Offside (2006), de Jafar Panahi, é um dos grandes filmes sobre futebol e, no entanto, quase não se vê futebol nenhum. Passado em Teerão durante um jogo de qualificação para o Mundial entre o Irão e o Bahrein, começa por seguir a tentativa falhada de uma rapariga sem nome (Sima Mobarak-Shahi) de entrar no estádio, exclusivamente reservado a homens, onde o evento está a decorrer. Os guardas reconhecem imediatamente que ela é uma mulher e detêm-na numa zona vedada limítrofe ao estádio, juntamente com outras seis raparigas que também se tinham disfarçado de homens na esperança de ludibriar as forças de segurança. As raparigas são mantidas a meia dúzia de passos de uma entrada com vista direta para o campo, mas estão condenadas a olhar para a espessa parede de betão, como uma cortina de ferro. Descabidamente privadas de ver o jogo pelos seus captores, podem, no entanto, segui-lo através dos sons — as ondas de cânticos da multidão, o relato atropelado dos comentadores na rádio — e deixam-se contagiar pela eletricidade no ar.
Esta detenção é estratégica por parte de Panahi: amplia o absurdo e a crueldade do castigo aplicado às mulheres e recorda-nos que o poder age, por vezes, de forma ridícula. Mas também desvia o foco do jogo para estas adeptas que, face à detenção e à perseguição, persistem na sua obstinação. Elas podem considerar-se fãs futebolísticas comuns, cujas ações têm origem na sua paixão pelo desporto; mas, simultaneamente, e talvez inadvertidamente, estão a resistir ao patriarcado ao expor as suas contradições. Se o amor pelo próprio país — pela sua equipa — é expectável, porquê então ostracizar metade dos apoiantes? Os próprios soldados parecem pouco convencidos da lógica subjacente à proibição imposta às mulheres pelo regime.
Até 2019, quando a FIFA ameaçou suspender o Irão do Mundial de 2022 em resposta a esta situação, as mulheres iranianas estavam totalmente proibidas de assistir a jogos de futebol ao vivo — uma política em vigor desde a Revolução Islâmica de 1979. (Atualmente, o número de espectadoras autorizadas a assistir a um jogo continua a ser bastante limitado e aquelas que têm bilhete sentam-se em áreas segregadas.) Offside, a última longa-metragem de Panahi antes de ter sido preso em 2010, foi inspirada na luta da própria filha para assistir a um jogo. O realizador conseguiu obter acesso ao Estádio Azadi, em Teerão, propriedade do Estado, apresentando um guião falso que envolvia adeptos do sexo masculino, enquanto o verdadeiro projeto seria um docudrama representado e improvisado por atores não profissionais. Rodado em grande parte durante o jogo real entre o Irão e o Bahrein de 2006, o filme tem praticamente a mesma duração, usando os seus altos e baixos — os golos e o intervalo a meio – para estruturar a história e construir a sua rede de personagens.
Durante a viagem de autocarro em direção ao estádio, a mulher vestida de homem representada por Mobarak-Shahi mostra-se visivelmente reservada no meio de um bando de rapazes barulhentos e fica numa pilha de nervos quando percebe que não se parece em nada com um homem. Cada uma das outras raparigas é diferente à sua maneira. Uma simplesmente não para de chorar; outra é uma rebelde expansiva, com a atitude confiante de uma sedutora e um cigarro pendurado no canto da boca; uma outra é apanhada envergando um uniforme de soldado e é atirada para a zona de detenção a meio do filme — o seu aspeto naturalmente andrógino poderá tê-la ajudado a esquivar-se, mas desafiou demasiado a sorte quando se sentou a ver o jogo na zona VIP.
Contrariamente ao que se podia esperar, os jovens guardas não são um bando de misóginos violentos e malvados, embora sejam fracos, medrosos e mais do que dispostos a beneficiar do sexismo sistémico do país. Preocupa-os perder o emprego ou ser castigados pelos seus superiores hierárquicos se não conseguirem pôr aquelas mulheres na ordem: uma ansiedade que muitas vezes assume contornos humorísticos, à medida que têm de lidar com a audácia das raparigas — por exemplo, quando um dos soldados concebe, para uma das prisioneiras, uma máscara absurda, para assim impedir que ela seja olhada quando entra no estádio para ir à casa de banho. Um pai fica, contudo, genuinamente indignado quando descobre a sua filha na cela de detenção, recordando-nos que, para uma geração mais velha e tradicionalista, as implicações morais de sujeitar as mulheres a espaços masculinos são graves e reais.
Mas Offside é, antes de mais, um debate destinado aos jovens, que aborda o futebol como se abordava o rock and roll quando era “imoral”, perguntando: quanto estamos dispostos a arriscar para perseguir os nossos desejos? Para tomarmos as rédeas das nossas vidas? Como uma versão persa de The Breakfast Club, querendo com isto dizer que a detenção se parece mais a uma prisão, a obra-prima de Panahi termina com uma nota de esperança. O Irão ganha o jogo, classificando-se para o Mundial e, por um momento, as fronteiras entre homens e mulheres desaparecem: o esfuziante grupo de prisioneiros e os soldados, silenciosamente solidários, saem da carrinha que se dirigia à esquadra da polícia e desaparecem entre a multidão que festeja nas ruas, todos iguais na sua alegria.
Beatrice Loayza
Beatrice Loayza é crítica e historiadora, e vive em Brooklyn. É colaboradora regular do New York Times e o seu trabalho pode ser encontrado na Criterion Collection, Film Comment, Atlantic, Nation, New York Review of Books, 4Columns, entre outros. É também professora no departamento de cinema da School of Visual Arts e está atualmente a trabalhar num livro sobre as atrizes da Nova Vaga francesa.
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