violência crescente até ao actual limite ético do genocídio. À excepcionalidade da violência de então, estranha aos habitantes da região, afirma-se hoje a sua normalização, infelizmente tornada habitual para os actuais habitantes dos territórios ilegalmente ocupados. Netos, pais e alguns sobreviventes que se recusaram a sair em 1948 são testemunhas de uma agressão que parece sem fim.
Há um momento no filme em que um resistente palestiniano é violentamente agredido e depois morto porque, perante os militares britânicos, mantém um sorriso de esperança. É um momento especial, pois representa muito da forma de resistir que este povo encontrou. Nunca enterrado num pessimismo niilista (que bem poderia ter-se apoderado dele, dadas as duras condições em que sobrevive), antes numa relação duradoura e firme com formas de cultura de alto nível. A poesia, a música, as artes visuais, o cinema e o pensamento sempre foram companheiros do caminho da resistência.
Este povo dignifica a sua cultura ao preservar activamente os seus valores. Lembremos o grande poeta Mahmoud Darwish, o pensador incontornável Edward Said, mas, sobretudo, a poesia de Refaat Alareer (poeta assassinado, juntamente com toda a sua família num dos múltiplos bombardeamentos realizados por Israel na sua actual agressão a Gaza):
If I Must Die, Let It Be a Tale
If I must die,
you must live
to tell my story
to sell my things
to buy a piece of cloth
and some strings,
(make it white with a long tail)
so that a child, somewhere in Gaza
while looking heaven in the eye
awaiting his dad who left in a blaze—
and bid no one farewell
not even to his flesh
not even to himself—
sees the kite, my kite you made, flying up above
and thinks for a moment an angel is there
bringing back love
If I must die
let it bring hope
let it be a tale
Palestine 36 é exactamente isto. A sua importância é grande num mundo que, de forma hipócrita, não quer ver isto. Pode ser que o cinema tenha o poder de alterar esta situação. Quando tudo parece desabar, a utopia sempre nos acompanha…
P.S.: no momento em que escrevo, recebo a notícia de que há um “risco de morte” para os oito grevistas de fome, de um total de 24 presos em Inglaterra por se oporem pacificamente à agressão de Israel contra Gaza e à cumplicidade militar do Reino Unido. A sua organização foi declarada terrorista. Ao entrarem na sexta semana de greve, arriscam-se a contrair problemas de saúde irreversíveis. Ao que parece, o império que forjou os acontecimentos de 1936 permanece preso a essa condição e continua a agir como tal — apesar de a história já ter seguido outro caminho.
Fernando José Pereira
Fernando José Pereira (Porto, 1961) é licenciado em Pintura pela Universidade do Porto e Doutor em Belas Artes pela Universidade de Vigo. Desde os anos 90, desenvolve uma prática artística na qual se destaca a utilização do vídeo. Enquanto membro do coletivo de música eletrónica experimental Haarvöl, tem vindo, mais recentemente, a explorar a relação entre o vídeo e a música. A sua obra integra as coleções da Fundação de Serralves, do Centro Galego de Arte Contemporânea e da Fundação Calouste Gulbenkian, entre outros.
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