Les amants du Pont-Neuf

Isadora Neves Marques
11 de Julho de 2026

O filme Les amants du Pont-Neuf, de Leos Carax, é porventura mais famoso pela excentricidade da sua produção do que pelo seu enredo. Como dita a tradição, é também por aí que devo começar. Carax tinha por intenção usar o bicentenário de França, em 1989, para ter acesso à ponte, o cenário principal da história. Os produtores solicitaram o acesso à ponte durante três meses; a cidade concedeu-lhes três semanas, que no fim de contas Carax nem chegou a utilizar devido a um atraso causado pela lesão absurda do seu ator principal, Denis Lavant: uma distensão no tendão do polegar esquerdo! A solução? Construir uma réplica à escala real da Pont-Neuf e do seu quartier ribeirinho num lago em Lansargues, a norte de Montpellier. O cenário incluiu candeeiros funcionais e janelas iluminadas para cenas noturnas, bem como as fachadas perspetivadas, montadas em andaimes, dos edifícios circundantes, incluindo as famosas galerias comerciais Samaritaine. O orçamento não tardou a disparar, interrompendo a produção mais do que uma vez: conta-se que, de outubro de 1989 a junho de 1990, um único segurança ficou a vigiar o colossal cenário de filmagens no sul da França.

O filme demorou três anos a ser concluído e uma ideia que começou por ser uma curta-metragem a preto-e-branco filmada em 8mm transformou-se no filme francês mais caro de sempre à época. Ao ver o filme, é impossível não pensar na sua produção, na forma como foi filmado e nas autorizações legais, o seu devaneio explícito no ecrã, como na cena do esqui aquático no Sena sob um cenário de fogo de artifício incessante — na realidade, a celebração do bicentenário da tomada da Bastilha —, sobre a qual, por mais que eu tenha tentado, não consegui até hoje confirmar se é, de facto, Juliette Binoche nos esquis! É como se Carax, provavelmente enlouquecido pela monstruosidade, nos estivesse constantemente a piscar o olho. Ainda assim, na sua estreia em Cannes, as críticas foram mistas e o filme acabaria por ser um fracasso de bilheteira — só seria lançado na América do Norte em 1999, e então apenas por pressão de Scorsese junto da Miramax.

Para mim, porém, a excentricidade do filme não está na escala desmesurada e no orçamento exorbitante, mas na forma como os gastos parecem, bem vistas as coisas, contraproducentes. Cenários grandiosos como estes são geralmente construídos para filmes de ação e aventura, não para um romance intimista de dois mendigos parisienses. Estamos habituados a ver o Empire State Building a ser destruído por invasores alienígenas; super-heróis a lutar contra os seus inimigos em Nova Iorque; o aeroporto JFK a ser sequestrado por terroristas; e assim por diante. A beleza de Les amants du Pont-Neuf reside na necessidade da escala para conferir dignidade à vida amorosa dos perdidos da vida, dos suicidas e dos criminosos. Também esses merecem o impossível — isto é, sonhar. E sonhar é o que, apesar da pobreza, os nossos amantes Alex e Michèle fazem dia após dia. Tal como os amantes de Jules et Jim, também Alex e Michèle estão sempre a correr! Paris é o seu parque de diversões e a realeza da Pont-Neuf, o seu Versalhes.

Alex é um malabarista de rua agarrado à droga; Michèle, uma pintora à beira de perder a visão (e, com isso, a sanidade mental). O seu único outro amigo na ponte é o velho e rabugento Hans, um viúvo com uma história trágica e as chaves da cidade, incluindo as do Louvre, que visita com Michèle numa noite ternurenta antes de ela ficar cega: apropriadamente, eles veem um autorretrato de Rembrandt. Os nossos heróis são pessoas imperfeitas. Mas até as pessoas imperfeitas e falhadas merecem amor e romance. Não é por acaso que Carax abre o filme com uma cena num abrigo parisiense filmada em estilo documental, sequência que permanece comovente, reveladora e, infelizmente, contemporânea.

Como em muitas cidades, sobretudo nos Estados Unidos ou no Brasil, por exemplo, Paris tem um problema com pessoas em situação de sem-abrigo. Não que, obviamente, os sem-abrigo sejam o problema. O problema é um sistema que abandona as pessoas, desmantela o financiamento para abrigos e fecha instituições de saúde mental em nome do lucro económico. Na década de 90, Portugal foi pioneiro no financiamento de um programa de apoio a toxicodependentes, abrindo casas para apoiar e reabilitar as pessoas, em vez de as discriminar; um programa posteriormente exportado para toda a União Europeia. Este tipo de projetos de saúde pública parece quase impossível nos dias de hoje, não só pela falta de financiamento, mas também por uma retórica odiosa de Direita que desumaniza as pessoas sem aparentes problemas de consciência.

Les amants du Pont-Neuf conta-se entre as melhores de uma longa lista de adaptações cinematográficas de romances franceses, de Truffaut a Jacques Demy, passando por Jean Vigo e Jean Cocteau. Pela irreverência da sua dignidade e a pureza da sua magia, comparo-o, de facto, a La Belle et la Bête, de Cocteau, uma história também ela dedicada ao anormal e às vidas vividas à margem da sociedade: um monstro e uma mulher. Não se trata, portanto, da alegria reparadora das comédias românticas convencionais, mas sim das paixões e do erotismo de toda e qualquer pessoa, independentemente de classe social, género ou raça.

Isadora Neves Marques
Isadora Neves Marques é realizadora de cinema, artista visual e escritora. Os seus filmes estrearam em festivais como Cannes (Semana da Crítica), Toronto e Roterdão. Em 2022, foi distinguida com o Ammodo Tiger Short Award. No mesmo ano, foi a Representação Oficial Portuguesa na 59.ª Bienal de Veneza e recebeu, entre outros prémios, o Special Prize do Pinchuk Future Generation Art Prize. É cofundadora da produtora de cinema Foi Bonita a Festa e da editora de poesia Livros do Pântano. Contribui regularmente para o e-flux Journal e é autora dos livros de poesia A Campa de Marx (2025) e Sex as Care and Other Viral Poems (2020), da coletânea de contos Morrer na América (2017) e de várias antologias de pensamento. É doutoranda na Ruskin School of Art, Universidade de Oxford.

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