High and Low foi realizado por Akira Kurosawa em plena maturidade cinematográfica e humana (tinha 53 anos de idade), treze anos depois do seu primeiro grande sucesso internacional (Rashomon, 1950, premiado em Veneza no ano seguinte) e depois de uma década de obras muito elogiadas. O filme teve um grande sucesso comercial e constitui, de entre as obras do realizador, seguramente um dos melhores exemplos do que frequentemente se entende ser um certo hibridismo entre as tradições cinematográficas ocidental e japonesa, um dos motivos pelos quais Kurosawa foi tão bem recebido em Holywood e na Europa.
Parecendo, à primeira vista, inscrever-se algures entre o policial clássico e o film noir, ele tem, contudo, uma estrutura algo insólita, como se de uma obra de teatro se tratasse, organizada em três atos. O primeiro ocupa mais de um terço da sua duração e decorre na sala intensamente iluminada da casa de família do empresário Kingo Gondō, chantageado por alguém que raptou uma criança que inicialmente se julgara ser o filho de Gondō mas que se revela ser o filho do seu motorista. Nesta fase, a história centra-se claramente na personagem do rico empresário representado pelo extraordinário Toshiro Mifune (1920-1997), capaz de apoderar-se de forma irresistível da atenção do espetador. Mifune, consensualmente considerado um dos maiores atores do século passado à escala internacional, e seguramente o mais aplaudido dos atores japoneses até aos anos 1970, tem aqui, longe dos samurais e militares que Kurosawa e Hollywood o fizeram encarnar, um dos papéis mais convincentes da sua carreira, o de um patrão autoritário que subiu a pulso, uma espécie de encenação masculina do novo Japão moderno do pós-guerra.
Nos dois atos seguintes, Gondō abandona o centro da narrativa para dar lugar a uma série de jovens inspetores da polícia – com destaque para Tatsuya Nakadai (1932-2025), outro dos atores preferidos de Kurosawa, perfeito no papel do inspetor principal, paciente, contido e metódico – que tomam conta da ação do que passa a ser um clássico policial. No 3º ato, mais curto, o filme ganha ainda mais uma tonalidade noir, de thriller psicológico, no ambiente urbano de Tóquio (de facto, Yokohama, onde os exteriores são filmados), no qual sobressai a personagem representada pelo raptor. É a vez de Tsutomu Yamazaki (1936- ), o terceiro grande ator do filme, brilhar em toda a sua diferença dos outros dois, conseguindo articular convincentemente toda a complexidade que Kurosawa acrescenta à personagem original da novela de McBain. Yamazaki, que, aos 27 anos, trabalhava pela primeira vez com Kurosawa e voltaria a ser escolhido por este em Red Beard (1965) e Kagemusha (1980), dois dos seus filmes mais emblemáticos, tem aqui um registo que o aproxima curiosamente de Zbigniew Cybulski, o ator-fétiche do polaco Andrzej Wajda, protagonista de personagens difíceis como a que assumiu em Ashes and Diamonds (1958), tão ao gosto da época. Como é frequente no cinema de Kurosawa, High and Low é um filme marcadamente masculino, no qual as mulheres desempenham papéis perfeitamente periféricos da narrativa central, ainda que o realizador possa contar com duas grandes atrizes (Kyōko Kagawa e Kin Sugai) às quais não dá especial densidade.
High and Low é, como o realizador gostava, uma adaptação ao ecrã de um texto literário, com guião com coautoria do próprio Kurosawa. Se este encontrou em Fiódor Dostoiévski, o grande romancista russo do século XIX, a fonte preferida de inspiração para a maioria dos seus trabalhos de adaptação para cinema de grandes textos literários, a novela policial (King's Ransom: An 87th Precinct Mystery) que escolheu adaptar em High and Low tem uma natureza completamente diferente, e literariamente incomparavelmente menor. Ela fora publicada em 1959 por Ed McBain, um relativamente banal autor norte-americano de policiais, e nela Kurosawa parece ter-se interessado sobretudo pelo dilema moral de um empresário rico que tem de optar entre a ambição que o define e a salvação da vida de uma criança raptada. Kurosawa, contudo, escolhe introduzir uma dimensão de classe no confronto entre o raptor, o homem rico chantageado e várias das personagens que o rodeiam, que estaria ausente da novela original. Críticos das obras do realizador japonês e historiadores do cinema procuraram com insistência descobrir em High and Low uma crítica ao novo capitalismo do Japão emergente do pós-guerra. Admito que a cena final do filme, que junta o raptor (Yamazaki) e o empresário (Mifune), entretanto moralmente resgatado, sendo muito exigente do ponto de vista dramático, pareceria contribuir para esta leitura, mas esta, contudo, não me parece completamente convincente. O mais que o realizador opta por fazer é colocar na boca da mulher de Gondō a advertência, uma vez mais moral e não tanto social, de que “não vale a pena procurar o sucesso se isso significa perder a humanidade”. Em suma, Kurosawa parece-me muito mais interessado na resolução de um dilema moral do que em documentar os contrastes de classe do Japão urbano dos anos 1960.
Manuel Loff
Manuel Loff é Doutor em História e Civilização pelo Instituto Universitário Europeu (Florença), professor de História Contemporânea na Universidade do Porto e investigador no Instituto de História Contemporânea-NOVA FCSH/IN2PAST e no Centre d’Estudis sobre Dictadures i Democràcias (Universitat Autònoma de Barcelona) nas áreas da História política, ideológica e social do século XX, especialmente no estudo do fascismo e do neofascismo, das revoluções e dos processos de transição autoritária e democrática, e dos estudos da memória coletiva. Escreve no diário Público desde 2011.
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