Gentlemen Prefer Blondes

Isadora Neves Marques
21 de Maio de 2026

Antes de falar do icónico duo feminino de Gentlemen Prefer Blondes — as showgirls Lorelei e Dorothy —, não posso deixar de começar por referir a cena musical com a equipa olímpica norte-americana que nos introduz ao ato central do filme: um cruzeiro de Nova Iorque a caminho de Paris. Num ginásio de temática grega, junto a uma piscina com um deslumbrante escorrega de vidro, estes atletas nus e musculosos exercitam-se coreograficamente ao ritmo da voz áspera de Dorothy e dos seus movimentos igualmente masculinos. Classicismo académico, peitorais peludos e cuecas em tom de pele com contornos a negro, lembrando ligas de couro para as nádegas: a cena é digna do homoerotismo psicadélico punk do realizador Kenneth Anger. Para mim, esta cena define o tom do filme, entre uma comédia enternecedora e uma crítica social mordaz, mas também o seu legado, não só como um dos pontos altos do cinema de Hollywood, como também do feminismo e da cultura queer.

A oferta mais duradoura — e talvez a mais radical — do filme, no entanto, é algo bem mais simples e terno. Gentlemen Prefer Blondes é, acima de tudo, um filme sobre amizade feminina. Não a amizade feminina cínica e caótica, muitas vezes marcada por intrigas e traições, tão representada nos media contemporâneos — o que é revelador da forma como as mulheres são retratadas até hoje —, mas sim uma amizade quase idealista, em que as diferenças de atitude e de objetivos nunca corroem a ligação entre Dorothy e Lorelei. E, de facto, à primeira vista, Lorelei Lee (interpretada por Marilyn Monroe) e Dorothy Shaw (interpretada por Jane Russell) parecem mulheres muito diferentes: uma, materialista e ostentosa; a outra, perdidamente romântica.

As duas viajam até Paris para o casamento de Lorelei, noiva de um rico nepobaby — para usar a terminologia atual. Desconfiado das intenções de Lorelei, o pai do noivo contrata um detetive privado e, previsivelmente, não demora muito até que uma “comédia de enganos” se desdobre, com o amor de Lorelei por diamantes a pô-la à prova. Em mãos menos sensíveis, as raparigas guerreariam uma contra a outra pela atenção masculina e pela riqueza, ou ajuizariam as ambições, ou falta delas, uma da outra. Discutiriam e separar-se-iam, para se reencontrarem no final. Em Gentlemen Prefer Blondes nada disso acontece. Quando o detetive Malone, por quem Dorothy se está a apaixonar, critica Lorelei como vaidosa — uma loira burra —, ela defende-a de imediato. E assim é ao longo do filme, com Dorothy a proteger Lorelei de toda e qualquer acusação, ao ponto de se mascarar dela no tribunal no último, e deliciosamente irónico, ato do filme. A amizade delas vem de baixo — “Somos apenas duas miúdas de Little Rock e vivíamos do lado errado da linha de comboio” —, aceita os defeitos uma da outra e defende-as da violência preconceituosa imposta por um mundo misógino. Neste sentido, se o filme é o primeiro de uma longa linhagem de histórias femininas, de Breakfast at Tiffany’s a The Bling Ring, de Sofia Coppola, também lembra o recente e mais deprimente Anora.

Pensando na filmografia de Coppola, o glamour é aqui uma personagem por si só, e o ritual de compras do duo pelas lojas parisienses da Dior, Schiaparelli, Lucien Lelong e Balenciaga é um regalo. O que me leva à inesquecível cena de “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, com os seus candelabros humanos (novamente Anger), a direção de arte rosa-choque sobre vermelho, a letra afirmativa da canção e a expressividade única e superior de Monroe. Comecemos pela sequência inicial de “nãos” proferidos por Monroe: cada “não” acompanhado por uma estalada com o seu leque no rosto de um pretendente masculino. Os homens seguram corações de cartão e, ao serem rejeitados, suicidam-se. Curiosamente, a cena surge após um número musical sobre a falta de amor e sentimentos femininos de abandono. As nuances de Lorelei, que recusam o seu retrato como uma loira burra caçadora de fortunas, encontram aqui o seu auge: com inteligência e emoção, ela lembra aos seus pretendentes, e a todos nós, espectadores, incluindo mulheres presas na sua misóginia internalizada: “Os homens arrefecem à medida que as raparigas envelhecem, e todos nós perdemos o nosso encanto no fim. Mas sejam quadradas ou em forma de pêra, estas pedras não perdem a forma, os diamantes são os melhores amigos de uma rapariga!” Se os homens perseguem mulheres bonitas para se sentirem eternamente jovens, porque não podem mulheres como Lorelei encontrar na riqueza um meio de sobrevivência para lá do olhar masculino? O materialismo feminista de Lorelei reflete, como vingança, o materialismo dos homens. A sua política pode soar limitada e ultrapassada, mas é inteligente.

No final, são os homens do filme — com dois dos quais Lorelei e Dorothy acabam por se casar — que são “burros”, suplantados em cada instância pelo charme astuto das duas mulheres. Os homens são completamente irrelevantes e substituíveis; objeto de sátira, mas não de desprezo, algo tragicamente comum e, na minha opinião, socialmente improdutivo na atual Hollywood “feminista” e no cinema e televisão mainstream. Ao rever Gentlemen Prefer Blondes, não pude deixar de me questionar, como uma Carrie Bradshaw cinéfila: porque é que este tipo de amizade e personagens tão empáticas são difíceis de encontrar nos media atuais? Por outras palavras, desde quando é que nos convencemos de que personagens falhadas e a representação realista de vícios e culpas são a única, a mais verdadeira e inspiradora, forma de fazer política? Para citar Dorothy Shaw, num sussurro para a sua amiga Lorelei Lee: “Lembra-te, querida, no dia do teu casamento é ok dizer que sim.”

Isadora Neves Marques
Isadora Neves Marques é realizadora de cinema, artista visual e escritora. Os seus filmes estrearam em festivais como Cannes (Semana da Crítica), Toronto e Roterdão. Em 2022, foi distinguida com o Ammodo Tiger Short Award. No mesmo ano, foi a Representação Oficial Portuguesa na 59.ª Bienal de Veneza e recebeu, entre outros prémios, o Special Prize do Pinchuk Future Generation Art Prize. É cofundadora da produtora de cinema Foi Bonita a Festa e da editora de poesia Livros do Pântano. Contribui regularmente para o e-flux Journal e é autora dos livros de poesia A Campa de Marx (2025) e Sex as Care and Other Viral Poems (2020), da coletânea de contos Morrer na América (2017) e de várias antologias de pensamento. É doutoranda na Ruskin School of Art, Universidade de Oxford.

Batalha Centro de Cinema

Praça da Batalha, 47
4000-101 Porto
+351 225 073 308

batalha@agoraporto.pt

A enviar...

O formulário contém erros, verifique os valores.

O formulário foi enviado com sucesso.

O seu contacto já está inscrito! Se quiser editar os seus dados, veja o email que lhe enviámos.

©2025 Batalha Centro de Cinema. Design de website por Macedo Cannatà e programação por Bondhabits by LOBA

batalhacentrodecinema.pt desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile