Num período em que assistimos, desde há aproximadamente dois anos e meio, a um genocídio em curso em Gaza, consequência de um projecto colonial há demasiado tempo perpetrado em territórios palestinianos e com o apoio das potências imperiais ocidentais, a presente retrospectiva dedicada a Kamal Aljafari toma como ponto de partida a exibição da sua mais recente obra, With Hasan in Gaza (2025). O último filme de Aljafari que é, simultaneamente, e como o próprio o afirma, o seu primeiro filme. Porque o que With Hasan in Gaza propõe é urgente face a um presente marcado pela negação histórica e pela tentativa de apagamento do povo palestiniano.
Filmado durante a Segunda Intifada, no intervalo de dois dias (1 e 2 de Novembro) de 2001, With Hasan in Gaza constrói-se no presente a partir de cassetes Mini DV que viajaram ao longo destes mais de 20 anos com o realizador, intocadas e agora por si redescobertas, e que, na medida do tempo que passou, se constituem como um arquivo, desta vez pessoal. O filme: uma viagem de Aljafari por Gaza, acompanhado por Hasan Elboubou, que o acolhe e guia e que filma também, na procura por Abdel Rahim, antigo companheiro da prisão juvenil onde as autoridades israelitas detiveram o realizador durante sete meses, em 1989 (Primeira Intifada). Gaza, sabemos, não mais existe nos mesmos termos daqueles com que nos deparamos em With Hasan in Gaza e o reencontro com estas imagens actua já no campo da evocação. Ou, como escreve Erika Balsom, são “um arquivo de presença, exigindo reconhecimento e memória”.
“Lembro-me de que em Jaffa, na rua principal, havia um jardim chamado ‘The Gazan’s Garden’ (…). Lembro-me de que, na minha infância, passávamos fins-de-semana e férias em casa dos meus avós em Jaffa (…). Lembro-me de ter 17 anos quando um colega de turma me perguntou se quereria juntar-me a um grupo palestiniano (…). Lembro-me de que a polícia veio prender-me à noite, tarde. (…) Lembro-me do tribunal militar em Lydda (…). Lembro-me do quarto da prisão. Éramos 40 prisioneiros, ou mais, de todos os cantos da Palestina — muitos de Gaza. (…) Lembro-me.” — recorda Aljafari. O movimento de rememoração é, porém, duplo. Lembra todos aqueles dos quais hoje não sabemos; lembra Hasan, Adbel ou as crianças que pedem para ser filmadas; lembra o mar; lembra o pôr-do-sol de Gaza. Tanto quanto nos lembra de que a data determinante não é a de 7 de Outubro de 2023, já que a vida em Gaza era, há 25 anos, como há tantos mais, inimaginável, intolerável.
A decisão de relembrar, evidenciada pelo gesto de tornar visível o que está aparentemente obliterado, tornado ausente pela ficção imposta pelo sionismo, é transversal à obra cinematográfica de Kamal Aljafari. Uma proposta que com frequência decorre da reclamação do arquivo ou da sua reapropriação, com vista a uma resistência contra o esquecimento. E se o arquivo de With Hasan in Gaza pertence ao realizador, em filmes como Recollection (2015), Aljafari faz uso das imagens para estabelecer aquilo a que viria a denominar de “justiça cinemática”. O apagamento dos protagonistas das imagens israelitas e norte-americanas, em primeiro plano, permite revelar o que sempre lá esteve: Jaffa, a sua cidade natal, entre as décadas de 60 e 90, e os palestinianos que a habitavam, inclusive familiares seus. O cinema do colonizador é desconstruído para dar lugar a uma restituição. A Fidai Film (2024), por sua vez, recupera imagens apreendidas pelo exército israelita no Centro de Investigação Palestiniano em Beirute, durante a intervenção no Líbano em 1982. Através do recurso a formas fílmicas de intervenção na imagem ou de um rigoroso trabalho de som (com a colaboração na música, que se repetirá em With Hasan in Gaza, com Simon Fisher Turner — amigo e colaborador de Derek Jarman em obras como Blue, The Last of England, entre outros), o filme inverte quem é apagado no contexto de um território ocupado.
Perante a questão de compreender o papel das imagens (e do cinema) num momento em que acedemos a um genocídio através de imagens filmadas pelas suas vítimas1, num momento em que Gaza vai sendo substituída por uma nova e atroz ocorrência política e ainda por mais outra, e outra, e outra, alegadamente resolvida por um cessar-fogo irreal, Aljafari reitera a impossibilidade de uma negação histórica, material e existencial do povo palestiniano. Lembra-nos, a cada filme, que a Palestina e o seu povo não só não podem ser apagados como serão impreterivelmente livres.
Rita Morais
Rita Morais é artista-cineasta e curadora, com um mestrado em Artists’ Film & Moving Image pela Goldsmiths, University of London. No contexto da curadoria de cinema e imagem em movimento, tem vindo a colaborar com instituições e festivais como o Batalha Centro de Cinema, o seminário Doc’s Kingdom, o Centro de Cultura Digital da Cidade do México ou o Curtas Vila do Conde. É diretora artística da Miragem, uma mostra de arte cinemática na paisagem na ilha do Pico e membro da cooperativa Laia e do Laboratório da Torre, no Porto. Os seus filmes têm sido exibidos nacional e internacionalmente em espaços e festivais como o Open City Docs; Artium Museoa — Museu de Arte Contemporânea do País Basco; Berwick Film & Media Arts Festival; Rockaway IFF; S8 — Mostra de Cinema Periférico; SIM Gallery; A.P.T. Gallery; entre outros. O seu filme Há ouro em todo o lado integra a Coleção Municipal de Arte da cidade do Porto.
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