Para Paul Thomas Anderson, há uma beleza trágica e desconcertante na ideia de que estamos sozinhos neste mundo. De Perfidia Beverly Hills, a impetuosa revolucionária de One Battle After Another até Daniel Plainview, o ambicioso e implacável prospetor petrolífero de There Will Be Blood, esta solidão é, por vezes, causada pela própria pessoa, forjada por temperamentos coléricos que afastam os outros, criam muros e encerram portas para as quais as chaves se perdem. É curioso que Anderson se sinta atraído por estes indivíduos isolados, considerando os elencos numerosos de vários dos seus filmes — assim como as suas complexas redes de personagens estranhas e as relações que as entreligam —, de entre os quais o mais extenso é talvez o de Magnolia (1999), a sua terceira longa-metragem. Logo após o início do filme, uma sequência acompanhada pela versão de Aimee Mann de “One is the Loneliest Number” dá-nos uma amostra das várias linhas narrativas, apresentando-nos Donnie (William H. Macy), um antigo prodígio infantil dos concursos de perguntas e respostas, Linda (Julianne Moore), uma temperamental mulher-troféu, Jim (John C. Reilly), um desastrado agente da polícia de Los Angeles, entre outras personagens. Anderson parece sugerir que, nas suas lutas, cada uma delas está sozinha e contudo o mundo, grande e pequeno como é, tem uma forma de nos juntar a todos.
Isto é verdade, embora Anderson dê a este enredo um toque distintamente mágico, cinematográfico: Magnolia, que decorre na zona de San Fernando Valley, na Califórnia, onde se situam estúdios como os da Warner Brothers e da Universal Pictures, distingue-se da sua restante filmografia por se basear em coincidências cósmicas e acontecimentos insólitos. No prelúdio, um narrador invisível (Ricky Jay) relata os bizarros pormenores de três crimes, um dos quais, por exemplo, é protagonizado por um homem que se suicida atirando-se do cimo de um edifício, mas que afinal morre por ter sido baleado por uma arma disparada num piso inferior. São circunstâncias excecionais, como também o são as pessoas, para o melhor e para o pior. Donnie, na atualidade um pobre diabo desempregado com uma paixão impossível por um barman musculado que usa um aparelho ortodôntico, pode ter sido uma criança especial, mas agora é especial de formas muito mais deploráveis, tendo sido recentemente atingido por um raio.
Magnolia reúne vários atores dos filmes anteriores de Anderson — Hard Eight (1996) e Boogie Nights (1997) —, incluindo Moore, Macy, Reilly e Philip Seymour Hoffman no papel de Phil, o enfermeiro do marido moribundo de Linda, Earl (Jason Robards, que fazendo eco do declínio da sua personagem, morreu ele próprio de cancro em 2000, sendo por isso o seu derradeiro papel). A cacofonia de personagens interligadas do filme conflui visualmente através de longos planos com movimento de câmara, típicos de Anderson, que organizam cenários complexos em fluxos contínuos de ação, embora Magnolia (tal como os outros filmes do realizador dos anos 90) se distinga da sua obra mais recente, na medida em que esta última adota um ritmo frenético e dolly zooms arrojados que criam um tipo de suspense épico. O concurso televisivo, que aparece em segundo plano nas TV de várias personagens, e que foi inspirado em alguns dos primeiros trabalhos do próprio Anderson nos bastidores de programas semelhantes, funciona também como uma espécie de “cola” narrativa revestida de espetáculo. Earl é o produtor do programa e Jimmy (Philip Baker Hall), que também está a morrer, é o apresentador, e ambos, acabaremos por descobrir, abandonaram e traíram os seus filhos. O nome do concurso, “What Do Kids Know? [O Que Sabem as Crianças?]” é por isso muito apropriado para um filme sobre pais negligentes e as suas falhas; a descida destes homens idosos e doentes em direção à morte proporciona-lhes uma última oportunidade de, se não reparar os seus erros, pelo menos preparar o terreno para uma catarse.
Linda, uma pilha de nervos, e Claudia (Melora Walters), filha de Jimmy e toxicodependente que se vê cortejada pelo agente Jim, são hipnotizantes, enquanto mulheres atormentadas e traumatizadas pelo peso dos homens que as rodeiam; do mesmo modo, Stanley (Jeremy Blackman), o miúdo prodígio que arrecada uma série de vitórias em “What Do Kids Know?”, parece destinado à mesma sorte de Donnie, cujo pai o explorou e lhe roubou o que tinha ganho no concurso. E onde encaixa Frank — a personagem interpretada por Tom Cruise, uma espécie de porta-voz dos direitos dos homens, na linha de Jordan Peterson ou Andrew Tate — neste mundo? A sua descarada misoginia, a sua crença na agressividade e na violência masculinas, como uma força de domínio que deve ser assumida e cultivada, fazem dele uma referência para a compreensão de Anderson da autoridade masculina e dos seus descontentamentos. Reynolds Woodcock, de Phantom Thread, por mais requintado que seja, partilha a sensibilidade fascista do Tenente Lockjaw de One Battle After Another, e Dirk Diggler, de Boogie Nights, anseia por amor e poder na medida que crê que o seu enorme pénis merece. Frank rejeita o seu passado, em que o pai desapareceu e ele foi forçado a cuidar da mãe doente, tornando-o numa vítima cujas cicatrizes o transformam num crápula. Earl é o pai de Frank e, nas cenas finais de Magnolia, os dois reencontram-se no leito de morte do primeiro, que assim se salva do terrível destino de morrer sozinho. Nesse momento, Frank cede à vulnerabilidade que passou toda a sua vida a reprimir, uma reviravolta tão improvável (ou inevitável?) como choverem sapos.
Beatrice Loayza
Beatrice Loayza é crítica e historiadora, e vive em Brooklyn. É colaboradora regular do New York Times e o seu trabalho pode ser encontrado na Criterion Collection, Film Comment, Atlantic, Nation, New York Review of Books, 4Columns, entre outros. É também professora no departamento de cinema da School of Visual Arts e está atualmente a trabalhar num livro sobre as atrizes da Nova Vaga francesa.
©2025 Batalha Centro de Cinema. Design de website por Macedo Cannatà e programação por Bondhabits by LOBA