Nosferasta: First Bite + I Walked with a Zombie

Kitty Furtado
27 de Setembro de 2026

O céu estrelado em Nosferasta: First Bite é muito mais brilhante que o céu do mar das Caraíbas nas primeiras imagens de I Walked with a Zombie. Ao pensar neste brilhoexagerado, artificial, hiper-real do filme de Adam Khalil e Bayley Sweitzer, por oposição às sombras e à contenção visual de Jacques Tourneur, parece-me que esta diferença na aproximação à realidade explicita a diferença fundadora da construção narrativa destes filmes. Muito para além da evolução tecnológica compreendida entre as obras, os autores partem de posicionamentos face às histórias que querem contar que encerram perspetivas epistemológicas, estéticas e políticas irreconciliáveis.

 

Homens complexos, Senhoras frágeis e Negros submissos com poderes ocultos

Em I Walked with a Zombie, de Jacques Tourneur, a definição das personagens parece anterior à rodagem do filme: as mulheres são frágeis, os homens são complexos e os negros, aparentemente submissos, possuem poderes ocultos. Esta descrição separa deliberadamente a população negra das restantes personagens, porque reconheço essa divisão na obra, embora o próprio filme a torne menos estável do que à primeira vista parece.

 

Contratada por Paul Holland (Tom Conway), Betsy (Frances Dee), uma ingénua enfermeira canadiana, chega a uma plantação das Caraíbas para cuidar de Jessica Holland (Christine Gordon), uma senhora branca que perdeu a fala e a vontade própria e que se torna o corpo em que se inscrevem os desejos e os conflitos dos outros. A origem da doençanunca é esclarecida, o que alimenta o mistério que envolve a família. Porém, os conflitos entre Paul e o seu meio-irmão Wesley Rand (James Ellison) ocupam o centro da história. Os dois homens apresentam-se contraditórios, atormentados, difíceis de compreender. Num primeiro olhar, parecem opostos: um contido e sombrio; o outro, entregue à bebida e à revolta, mas ambos se tornam difíceis de decifrar na relação com Jessica. Paul fala dela com uma culpa pouco transparente, entre a dor de quem a perdeu e a consciência de a ter impedido de partir. Wesley denuncia o domínio do irmão, mas o seu amor por Jessica acaba num gesto que lhe retira, uma última vez, a possibilidade de escolher. Tourneur recusa-nos a segurança de saber o que move cada um deles.

 

A população negra permanece sobretudo nas margens da narrativa, ao serviço da história dos Holland. É, porém, através destas figuras que conhecemos o passado da ilha, percebemos o que os silêncios da família procuram encobrir e podemos vislumbrar a origem da psicose atual: a violência da escravatura e a história da plantação. Imóvel na encruzilhada, Carrefour (Darby Jones) condensa a imagem colonial do homem negro simultaneamente submisso e ameaçador: a sua força é visível, mas as suas intenções permanecem inacessíveis. O cocheiro (Clinton Rosemond) conduz Betsy até à casa dos Holland e conta-lhe como as pessoas escravizadas foram trazidas para a ilha. Ti-Misery, a figura retirada da proa do navio negreiro da família e colocada no jardim, impede que a história da casa seja separada dessa violência. Quando um cantor (Sir Lancelot) canta um calipso e expõe publicamente os segredos dos Holland, Wesley manda-o calar-se; o seu enfático pedido de desculpas mostra quanto custa a um homem negro dizer a verdade diante da família que domina a ilha.

 

Betsy é apresentada como uma jovem branca exposta ao perigo. Através da sua curiosidade receosa, a dor dos Holland torna-se um enigma e a presença negra da ilha adquire contornos ameaçadores. Mas é também Betsy quem procura, por conselho de Alma (Theresa Harris), no templo vodu uma resposta que a medicina não lhe dá, para descobrir que outra mulher da família já tinha feito o mesmo caminho. A separação entre quem detém o saber e quem detém o poder começa então a vacilar.

 

De quem são, afinal, os poderes ocultos?

