Invention

miguel bonneville
1 de Outubro de 2026

há pessoas que já são nossas amigas antes de sabermos alguma coisa sobre elas. foi o que senti ao ver callie hernandez. uma familiaridade sem memória. como se já tivesse estado com ela antes, embora não soubesse onde. [1] tive a mesma sensação com rebecca hall em peter hujar’s day: a impressão de estar a ver não uma actriz, mas uma amiga, e de estar a entrar numa conversa que já tinha começado antes de eu chegar.

 

fascinam-me os filmes de encontros. talvez porque um encontro seja uma forma de uma coisa se tornar outra sem deixar de ser aquilo que era. duas pessoas aproximam-se e alguma coisa muda entre elas. não necessariamente nelas. as vezes basta que estejam no mesmo espaço para começarem a produzir uma terceira coisa, qualquer coisa que não estava em nenhuma das duas.

 

invention gira em torno de uma morte, mas o morto quase nunca está onde se pensa que deveria estar. pode estar nas imagens, nos objectos, nas histórias que os outros contam, numa patente, nas dívidas, nas pessoas que o conheceram, nas contradições. quanto mais se procura um morto, mais ele parece deslocar-se. procura-se uma pessoa específica e encontram-se sobretudo outras.

 

uma invenção foi aquilo que ficou como herança — uma espécie de promessa — e serve, sobretudo, para produzir encontros. leva carrie de pessoa em pessoa, mas a sua investigação não revela exactamente o que procura; produz mais coisas para procurar. é essa a função de certos objectos: continuar a pôr coisas em movimento.

 

pensei imediatamente na dreamachine de brion gysin e ian sommerville: uma máquina feita para produzir imagens quando fechamos os olhos. uma máquina que não mostra nada, mas cria as condições para que alguma coisa apareça. imagens que não sabemos bem de onde vieram. quem sabe, um filme. e este é feito de restos: imagens antigas, conversas, interrupções, memórias. a história que estamos a ver aconteceu e não aconteceu. felizmente o filme não tenta resolver essas diferenças.

 

há qualquer coisa nos 16mm que me aproxima. o grão parece-me uma possibilidade de amizade. suspeito que isso me ajudou a sentir que callie/carrie parecia uma amiga. o filme deixou-me chegar suficientemente perto para começar a preencher aquilo que não sei. uma pessoa que não conheço começa a adquirir uma intimidade que não lhe pertence, ou passa a pertencer-lhe precisamente porque não consigo determinar de onde veio.

 

com o morto acontece o mesmo. quanto mais pessoas falam dele, menos sabemos quem ele foi. cada encontro acrescenta qualquer coisa e, ao mesmo tempo, retira alguma coisa a possibilidade de uma imagem definitiva. é impossível fazer o retrato de alguém a partir do que deixou. o retrato acontece quando os restos começam a tocar-se.

 

a investigação não precisa de chegar a uma verdade para produzir uma realidade. basta continuar a aproximar coisas. é para isso que pode servir uma invenção: não para criar algo que não existia, mas para criar as condições em que algo já existente possa finalmente aparecer.

 

uma máquina não precisa de nos dizer o que ver. basta produzir uma situação em que já não consigamos ver exactamente como víamos antes — como a dreamachine, uma câmara ou uma máquina de cura, como a que o morto quis inventar, e cujo funcionamento não se conseguiu confirmar. deixou, no entanto, uma filha com qualquer coisa para investigar. deixou um filme. é isso que as coisas que criamos por vezes fazem: continuam a produzir efeitos depois de nós já não podermos decidir mais nada.

 

invention não é propriamente um filme sobre um homem morto. é um filme sobre pessoas a aproximarem-se de alguém que já não pode aproximar-se delas. e eu aproximo-me de callie. vejo-a. reconheço-a. e, ao mesmo tempo, vejo carrie a olhar para alguma coisa que eu ainda não consigo ver — como num encontro que já tinha começado antes de eu chegar.

 

[1] só mais tarde percebi que poderia ter sido da série too old to die young (nicolas winding refn, 2019).

O autor escreve segundo a antiga norma ortográfica.

miguel bonneville
miguel bonneville introduz-nos a histórias autoficcionais, centradas na desconstrução e reconstrução da identidade, através de obras que cruzam múltiplas áreas artísticas. Realizou filmes como Traça (2016), Um medo com duas grandes faces (2022), e Camera obscura (2023). Publicou os livros Ensaios de santidade (Sr. Teste, 2021), O pessoal é político (Douda Correria, 2021), e ainda as edições de artista Jérôme, Olivier et moi (Homesession, 2008), Notas de um primata suicida (2017), e, através do Teatro do Silêncio, Dissecação de um cisne (2018), Lamento do ciborgue (2021), Recuperar o corpo (2021) e Câmara escura (2022).

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