“É um diner, não um restaurante”: a frase com que a japonesa Sachie, cozinheira e gerente, põe tudo em pratos limpos com a sua empregada—e também com o espectador faminto. Todo lampeiro, decerto, para se lambuzar com um filme-banquete, porno-culinária ao sabor de La passion de Dodin Bouffant (2023, Tran Anh Hung) ou Babette’s Feast (1987, Gabriel Axel). Pois que arrume o babete e torne a apertar o cinto! A proposta da realizadora Naoko Ogigami é, em tudo, a imagem negativa desses exemplos: na apresentação despojada dos petiscos, na rejeição liminar do melodrama, na forma como esvazia a intriga de uma moral definitiva (e será “intriga” a palavra certa?).
A gulodice nem sequer dá o ar de sua desgraça: simplesmente não ocorre a nenhum dos personagens. Talvez por seguirem a batuta de Sachie, como se fosse uma maestrina de vidas desgarradas, arranjando-as numa partitura minimalista. Sem manipulação, a partir do café que abre em Helsínquia (o Ruokala Lokki), magnetiza as pessoas à sua volta. Ou, para acabar com esta algaraviada metafórica e voltar ao vocabulário gastronómico, é a peneira com que filtra os grumos de gente. Fora os gourmands, os conterrâneos com saudadinhas de casa, os finlandeses que reduzem o Japão ao sushi e ao sake: di-lo Sachie à ajudante Midori, ambas de pijama, deitadas sobre uma esteira, após um agachamento tonto e uma pose periclitante de yoga. Quer apenas servir os transeuntes, aqueles que aparecem como calha.
Está comprometida com o acaso: leva-o a sério, nunca roubando no zelo, muito menos no humor. E só o acaso explica o seu carrossel dos esquisitos, fregueses ou não, a começar pela turista Midori: fechou os olhos, apontou o dedo a um mapa-múndi e foi dar à Finlândia. Figura cartunesca, de olhos esbugalhados, estóica e algo neurótica, é a ela que Sachie recorre para relembrar o genérico de Gatchaman, um anime clássico. Tema esse desencantado por Tommi, jovem nipófilo, mascote não oficial do café. Ter-se-á ele oferecido para pagar algum dos mil cafés que pediu? Terá ele outra preocupação senão aprender japonês? Nunca vamos saber. Intuímos, isso sim, que jurou fidelidade a este pequeno universo, quando acode à cinquentona estatelada no diner, carregando-a às costas até casa após demasiados shots de koskenkorva. A sensata Masako, à deriva em Helsínquia enquanto não recupera a mala de viagem, completa a galeria de personagens pré-destinados ao umbral do Ruokala Lokki, desconfiados até o atravessarem.
Embora o espaço seja um quebra-gelo, é filmado sem grande curiosidade, um tablado para a ação como qualquer outro (semelhante ao olhar blasé com que Mike Leigh tratou, em 1990, o restaurante Regret Rien [sic] em Life Is Sweet). Mas a sua potência não se contém entre quatro paredes: algo como um espírito residente com um superpoder itinerante, incumbindo-se de proteger a sua comunidade. Naquele episódio regado a koskenkorva, o nordicamente loiro Tommi não cuida da lesada sozinho: vai em peregrinação com toda a trupe do diner. O Ruokala Lokki desmaterializa-se, transcende a mobília imaculada; é o ponto que vai ao encontro. Pula a cerca, para oferecer um ombro amigo a uma cliente vulnerável, quando poderia apenas impingir-lhe álcool.
A comédia sublimada de Kamome não implica o rigor estético de Wes Anderson, apesar de um certo lastro surrealista que o liga a The Royal Tenenbaums (2001). Naoko Ogigami é mais solta, sem alguma vez se descoser inteiramente. Isso é notório num género que tende a premiar o espectador com acesso total aos podres do plantel: aqui, só temos o sorriso sabedor de Sachie, pragmático e sem malícia, e uma breve narração sobre gaivotas e luto. O que já terá vivido enquanto imigrante na Europa? Podemos tirar ilações da sua troca de olhares com as três idosas, bisbilhoteiras, através da montra do café. E que tipo de amiga é ela? “Quando o mundo acabar, certifica-te de que me convidas”, diz Midori com raríssima ternura. “A tua reserva está confirmada”, responde Sachie numa curta emissão de luz, sem precisar de se desfazer em agradecimentos ou abraços. E que relação é a sua com a comida, afinal?
Ignorem-se os vislumbres de um salmão braseado e de costeletas em soja a fervilhar; o onigiri é o paladar e a paleta deste filme. Ou seja, o prato de assinatura de Sachie é uma bola de arroz: pouco evocativo ou excitante, não é? E aparentemente tão salvífico como as tristes batatas cozidas de Ari Kaurismäki a acompanhar uma lata de sardinhas em The Other Side of Hope (2017)… Errado! A protagonista explica-se, e finalmente determinamos a família fílmico-gustativa em que se insere Kamome Diner: a de Big Night (1996, Campbell Scott e Stanley Tucci) e Comezainas (2022, Mafalda Salgueiro). A cozinha enquanto homenagem à família: no caso de Sachie, ao pai, que fazia as vezes da mãe falecida, preparando-lhe onigiri de salmão, ameixa e atum. “Eram gigantes e desengonçados. Mas eram deliciosos.” Vale para as bolas de arroz, mas também para todos os amigos que reuniu no seu diner.
Pedro João Santos
Jornalista, radialista e programador de cinema (n. 2001). Focado na crítica de música pop, escreve para o Ípsilon, no jornal Público, e outras publicações (The Guardian, The Quietus, Bandcamp Daily). Trabalha na Antena 1, rádio para a qual concebeu o documentário Madonna: A Lei da Reinvenção. Após defender uma dissertação sobre telediscos de António Variações e Lena d’Água, tornou-se mestre em Etnomusicologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Fundou o cineclube da associação cultural Albardeira, produzindo e moderando sessões no Teatro Municipal de Ourém.
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