Aníbal Fernandes, tradutor de quase tudo o que é gay e francês, diz (os itálicos são dele) que em 1919, tinha então 30 anos, Jean Cocteau conhece Raymond Radiguet, de 16, talentoso gato selvagem, prodígio das letras, mais tarde autor d’O diabo no corpo. “Fazia caretas como se estivesse ao sol”. Aos 20, a morte levou-o. Perante as consequências bem visíveis desta perda, Lucien Daudet escreve: “Cocteau devia ter ido atrás do seu amigo”. Em 1925, enquanto convalescia de Radiguet, doença do amor e doença da morte, e caído no zero do ópio, escreve um Orphée para o teatro.
Nas Metamorfoses, Ovídio conta que Eurídice “passeava num prado”, quando uma serpente lhe morde o calcanhar. Ela morre. “Depois de muito a ter chorado”, Orfeu ousou descer ao lugar dos que já não vivem, e, lá, “dedilhando as cordas, assim cantou”: “A razão da minha vinda é a minha esposa, a quem uma serpente” roubou “os anos juvenis. Quis ser capaz de tal suportar, e não negarei que o tentei: mas o Amor venceu”. “Por estas paragens repletas de pavor, por este Caos ingente e o silêncio deste reino imenso, rogo: tornai a tecer o destino apressadamente cortado de Eurídice. Todos nós vos somos devidos”, “tarde ou cedo”: “peço que ma deis por empréstimo”.
Em 1932, faz o seu primeiro filme-de-Orfeu, Le sang d’un poète, “descida em mim próprio”. E diz: “Achas que é fácil fechar a boca de uma ferida?”
Assim cantou Orfeu, diz Ovídio: e as coisas secas choraram. Hades e Perséfone aceitam devolver Eurídice ao mundo dos vivos, “com uma condição”: Orfeu não pode olhar para trás, para Eurídice, “até ter saído dos vales do Averno”.
Em 1937, conhece Jean Marais: Orfeu. Em 1938, escreve: “És a minha única obra-prima, e só vou trabalhar para ti, filme ou teatro”. E em 1939: “Quero que o nosso amor seja continuamente excessivo”. “Sempre em lâmina, em escândalo, em força”.
Sobem “pelo meio de silêncios mudos”, diz Ovídio, e já pouco faltava, quando Orfeu, “receoso de ela não vir atrás e ansioso por vê-la, voltou o olhar, apaixonado. De súbito”, Eurídice “desliza para trás. Esticando os braços, lutando por agarrar-se e ser agarrada, a desgraçada nada apanhou, a não ser o ar fugidio”.
Em 1947 (Marais precisava de mais), conhece Édouard Dermit, pintor: seu filho adoptivo, amante, herdeiro. Reservou-lhe aqui o papel do anjo Heurtebise, mas Dermit disse: “Não sou actor, não seria capaz de o fazer”. Foi Cégeste: o poeta-novo, o outro amor de Orfeu.
N’O Livro Branco, autobiografia sexual, cheia de máscaras e portas falsas, Cocteau diz que “desde a infância sentia o desejo de ser aqueles que achava belos, e não que eles o amassem”. Radiguet, Marais, Dermit, “rapazes com traços de besta, flores de alta estatura”: Cocteau foi todos eles. Ces gestes. E tantos outros, que a morte levou. “Eu sei que procurava a amizade de máquinas excessivamente rápidas”. Amá-los era amar a morte, “porque a morte cuida das suas estátuas”.
Em 1950, filma este Orphée: fantasia, mistério, farsa, romance. Está aqui todo o Cocteau: ele sabe bem que a magia maior, na vida e no cinema, é dizer como corre o tempo. E estão aqui Marais; Dermit; François Périer, Heurtebise; e a morte, María Casares. “Falei dela, sonhei com ela, cantei-a”, a morte. “Achei que a conhecia, mas não”, diz Orfeu. E o anjo pergunta ao homem: é Eurídice que procuras ou a morte? O poeta responde: as duas. E entra no espelho. “Depois de Orphée”, disse Cocteau, “toda a gente me felicitava por uma imagem que eu tinha tido a fraqueza de lá deixar”. E Heurtebise, o imortal que quer morrer, como o anjo de Berlim, diz-lhe (é a chave do filme): “Os espelhos são as portas por onde a morte vem e vai. Aliás, passem a vida a olhar-se ao espelho e verão a morte a trabalhar”. É essa a dor de Cocteau: que Orfeu esteja condenado a viver.
Depois “da segunda morte da esposa”, diz Ovídio, Orfeu fugiu “a todo o prazer sexual com mulheres, quer porque aquele amor não resultara bem, quer porque fizera uma jura”. “Foi até ele quem iniciou os povos da Trácia a transferir o amor para os tenros rapazes”. Rejeitadas, as mulheres atacam-no: atiram-lhe pedras e ramos. Tudo Orfeu segura no ar com o canto e o dedilhar das cordas. “E todas as armas o seu canto teria amansado, não fora o imenso clamor e as flautas”, “as pandeiretas e as palmas e a gritaria do Bacanal abafarem o som da cítara. Só então, por fim, as pedras se tingiram” do sangue de Orfeu, “que já não se fazia ouvir”.
Porque a poesia precisa do silêncio, “é um instrumento de precisão”: é um rádio que traz notícias do outro lado. “Daria a minha obra por uma destas frases”, diz Orfeu. E Heurtebise responde: “Contenta-te com a beleza da tua voz”.
Já nada Orfeu consegue enfeitiçar. As mulheres fazem-no em pedaços: e a natureza chora a morte do poeta.
Cocteau morre em 1963, três anos depois do seu terceiro filme-de-Orfeu: o seu testamento, de poeta e de realizador.
O tempo passa. Marais, já velho, será Hades no Orfeu de Jacques Demy: Parking, 1985.
“A sombra” de Orfeu “desce para debaixo das terras”, diz Ovídio. Lá “encontra Eurídice e abraça-a nos seus braços desejosos. Ali passeiam os dois juntos”. “E já sem receio, Orfeu olha para trás, para a sua Eurídice”.
Ricardo Braun
Licenciado em Som e Imagem pela UCP, Ricardo Braun foi assistente de dramaturgia e encenação de Nuno Cardoso, Rogério de Carvalho e João Pedro Vaz. Em 2012, fundou a OTTO e coencenou Katzelmacher, a partir da peça e do filme de R. W. Fassbinder. Orientou o grupo amador do Ao Cabo Teatro, dirigindo-o em espetáculos a partir de textos de Jean Anouilh e Ben Jonson/Stefan Zweig. Traduziu, ainda, obras de Marius von Mayenburg, Lars Norén e Ödön von Horváth. Atualmente, é livreiro na Livraria aberta.
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