Berlim, 1921. Um jovem aristocrata dado como morto no último dia da Grande Guerra reaparece três anos depois na casa da família, transformada numa pensão. No guião (bastante inconsistente) de Just a Gigolo (ou, no seu título alemão, Schöner Gigolo, armer Gigolo, o mesmo de um tango austríaco de 1929), da autoria de Ennio De Concini e Joshua Sinclair (vindos da comédia à italiana, western spaghettis e até da ficção científica), a ideia é mostrar a Alemanha de Weimar (1918–33) como recorrentemente nos aparece retratada, antes de mais abordando o ambiente de liberdade sexual, que de facto foi surgindo, para, contudo, reduzi-lo praticamente à prostituição da personagem principal, tomada quase como experiência estética. O ambiente histórico é o da deriva moral (que o filme não celebra como sinal de liberdade, mas como sinal de decadência), económica e política, numa lenta descida aos infernos do nazismo. As referências cronológicas (a passagem dos invernos entre 1921 e 1928) assinaladas no filme não remetem para acontecimento algum em concreto; a ameaça crescente do nazismo, um dos leitmotiv do filme, plausível apenas a partir de 1930, aparece, portanto, fora de tempo. Produzido em 1978, o filme é uma espécie de pastiche de referências, personagens, ambientes, de dois outros filmes, então recentes, que tomaram Berlim e a Alemanha de entre guerras como objeto. Como em La caduta degli dei (1969), de Visconti, o centro da narrativa está num jovem de boas famílias (David Bowie em Just a Gigolo; Helmut Berger no filme de Visconti) que, sem saber muito bem porquê, acaba a transgredir as regras da moralidade que teriam estado vigentes num passado pelo qual ele sente ainda nostalgia.
A Cabaret (1972), de Bob Fosse, além da pensão em que decorre parte da narrativa e da ameaça nazi, foi-se buscar uma personagem (a de Michael York) que, num percurso algo semelhante, se procura a si próprio numa ambiguidade sexual que, no filme de Fosse, tem tanto de convincente quanto não tem neste filme o “recrutamento” (é o termo usado) a que Marlene Dietrich sujeita Bowie. Este, então na sua fase berlinense dos tempos de Heroes (1977), é sujeito a uma adaptação estética que o torna (deliberadamente?) parecido com o Michael York de Cabaret. Até uma Liza Minnelli há em Just a Gigolo: Sydne Rome representa uma cantora emancipada casada com um rico aristocrata, que consegue sentir-se mais à vontade no papel do que o próprio Bowie, sempre incómodo. É a ela que se deve o único trecho musical convincente de todo o filme: “Don‘t Let It Be Too Long”.
O filme de David Hemmings suscitou um menosprezo unânime por parte da crítica logo desde a sua estreia, tanto a versão original como a versão mais curta preparada pouco depois. Numa entrevista de 1980, Bowie diria que os próprios atores não se orgulhavam do filme. Para ele, era como se “os 32 [maus] filmes do Elvis Presley se tivessem amalgamado num só”. Aos 31 anos, numa das fases mais criativas da sua vida musical, Bowie parece ter aceitado o papel em troca do interesse manifestado por Hemmings em filmar os seus concertos para um documentário. Se em algum momento imaginou contracenar com Dietrich, bem se desiludiu. A atriz não aceitou ir filmar a Berlim com o resto da equipa, pelo que as cenas em que aparece foram todas gravadas em Paris com a presença apenas de figurantes. A montagem fez o resto.
Just a Gigolo, contudo, tem algumas coisas para ficar para a história do cinema. Não por causa do seu realizador; Hemmings era um daqueles atores a quem um papel (o fotógrafo de Blow-Up (1966), de Antonioni) criou expectativas bem acima das que ele conseguiria cumprir, quer como ator, quer, sobretudo, quando passou para a realização. Mas porque é o último filme de Marlene Dietrich que, aos 76 anos, aparece “with pride” (como se especifica no genérico inicial) no meio de uma equipa bastante insólita de atores. No projeto demasiado ambicioso de Hemmings, chamar a cantora de The Blue Angel (1930), de Von Sternberg, deve ter sido irresistível. Pô-la a cantar uma canção dos anos 20 (“Just a Gigolo”) de que ela não gostava não deve ter sido fácil. A Marlene Dietrich que ouvimos, contudo, já não é a diva irónica que fora durante 20 anos de concertos, num ciclo que encerrara anos antes.
Hemmings soube juntar (para os desaproveitar) dois atores clássicos (Maria Schell e Curd Jürgens) do cinema alemão e austríaco, e, sobretudo, Kim Novak que, aos 45 anos, já começara uma relação frustrante com o que lhe propunham fazer no cinema. Deve ter sido seguramente o caso.
Até por tudo isto, Just a Gigolo é um objeto curioso—mas mais como objeto histórico do que cinematográfico.
Manuel Loff
Manuel Loff é Doutor em História e Civilização pelo Instituto Universitário Europeu (Florença), professor de História Contemporânea na Universidade do Porto e investigador no Instituto de História Contemporânea-NOVA FCSH/IN2PAST e no Centre d’Estudis sobre Dictadures i Democràcias (Universitat Autònoma de Barcelona) nas áreas da História política, ideológica e social do século XX, especialmente no estudo do fascismo e do neofascismo, das revoluções e dos processos de transição autoritária e democrática, e dos estudos da memória coletiva. Escreve no diário Público desde 2011.
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