Maso et Miso vont en bateau

Maria Castello Branco
12 de Março de 2026

A caça às bruxas ensinou às mulheres que, se se tornassem cúmplices da guerra contra a bruxaria, poderiam gozar da proteção do homem. Uma vez aceite que qualquer mulher poderia ser do Diabo, a suspeita acompanharia todos os momentos da vida feminina. Com a institucionalização do terror sobre o corpo da mulher — acusações, exorcismos, torturas, execuções públicas — aterrorizou-se uma sociedade inteira, isolando as vítimas e desencorajando a resistência. A escolha que restava era estreita: ser-se bruxa ou ser-se sua delatora.

Cinco séculos depois, a lógica persiste com outras roupagens. É 30 de dezembro de 1975. França encerra o Ano Internacional da Mulher com uma emissão televisiva na Antenne 2. A convidada de honra, Françoise Giroud, a então Secretária de Estado para a Condição Feminina, preside e aceita um desfile de declarações misóginas proferidas por variadas figuras públicas. O espetáculo tem título e tudo: Encore un jour et l’année de la femme, ouf! c’est fini. O exorcismo institucional está completo e tem nome de mulher. Sempre teve. A emissão decorre sem incidentes.

Três meses após a emissão, o coletivo Les Insoumuses apodera-se do programa e devolve-o transformado. O vídeo era, naquele momento, um medium que os homens ainda não haviam colonizado. Entre intertítulos irónicos, loops, recortes, música para fazer contraponto, intervenções diretas, deixa-se o plateau falar até se revelar. O coro masculino repete-se até soar ao que é. Um rito.

Simone de Beauvoir descreveu com precisão esta figura, a mulher que acede ao sistema enquanto — e porque — se recusa identificar-se com as outras. Mas a bruxa e a sua delatora são filhas da mesma lógica. O título do filme das Insoumuses, feito em resposta, nomeia a armadilha, as duas únicas saídas possíveis num universo construído por e para os homens: ser Maso, i.e., aceitar a humilhação, interiorizar a subordinação, ou ser Miso, rir das piadas, entrar no jogo, tornar-se cúmplice da linguagem que apaga. Giroud escolhe a primeira e a segunda. O filme mostra que não há terceira.

O sistema precisa de uma mulher que fale pelas mulheres para não ter de as ouvir.

Cinco décadas depois, o arquivo continua a arder. A proteção ainda se compra com cumplicidade. O exorcismo ainda precisa de um corpo. A escolha ainda se apresenta como se fosse livre.

Maria Castello Branco
Maria Castello Branco é comentadora na CNN Portugal e cronista no Expresso. É coautora do podcast Lei da Paridade. Licenciou-se em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa e concluiu um mestrado em Teoria Política na London School of Economics. Trabalhou em consultoria de assuntos públicos, com experiência em comunicação estratégica e políticas públicas.

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