Lend Me Your Wife

Janaína Oliveira
21 de Fevereiro de 2026

O que não se empresta: o cinema unapologetic de Edith Calmar

Nos créditos iniciais de Lend Me Your Wife, observa-se um storyboard com caricaturas dos personagens e de parte da equipe técnica. Otto Carlmar, o produtor, é retratado com um saco de dinheiro e um chicote — imagem arquetípica de quem detém o controle financeiro e disciplinar no desenvolvimento de uma obra. No entanto, o que desperta atenção é a representação de Edith Carlmar: esguia, com ângulos faciais bem definidos, cabelos curtos, vestindo calças pretas, sapatos masculinos, luvas e uma camisa com gola esporte de corte reto. De braços cruzados e portando uma claquete, ela encara firmemente o set de filmagem ao fundo, com o queixo levemente elevado. Sua linguagem corporal transpira convicção e autoridade.

O filme é o penúltimo dos dez longas-metragens dirigidos por Edith Carlmar. [1] Diretora pioneira do cinema norueguês, Carlmar produziu, em parceria com seu marido Otto, que assina também o roteiro, a história que narra a trajetória de Bjørn Lund, um secretário especialista em estatística em busca de ascensão profissional. Todavia, a empresa onde atua — uma tradicional fabricante de enxovais e brinquedos infantis — impõe como norma privilegiar funcionários casados. O matrimônio apresenta-se, portanto, como uma espécie de pré-requisito, obrigando o solteiro Lund a forjar um simulacro de casamento. Tal premissa permite à diretora explorar o que a crítica Kathryn Hanson (1998) identifica como a subversão da “mulher-objeto”. Em vez de utilizar a câmera para meramente decorar a cena com figuras femininas, Carlmar as estabelece como portadoras do olhar (female gaze), focando na profundidade da consciência das personagens enquanto estas navegam pelas exigências do sistema patriarcal. São as mulheres, aparentemente em segundo plano, que ditam o ritmo e as questões do filme.

O filme integra os tropos da screwball comedy, com situações inusitadas e uma farsa central. Contudo, o humor singular de Carlmar, pontuado por ironia e erotismo, permite uma análise crítica da cultura norueguesa da época. A cineasta utilizava gêneros comerciais como um “disfarce” para inserir comentários subversivos sobre autonomia e classe. De certa maneira antecipando o debate proposto por Laura Mulvey em “Visual pleasure and narrative cinema” (1975), que denuncia como o cinema clássico frequentemente reduz a figura feminina à passividade e ao espetáculo visual, Carlmar constrói personagens que subvertem essa lógica ao moverem a trama por meio de decisões estratégicas. Nessas obras, as mulheres deixam de ser meros objetos de contemplação para manipularem a própria farsa da domesticidade, garantindo, assim, sua agência e conquista de espaço.

“Lend me Your Wife” (Me Empreste a Sua Mulher) é também o refrão de uma canção executada durante uma festa promovida pelo Sr. Rund, diretor da empresa e falso moralista que, apesar de defender valores conservadores a todo tempo, flerta com a “esposa” de Lund. É nesse ápice da trama que Carlmar desconstrói o mito da passividade feminina. Por exemplo, ao fazer uso diversas vezes de close-ups em Anita (a falsa esposa), a diretora revela que a “esposa ideal” é, em verdade, uma performance dominada com maestria pela personagem. Nestes enquadramentos, a iluminação glamourizada é evitada para não transformar a atriz em diva estática. O close-up, ao invés de fetichizar, expõe a objetificação masculina e a estratégia das mulheres em subverter as relações de poder com um certo grau de sedução. Muito antes da formalização teórica do debate feminista dos anos 1970, Carlmar já praticava uma resistência corajosa, deslocando o centro de gravidade do cinema norueguês do homem para a mulher.

Edith Carlmar foi uma diretora unapologetic: uma cineasta sem remorsos, que ocupou o set e transitou por gêneros considerados masculinos sem pedir licença. Sua ousadia manifestou-se desde seu primeiro filme, clássico do cinema noir, Death is a Caress (1949), onde inverteu convenções ao filmar a vulnerabilidade masculina. Após uma década de produção incessante à frente da Carlmar Film S.A., mantendo o ritmo de um filme por ano, encerrou sua carreira na direção em 1959. O sucesso estrondoso de Lend Me Your Wife, um dos filmes mais assistidos da história do cinema norueguês, serviu como ápice comercial de sua despedida.

A decisão de se aposentar aos 48 anos foi motivada pelo esgotamento físico e mental, somado aos constantes embates com o puritanismo da época. O Statens Filmkontroll (comitê de censura) mantinha Carlmar sob vigilância rigorosa devido aos seus temas tabus e crítica social. Cansada do desgaste político, ela declarou sentir que sua contribuição estava concluída. Como gesto final de desapego e compromisso com a classe, doou os direitos de distribuição de seu catálogo a um sindicato de veteranos da indústria. Carlmar retornou às raízes de atriz, onde começou sua carreira, e voltou a atuar em papéis menores, longe da pressão da liderança. Para ela, o cinema foi uma missão cumprida com integridade e um ato consciente de preservação pessoal diante de uma indústria que ela mesma ajudou a modernizar.

[1] Após este filme, Carlmar dirigiu o provocador The Wayward Girl (1959), que marca a estreia de Liv Ullmann no cinema. A obra aborda o despertar sexual e a rebeldia juvenil, consolidando o estilo de Carlmar em tratar a subjetividade feminina com um realismo que desafiava a moralidade vigente.

Referências

Hanson, K. (1998). The first lady of Norwegian cinema: Edith Carlmar and the female gaze. Scandinavian Studies, 70(4), 481–498.

Mulvey, L. (1975). Visual pleasure and narrative cinema. Screen, 16(3), 6–18.

Janaína Oliveira
Janaína Oliveira é pesquisadora de cinema e curadora independente. Professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e consultora da JustFilms — Fundação Ford, é doutora em História e foi Pesquisadora Visitante da Fulbright no Centro de Estudos Africanos da Howard University. Desde 2009, desenvolve pesquisas e curadoria de programas de cinema, com foco principalmente nos cinemas negros e africanos, além de atuar como consultora, jurada e palestrante em diversos festivais de cinema e instituições no Brasil e no exterior. É fundadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro. Desde 2021, faz parte do conselho curatorial do Criterion Channel. Programou o Flaherty Film Seminar (EUA) em 2021 e em 2025.

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