A televisão que eleva uma vedeta, quando jovem e sexy, é a mesma que talha as tábuas do seu caixão. Poucas vezes se dedica um programa de homenagem a alguém no ativo. O vulto reduz-se a um quadrado num canto inferior do ecrã, vê-se em diferido, preservado em imagens de arquivo. Sucedem-se glamour shots de um cristal baço, irrecuperável, o que dificilmente serve para passar um atestado de vitalidade ou inspirar novos papéis. A TV enquanto câmara ardente.
“Já posso morrer”, chorou a cantora Lena d’Água uma vez, confrontada com registos da sua juventude. O fatalismo prescreveu; entretanto, voltou em força aos palcos, mas não foi assim que a encontraram, em 2014, os estudantes de cinema Rogério Ribeiro Rogério e Sara Bernardes de Oliveira. Bela Adormecida, curta-metragem documental, faz o que a televisão se demite de fazer: dissecar as entranhas da “glória”, da lenda do showbiz. Apanha um ícone na penumbra, isolado, mastigado pelo star system, a debater-se com os fantasmas dos bastidores, a praguejar frente ao ruído de uma cassete VHS.
Algo semelhante acontece, num mundo romanceado, em Millennium Actress. “Isto não deveria ser um documentário?”, pergunta-se o operador de câmara, aturdido pela realidade do seu sujeito de estudo: apresenta-se maior do que a vida, em estado de fusão. Não deveria o documentarista controlar esses delírios, fazer a vida caber num registo chapa cinco, em vez de incentivar delírios? Bom, não seria um filme de Satoshi Kon, o mestre do anime enquanto thriller psicológico (como o fará também em Paprika). Arma surrealista, ao serviço de um terrorismo subliminar, contra as certezas do espaço e do tempo. A memória, como veremos, trabalha nessas mesmas condições.
Perfect Blue, de 1997, foi uma estreia a prova de bala: tao robusta que nada restava senão impor-se como um dos clássicos modernos do cinema de animação. Isso apesar, ou por causa, da sua crueldade. Uma violência sádica, que parece assumir uma função didática, ilustrando o quão cúmplice dela é o espectador — como um Haneke Technicolor, acelerado por um pico de glicose. Entre os momentos mais gratuitos, ressalta uma e outra verdade sobre idolatria, sobre autoperceção, sobre a conivência do fã com a escravidão da fama. Através de desenhos animados, Satoshi Kon dá-nos essas lições como rebuçados; chegam ao céu da boca, e revelam-se cacos de vidro.
Em Millennium Actress — a proposta seguinte, de 2001 — nada é tao serrilhado ou carniceiro. Mesmo prolongando vários dos recursos estilísticos de Perfect Blue, voltando a palmilhar as fronteiras da ficção, divertindo-se a provocar labirintite. É que a protagonista de Millennium Actress, ao contrário do ídolo adolescente de Perfect Blue, não passa 80 minutos refém de paranoia, psicose e abutres mediáticos. Chiyoko Fujiwara, estrela aposentada, tem por base Setsuko Hara, conhecida pelo seu trabalho com Yasujirō Ozu, mas que se reformou pouco tempo após Tokyo Story (1953). Aos 43 anos, optou pela reclusão. Tal como Hara, Chiyoko "esconde-se como uma eremita"— não significa, porém, que colecione amarguras. Com reticência, aceita o convite para uma retrospetiva guiada por Genya, documentarista fanático, que pouco faz por manter uma distância objetiva da sua entrevistada.
Chiyoko convive bem com as sobreposições entre cinema e vida real; o documentarista também. Fiel seguidor da atriz, arrasta consigo o cético cameraman, para abraçarem essa viagem desregrada, de trânsitos imprudentes, por guiões interpretados em estúdio e dias vividos de coração. É um dispositivo inteligente esse que Satoshi Kon monta, com o coargumentista Sadayuki Murai, porque tornam invisível a sua manipulação. Parece benevolente, libertando o espectador — aquele que aqui chega traumatizado por Perfect Blue — das suas obrigações investigativas. Discernir os planos de existência, qual é qual, é facultativo. Mas imergir nos enredos de Chiyoko não é.
Rara oportunidade para identificar um paralelismo entre Satoshi Kon e outro cineasta, isto é, em que é Kon o influenciado e não o modelo decalcado (olá, Aronofsky). Desenha-se uma simetria com El espíritu de la colmena (1973), não tao improvável assim, dado Kon tê-lo selecionado como um dos seus 100 filmes de referência. Millennium Actress vai descortinando as consequências de dois encontros de Chiyoko, ainda criança: o primeiro com o cinema, enquanto atriz em botão; o segundo com um pintor, dissidente político. Na primeira longa-metragem de Víctor Erice, uma pequena Ana Torrent deixa-se abduzir por Frankenstein (1931), trazido por um projecionista ambulante; depois, trava amizade com um soldado republicano. Kon situa a sua personagem na Segunda Guerra Sino-Japonesa; Erice na Guerra Civil Espanhola (conflitos praticamente contemporâneos).
Mais do que isso, Kon e Erice partilham a névoa que nos tolda o raciocínio, que suspende a descrença e a cronologia. Alguém folheia um álbum de família sem nexo aparente, narrando historietas que podem ter pouco de credível, mas que nos vencem pelo simples poder da fantasia. É Millennium Actress a olhar a nostalgia por aquilo que ela verdadeiramente é: o vórtice final, um abismo do qual a memória linear não nos protege. Que nos valha, então, a sabedoria da idade — e, sobretudo, a licença poética.
Pedro João Santos
Jornalista, radialista e programador de cinema (n. 2001). Focado na crítica de música pop, escreve para o Ípsilon, no jornal Público, e outras publicações (The Guardian, The Quietus, Bandcamp Daily). Trabalha na Antena 1, rádio para a qual concebeu o documentário Madonna: A Lei da Reinvenção. Após defender uma dissertação sobre telediscos de António Variações e Lena d’Água, tornou-se mestre em Etnomusicologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Fundou o cineclube da associação cultural Albardeira, produzindo e moderando sessões no Teatro Municipal de Ourém.
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