Nosferasta: First Bite (2021) coloca-se do outro lado da história dos poderes visíveis e ocultos. Oba, um africano que escapa de um navio negreiro, encontra Cristóvão Colombo transformado em vampiro e acaba por colaborar, sob o seu domínio, na conquista colonial. Séculos depois, é Oba quem conta a história e procura libertar-se dessa submissão. O poder oculto deixa de ser atribuído aos negros e às suas crenças: o verdadeiro monstro é o colonizador, cuja sobrevivência depende do sangue e do trabalho alheios. No filme de Adam Khalil e Bayley Sweitzer, o homem negro associado ao sobrenatural deixa de guardar silenciosamente a encruzilhada: Oba fala e atravessa cinco séculos, revelando a sua própria implicação na conquista colonial. Transformado em vampiro por Colombo, foi vítima do seu poder e colaborador na sua expansão, uma posição que o filme não resolve numa inocência fácil. A sátira revela ainda o vampirismo por trás das imagens respeitáveis da “descoberta”: Colombo é o predador e os monumentos, o museu e a burocracia continuam a administrar a sua herança.

 

A história de Oba não se encerra no passado. O filme salta das reconstituições da invasão europeia para uma Nova Iorque marcada pela pandemia de covid-19. Aí, o vampiro procura renovar a autorização de residência, recebe ajuda para aprender a ler e enfrenta os procedimentos necessários para obter a cidadania norte-americana. A alternância entre ficção e momentos da vida de Oba faz do presente algo mais do que um epílogo: depois de séculos a participar na construção do “Novo Mundo”, continua a ter de pedir autorização para nele viver.

 

Nessa vida nova-iorquina há também lugar para o Oba cozinheiro. A sua sopa de milho, conhecida nos espaços onde trabalha e convive, entra no universo do filme. É um pormenor que altera profundamente a posição da personagem ao mostrar que Oba não existe apenas para representar cinco séculos de violência, nem para personificar o monstro. Tem uma prática, uma história própria, uma relação quotidiana com outras pessoas. Quando o filme deixa que o artista, músico e cozinheiro de Trinidad participe na escrita da personagem que interpreta, a fronteira entre testemunho, invenção e atuação torna-se produtiva e Oba pode construir uma imagem de si que excede a função que a narrativa colonial lhe teria reservado.

 

É também pela sátira que Nosferasta: First Bite ataca as representações raciais. Logo no início, Colombo pinta a cara de negro, como se pudesse vestir a identidade de quem pretende usar para se aproximar dos povos indígenas. O gesto grotesco torna visível uma operação mais vasta que consiste em apropriar-se do corpo negro, servir-se dele como intermediário da conquista e continuar a apresentar-se como autor da história. O filme coloca essa operação ao lado das imagens tranquilizadoras do encontro colonial exibidas no museu, nas quais a violência é invisibilizada sob a aparência de uma troca entre iguais. A montagem entre esse passado encenado, o museu e a Nova Iorque da pandemia impedem que a conquista seja vista como um acontecimento concluído.

 

Ver os dois filmes em conjunto não implica tomar I Walked with a Zombie como um simples conjunto de estereótipos, nem Nosferasta: First Bite como a sua correção sem ambiguidades. Porém, entre o silêncio de Carrefour e a voz de Oba, desdobra-se a ideia de poderes ocultos em poderes ocultados. Quem pôde explorar, classificar e representar o mundo e como se pode, agora, interromper esse relato? Quem teve o direito de ser uma personagem complexa, quem foi reduzido ao silêncio e como finalmente narrar a violência que atravessa ambos?

Kitty Furtado

Ana Cristina Pereira (Kitty Furtado) é crítica cultural empenhada na diluição de fronteiras entre academia e esfera pública. Tem curado mostras de cinema (pós)colonial e promovido a discussão pública em torno da Memória, do Racismo e das Reparações. Doutora em Estudos Culturais, pela Universidade do Minho, e investigadora do CECS, coordena o GT de Cultura Visual da SOPCOM e coedita a VISTA: revista de cultura visual. Com Rosa Cabecinhas, publicou o livro Abrir os gomos do tempo: conversas sobre cinema em Moçambique (2022).

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