Inherent Vice

Riar Rizaldi
10 de Maio de 2026

“Nos Estados Unidos, a paranoia domina sempre”, escreve o escritor libertário americano Jesse Walker no livro em que disseca o culto da paranoia na política e a teoria da conspiração como parte da essência da cultura estadunidense. Para este autor, as teorias da conspiração importam não por poderem ser verdadeiras ou falsas, mas porque funcionam como folclore, revelando ansiedades sociais. Segundo Walker, em vez de as tratar como um fenómeno marginal, a sociedade americana tem associado uma certa verdade às teorias da conspiração em si e às ansiedades e experiências daqueles que acreditam nelas, desde a primeira Guerra Mundial até hoje. O medo da conspiração é recorrente e cruza todo o espectro político e social.

O que quer que tenha levado Thomas Pynchon (o velho e venerável “Papa da Paranoia” da literatura americana) a regressar, em 2009, ao início dos anos 1970 — a década daquilo que o escritor americano Erik Davis caracteriza como “estranheza ao mais alto nível” — e a personagens que poderiam ter saído dos filmes de Paul Morrissey dessa mesma época, é certo que, através do romance Vício Intrínseco, o autor recuperou uma paranoia intensa e muito californiana de um tempo anterior à consolidação da confiança na “ideologia californiana”. (E com isto refiro-me àquele modo de pensar típico da Califórnia — que funde o libertarismo do mercado livre, o otimismo tecnológico e os resquícios do individualismo hippie e contracultural —, consolidado na década de 1990 em Silicon Valley e ressurgido no final dos anos 2000, quando o determinismo tecnológico se impôs como resposta a todos os problemas.) Cinco anos depois de o romance de Pynchon ter sido publicado, estreou a adaptação ao cinema de Paul Thomas Anderson — no mesmo ano, 2014, em que foi publicado o livro de Jesse Walker mencionado acima: The United States of Paranoia: A Conspiracy Theory. Anderson retratou com uma clareza notável a ideia de que a paranoia do início dos anos 1970 poderia muito bem encontrar eco na situação política da América de meados dos anos 2000. Como afirmou numa ocasião Charles Manson: “Paranoia total é apenas plena consciência.”

O detetive privado Larry Sportello, que gosta de se fazer passar por médico e a quem, por isso, chamam “Doc”, recebe uma visita da ex-namorada, que lhe pede para investigar o seu atual amante — um rico magnata do imobiliário, cuja mulher e respetivo amante conspiram para a fazer internar numa instituição psiquiátrica. Esta investigação arrasta Doc para uma vasta cadeia de casos interligados — complexa, confusa e difícil de desvendar. A narrativa de Inherent Vice é construída a partir da atmosfera que reinava na Califórnia no início dos anos 1970: um mundo dominado por desorientação, paranoia, aborrecimento, frustração e uma sensação de perda coletiva. O trauma e a turbulência existentes na América dos anos 1970 ocultaram-se frequentemente por trás de kitsch e fenómenos superficiais — patilhas, rostos sorridentes e marijuana sem fim: tudo coisas que o filme retrata de maneira muito vívida —, enquanto, por baixo dessa superfície, se propagava o medo do terrorismo, do colapso ecológico, da sociedade da vigilância, do cinismo político, da conspiração do Estado e da derrota na guerra. À superfície, o mundo de Inherent Vice parece cómico, fora de si, alucinatório, descontraído e um pouco pateta; e contudo, por trás disso, há loucura, perda, repressão e um ambiente conspirativo. Do ponto de vista formal e estético, não é só o enredo que é construído de redes obscuras, nunca se decidindo completamente por uma explicação; a forma que Paul Thomas Anderson deu ao filme — intensamente nebuloso, estratificado e cheio de interferências — reproduz a experiência da política americana de meados dos 2010: toda a gente sentia que alguma coisa estava podre, mas ninguém conseguia definir exatamente o quê. (Não esqueçamos que, seis meses depois de o filme de Anderson estrear, Donald Trump anunciou a sua candidatura à presidência dos Estados Unidos e, em novembro de 2016, seria eleito para o cargo.)

“A teoria da conspiração é a política do dia a dia”, escreve a marxista americana Jodi Dean. E Inherent Vice oferece-nos uma ilustração bastante rigorosa disso. A política não surge primordialmente como um debate ideológico claro, mas sim na experiência quotidiana das drogas, da polícia, dos negócios, da imprensa e das relações amorosas secretas, que parecem todas infiltrar-se e interferir umas com as outras. No mundo de Inherent Vice, a conspiração não é a exceção, mas antes a forma quotidiana da vida em sociedade na Califórnia do início dos anos 1970. Este mundo delirante revela uma lógica basilar da cultura dessa época: a paranoia não é um mero distúrbio, mas sim um modo de ler o mundo quando as fronteiras entre revelação, coincidência, conspiração e padrões ocultos começam a vacilar. Inherent Vice coloca uma questão crucial: como se pode viver quando quase tudo parece interligado, mas nunca de forma suficientemente óbvia para se ter a certeza?

Paul Thomas Anderson reintroduz a febre conspirativa da cultura popular americana do início dos anos 1970 — mas com uma inflexão mais alucinada e surrealista do que filmes dessa década como Three Days of the Condor (1975) ou a “trilogia da paranoia” de Alan J. Pakula — num mundo contemporâneo em que o cinema populariza imagens de um Estado subvertido a partir de dentro, que trai a confiança pública. Inherent Vice pode ser entendido como um filme que recupera a memória formal e afetiva do cinema da paranoia dos anos 1970, concebido num tempo em que a maquinaria do intervencionismo norte-americano funcionava a todo o vapor — do Vietname à Revolução Iraniana — em plena atmosfera da Guerra Fria, e regressa a casa para colonizar a própria vida doméstica americana. (A contracultura também nunca esteve completamente fora da máquina imperialista norte-americana; é antes um produto da ressaca doméstica do intervencionismo.) Deste modo, o que Anderson vai buscar em 2014 através deste filme não é simplesmente nostalgia contracultural, mas sim o lado mais sombrio dessa década: um retrato da transição da liberdade de pensamento para um mundo repleto de paranoia e ansiedade — uma condição que continua a ser sentida na América até aos dias de hoje, no contexto de uma política externa que parece incapaz de deixar de se ingerir noutros países.

Riar Rizaldi
Riar Rizaldi trabalha como artista e cineasta. As suas obras foram exibidas em vários festivais internacionais de cinema (incluindo Berlinale, Locarno, Roterdão, FID Marseille, BFI London, Cinéma du Réel, etc.), bem como no Museum of Modern Art (2024), na Whitney Biennial (2024), na Bienal de Taipé (2023), na Bienal de Istambul (2023), na Bienal de Arquitetura de Veneza (2021), na National Gallery of Indonesia (2019) e noutros locais e instituições. Recentemente, apresentou exposições individuais e programas temáticos em: Gasworks, Londres (2024), ICA Londres (2024), Z33, Hasselt (2024), Centre de la Photographie Genève (2023), entre outros.

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