Sátira é onde a política vai para morrer. No fim do dia, uma vez assente a poeira, o que mudou? Uma sátira é como uma gargalhada que, apesar do bom humor, deixa um sabor amargo na boca — tem a anedota graça quando a piada é a tua vida? A sátira comenta o presente e fá-lo com a arrogância de um cretino que se vê subitamente politizado. Noutros tempos, mais sinceros, a paródia talvez inspirasse certas respostas para as vicissitudes do presente, mas em tempos pobres como os nossos, quando o cinismo é generalizado e os artistas se vendem pelo caminho mais rápido para a glória, o máximo que a sátira consegue é inspirar um sorriso frouxo antes de desistirmos e voltarmos para a cama deprimidos. Leonardo DiCaprio é a estrela do potente One Battle After Another, o mais recente filme de Paul Thomas Anderson, mas é outro filme recente de DiCaprio que me vem à cabeça quando reflito sobre o filme: Don’t Look Up (2021). Uma sátira do fim dos tempos que poderia quase funcionar, não fossem as nossas perspetivas tão desoladoras. De que vale apontar para um asteroide prestes a varrer-nos daqui para fora quando o mundo já está de joelhos?
Ao sondar a paisagem mediática atual, a sátira parece ser o último recurso, o limite e a campa do cinema e da televisão norte-americana. Outrora inspiradores — quem diria que viríamos a sentir nostalgia pelo cul-de-sac que foram os filmes de catástrofe da década de 90 —, hoje os media americanos rara e genuinamente movem o mundo. Vivemos numa era exausta dos Estados Unidos, e de um mundo centrado neles, ainda que o seu imperialismo cultural, propagandeado pelas artes e a cultura, mas também pela tecnologia, os discursos académicos e a retórica política, continue a moldar os debates e gostos internacionais. Na reta final do outono passado, dei por mim numa palestra de um artista plástico norte-americano, aparentemente na lista dos 100 mais influentes, que, fascinado e eloquente como só os norte-americanos são, improvisou por uma hora sobre inteligência artificial, psicologia de algibeira e discursos identitários — e não consegui evitar um bocejo. Nem deu para me enfurecer.
One Battle After Another podia ser, mas não é, assim tão previsível. Paul Thomas Anderson é um dos, senão mesmo o realizador norte-americano mais inteligente, mas também mais sincero, da atualidade. Não fosse a sua artisticidade, o filme poderia também ele cair na armadilha de reproduzir esse mesmo impotente — a palavra parece-me adequada para descrever um império em queda — cinismo satírico. De facto, a primeira meia hora do filme focada nas intrigas de Perfidia Beverly Hills, a sua secção central com Bob, interpretado por DiCaprio, a seguir o sábio Sensei de Benicio del Toro pela cidade sitiada de Baktan Cross e a derradeira perseguição de carros no deserto, digna de Vertigo, tudo isto ao ritmo da banda sonora imparável de Jonny Greenwood, talvez sejam das experiências cinematográficas mais empolgantes de que há memória recente. E atravessando tudo isto: a mensagem política, que nem se leva demasiado a sério nem, apesar do humor screwball, se resume a um comentário fácil. One Battle After Another é um filme utópico — bem distinto dos insidiosos estudos de personagem de There Will Be Blood (2007) e The Master (2012). É um filme sobre heranças e a passagem de uma vontade de mudança, a crença de que cabe a cada um de nós construir um futuro e de que ainda há um futuro por construir: da longa lista de mães revolucionárias até Perfidia e de ela à sua filha Willa, esta última transição pela mão de Bob, um terno, embora ridículo, marxista-leninista ganzado e seguidista.
Uma batalha a seguir à outra, de facto. Mas parece que as batalhas se repetem infindavelmente. Porquê? Porque por muito contemporâneos que sejam, os temas do filme serviriam igualmente os debates multiculturais americanos dos anos 90 ou o mal-estar pós-revolucionário da década de 1970. Esta atemporalidade está no próprio filme, como Anderson bem reconhece; um presente indefinido populado quer pela fan fiction de uma guerrilha libertária, quer por sociedades secretas conspirativas, predispostas a projetar as suas agendas racistas por igual em Nixon, Reagan ou Trump. Neste sentido, o filme é um retrato quase demasiado sagaz da amnésia paranoica, paroquial e autoinduzida do nacionalismo americano. Um país às voltas, repetindo os seus sucessos, feitos propriedade intelectual. Nas palavras de Karl Marx, “primeiro enquanto tragédia, depois enquanto farsa”.
O desafio de um filme como One Battle After Another é saber como espelhar os nossos tempos tumultuosos sem com isso os continuar a reproduzir. Afinal de contas, um espelho só pode espelhar, nunca mostrar novos horizontes. Aquando da sua estreia, One Battle After Another foi aclamado por muitos como o melhor filme da década — e porque não o melhor filme de sempre?! Quão triste o desespero, quão baixo cai um império. Está na hora de a América passar a sua tocha.
Isadora Neves Marques
Isadora Neves Marques é realizadora de cinema, artista visual e escritora. Os seus filmes estrearam em festivais como Cannes (Semana da Crítica), Toronto e Roterdão. Em 2022, foi distinguida com o Ammodo Tiger Short Award. No mesmo ano, foi a Representação Oficial Portuguesa na 59.ª Bienal de Veneza e recebeu, entre outros prémios, o Special Prize do Pinchuk Future Generation Art Prize. É cofundadora da produtora de cinema Foi Bonita a Festa e da editora de poesia Livros do Pântano. Contribui regularmente para o e-flux Journal e é autora dos livros de poesia A Campa de Marx (2025) e Sex as Care and Other Viral Poems (2020), da coletânea de contos Morrer na América (2017) e de várias antologias de pensamento. É doutoranda na Ruskin School of Art, Universidade de Oxford.
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