A luta anticolonial, infelizmente, mantém-se atual: o mundo continua a reproduzir dinâmicas de dominação colonial e, no contínuo entrelaçamento entre cinema e mundo, La battaglia di Algeri, obra magistral de Gillo Pontecorvo, segue cumprindo seu papel de guia para o pensamento com e para o cinema.
Realizado três anos após a independência da Argélia, venceu o prêmio de melhor filme no Festival de Veneza. Foi o quarto longa de Pontecorvo, e seu terceiro trabalho com o roteirista Franco Solinas, ambos determinados a falar do colonialismo [1] e do Terceiro Mundo. Impressionava-os a capacidade da Frente de Libertação Nacional FLN de galvanizar o povo argelino, a capacidade de organização política e a utilização da violência — como dizia Frantz Fanon em Les Damnés de la Terre (1961), “a descolonização é sempre um processo violento”.
A narrativa central da história se desenvolve entre 1954 e 1957, focando na escalada dos confrontos entre a FLN e o governo francês. Temas como a participação feminina na revolução, a integração política com as tradições mulçumanas, e o cotidiano da população em Argel, especialmente em Casbah, estão vivazmente presentes na obra.
O roteiro de La battaglia di Algeri é inspirado nas memórias de Saadi Yacef, co-fundador e comandante militar da FLN, escritas quando esteve preso na França depois de três condenações à morte. A iniciativa de transformar seu livro em filme partiu de Yacef, que buscou parcerias em Itália e retornou com Pontecorvo e Solinas, iniciando dois anos de intensa pesquisa [2].
A participação de Yacef foi decisiva: coprodutor do filme e conhecedor de Argel, facilitou filmagens, figurantes e locações. Seu desejo de registrar a história aliou-se aos interesses do diretor e do roteirista em documentar a batalha.
Marcello Gatti, diretor de fotografia com quem Pontecorvo já havia trabalhado em Kapò, dizia que Pontecorvo queria que o filme “parecesse um documentário”. Daí a escolha por filmar em preto-e-branco e com um grande contraste. O preto-e-branco aliado a elementos como às narrações em off — algumas extraídas de áudios originais como nos comunicados da FLN —, colaboravam para a ambiência de cinejornal almejada. Pois eram os cinejornais, os newsreels, o modo pelo qual as pessoas entravam em contato com as notícias.
A procura pelo tom de verdade incidiu também na opção por trabalhar quase que de forma integral com atores não profissionais. Pontecorvo buscava obsessivamente na população argelina as faces para os personagens. Sarah Maldoror, cineasta pioneira dos cinemas africanos que começava ali sua carreira sendo assistente de direção, tinha como parte de suas funções ajudar nessa busca. Os reiterados close-ups nesses rostos indicam inclusive caminhos para pensar a construção dessa obra que tem como protagonista a própria luta anticolonial.
Também Yacef integrou o elenco, interpretando a si mesmo sob o nome de El-hadi Jaffar. Brahim Haggiag, homem comum transformado pela luta política, é escolhido para interpretar Ali La Pointe, outro líder da FLN e mártir da Batalha de Argel. Da mesma forma, um ladrão que estava preso no momento das filmagens, conseguiu um indulto para atuar: aparece no início do filme sendo torturado para delatar o esconderijo de La Pointe. E o condenado à morte que grita “Viva a Argélia!” a caminho da guilhotina, também havia sido condenado à morte na vida real.
O francês Jean Martin, intérprete do Coronel Mathieu, foi o único ator profissional presente no elenco. E é dele um dos depoimentos que nos permitem pensar em La battaglia di Algeri não só como um exemplar de cinéma verité, mas como um filme de transbordamentos de realidade. Ele relembra que, durante as filmagens, não raras vezes o set era contagiado pela emoção de outrora, sobretudo nas cenas de revolta. Era como se a população estivesse revivendo os acontecimentos que levaram à liberação. Era mais uma vez o mundo transbordando e invadindo o cinema. Durante as gravações, o que se conta é que Pontecorvo era saudado pela população — provando a convicção compartilhada de que o filme era feito para os argelinos.
Na sequência final, três anos após a derrota da Batalha de Argel, uma nova luta popular irrompe nas ruas. Um soldado exclama: “Retornem para casa! O que vocês querem?” e a multidão responde: “A nossa liberdade!” O filme concretiza assim a urgência de pensar o colonialismo com a perspetiva de quem foi colonizado, parafraseando a filósofa argelina Marie-José Mondzain [3]. O filme, que durante décadas serviu como porta de entrada para o entendimento da história do colonialismo a partir da atuação francesa na Argélia, permanece atual 60 anos após o seu lançamento, tanto pelos atributos cinematográficos quanto pelas reflexões críticas que provoca.
[1] No entanto, Parà, título do primeiro roteiro pensado por Pontecorvo e Solinas, nunca seria realizado. Possuía um ponto de vista eurocêntrico que não condizia com o momento, ao contar a história a partir da experiência de um ex-paraquedista que se voltava contra os franceses após tomar conhecimento das violências perpetradas pelos colonizadores. Segundo Solinas, nada da proposta de Parà foi utilizado para o roteiro que foi filmado, tendo servido tão somente de inspiração.
[2] Segundo uma biógrafa de Pontecorvo no documentário Marxist Poetry: The Making of The Battle of Algiers (2004), o diretor foi a terceira opção de Yacef para realização do filme. Francesco Rosi foi contactado, mas não podia assumir o compromisso no momento, e Luchino Visconti também foi sondado, mas não havia convergência de pensamento com Yacef.
[3] Ver Marie-José Mondzain, K de Kolônia: Kafka e a descolonização do imaginário. São Paulo: Contraponto, 2024.
Janaína Oliveira
Janaína Oliveira é pesquisadora de cinema e curadora independente. Professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e consultora da JustFilms — Fundação Ford, é doutora em História e foi Pesquisadora Visitante da Fulbright no Centro de Estudos Africanos da Howard University. Desde 2009, desenvolve pesquisas e curadoria de programas de cinema, com foco principalmente nos cinemas negros e africanos, além de atuar como consultora, jurada e palestrante em diversos festivais de cinema e instituições no Brasil e no exterior. É fundadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro. Desde 2021, faz parte do conselho curatorial do Criterion Channel. Programou o Flaherty Film Seminar (EUA) em 2021 e em 2025.
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