Luas Novas: Falcão Nhaga

Janaína Oliveira
16 de Maio de 2026

“Estamos sempre no meio da jornada”. [1] A frase da poeta e ensaísta Dionne Brand é uma das múltiplas traduções possíveis para expressão da condição de se viver a diáspora: um eterno trânsito — um entre — uma vida que oscila entre um lá e um aqui. A lembrança da citação de Brand veio enquanto assistia aos dois curtas-metragens do cineasta português Falcão Nhaga, respectivamente Mistida e Sabura, presentes no programa Luas Novas do Batalha. O realizador, filho de mãe cabo-verdiana e de pai guineense, iniciou sua trajetória na direção de cinema com filmes que em comum trazem, além dos títulos com palavras em crioulo, a vivência da diáspora de Guiné-Bissau em Portugal, enfatizando as complexidades da experiência contemporânea de imigração.

Mistida foi o filme de conclusão de sua licenciatura na Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC), em Lisboa, e teve sua estreia na sessão de produções universitárias do Festival de Cannes em 2022. Segundo o próprio diretor, “mistida” em crioulo da Guiné-Bissau é uma palavra que possui diferentes significados a depender do contexto em que é empregada. Pode significar “crença, necessidade, ter um compromisso com alguém, ou um encontro com alguém. É uma missão que deves cumprir” [2]. Trata-se de “uma palavra multifacetada” assim como é também o filme em sua opinião. O curta-metragem de estreia de Nhaga foi escrito em parceria com o brasileiro Pedro Cabral e conta a história de uma mãe imigrante que, com dor nas costas, pede auxílio ao filho para terminar de levar as compras de mercado para casa.

Os dois percorrem a pé o caminho para casa em Almada, bairro periférico de Lisboa. Durante a caminhada, os múltiplos sentidos da palavra "mistida" podem ser sutilmente percebidos. Seja no gesto do filho ir encontrar a mãe para ajudá-la e de ter nisso um senso de dever e cuidado para com ela, pois durante o percurso ele se lembra dos reparos que são necessários fazer na casa dela e promete realizá-los sem falta. Seja na reiteração da importância de não esquecer a Guiné-Bissau presente na fala da mãe, seja nas lembranças, no relato de um sonho ou nas cantigas que canta ao longo da jornada até a casa. Enquanto o filho, interpretado por Welket Bungué, afirma a necessidade de estar no presente, de ficar em Portugal, a mãe, interpretada por Bia Gomes, fala da necessidade de não esquecer de onde se vem. Cada um cumprindo, de certo modo, uma missão nessa vida imigrante, permeada de sentimentos divididos entre Portugal e Guiné-Bissau.

A presença da atriz Bia Gomes no papel de Dolores conduz a um outro encontro, esse, porém, fora das telas. Vê-la no filme funciona como uma espécie de tributo ao cinema de Flora Gomes, maior representante do cinema de guineense, visto que ela atuou em diversos filmes do diretor, desempenhando inclusive a inesquecível Diminga no clássico Mortu Nega de 1977.

Sabura, segundo curta-metragem de Nhaga, teve sua estreia no IndieLisboa e, em sequência, recebeu prêmio de Melhor Filme no festival de Uppsala, na Suécia. O título remete para a noção de prazer, de alegria ou o sabor da vida e a obra trata dos dilemas de uma juventude imigrante, mas do ponto de vista do amor. Ao falar do filme, o diretor afirma a escolha proposital de fazer do amor de Tony e Cadija a porta de entrada para a complexa trama histórica e social da busca por melhores oportunidades de vida na Europa. Sabura vai além do amor dos dois, fazendo pensar nas questões conformam os tempos pós-independência de Guiné-Bissau, as desigualdades sociais, a desunião entre grupos étnicos, as instabilidades políticas que resultaram posteriormente numa guerra civil. “O futuro deste país tornou-se ruinoso para jovens como Cadija e Tony”, diz Nhaga no material de divulgação do curta-metragem. [3]

O filme fornece ainda uma imagem mais ampla da vida de jovens imigrantes em Lisboa, ao trazer para narrativa elementos como a realidade das moradias compartilhadas (incluindo moradores de diferentes territórios que não só o africano, acrescentando mais uma camada ao debate atual da imigração em Portugal), ou como o trânsito entre a periferia e o centro da cidade. Assim como ocorre em Mistida, chama a atenção a condução sutil de Nhaga e a forma habilidosa como faz dos silêncios compartilhados pelos personagens momentos carregados de sentido. No entanto, se no primeiro filme os momentos silenciosos entre mãe e filho alinhavam memórias e tradições que remontam a Guiné-Bissau, em Sabura a quietude dividida pelos protagonistas aponta simultaneamente para as incertezas e para a esperança no porvir. Aqui, o meio da jornada traz também possibilidades infinitas.

Resta-nos por ora aguardar os próximos trabalhos deste jovem e instigante realizador. Que venham as próximas Luas.

[1] Brand, D. (2022). Um mapa para a Porta no Não Retorno: notas sobre pertencimento. Bolha Editora.
[2] Ver entrevista concedida a Luís Gulta da RFI a 12 de maio de 2022, disponível em https://www.rfi.fr/pt/programas/convidado/20220513-cannes-no-caminho-da-curta-mistida-de-falc%C3%A3o-nhaga. Acesso a 25 de abril de 2026.
[3] Ver https://portugalfilm.org/files/20250911125808_W63R6Y0PO6KIB45124S9.pdfm

Janaína Oliveira
Janaína Oliveira é pesquisadora de cinema e curadora independente. Professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e consultora da JustFilms — Fundação Ford, é doutora em História e foi Pesquisadora Visitante da Fulbright no Centro de Estudos Africanos da Howard University. Desde 2009, desenvolve pesquisas e curadoria de programas de cinema, com foco principalmente nos cinemas negros e africanos, além de atuar como consultora, jurada e palestrante em diversos festivais de cinema e instituições no Brasil e no exterior. É fundadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro. Desde 2021, faz parte do conselho curatorial do Criterion Channel. Programou o Flaherty Film Seminar (EUA) em 2021 e em 2025.

Batalha Centro de Cinema

Praça da Batalha, 47
4000-101 Porto
+351 225 073 308

batalha@agoraporto.pt

A enviar...

O formulário contém erros, verifique os valores.

O formulário foi enviado com sucesso.

O seu contacto já está inscrito! Se quiser editar os seus dados, veja o email que lhe enviámos.

©2025 Batalha Centro de Cinema. Design de website por Macedo Cannatà e programação por Bondhabits by LOBA

batalhacentrodecinema.pt desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile