Estávamos em 2006 quando os artistas Philippe Parreno e Douglas Gordon, acompanhados pela banda escocesa Mogwai, nos deram a conhecer o seu Zidane, un portrait du 21e siècle. Uma obra de arte materializada em filme e centrada na figura carismática do futebolista Zidane, então no auge da sua forma. O que nos interessa aqui, para lá da qualidade da obra, é o seu título: um retrato, quer dizer, uma imagem.
O século XXI encontra-se completamente imerso na lógica espectacular anunciada muitos anos antes, de forma premonitória, por Guy Debord, no seu livro La société du spectacle de 1967. Nas suas páginas, o sociólogo escreveu uma série de teses para tentar caracterizar as mudanças que então estavam a ser introduzidas na sociedade. Duas delas são decisivas para o que nos interessa. Refere o autor situacionista francês: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espectáculos. Tudo o que era directamente vivido afastou-se numa representação” e “O espectáculo é o capital a um tal grau de acumulação que se torna em imagem”.
Alguns anos antes, em 1962, foi estreado o filme brasileiro Garrincha, Alegria do Povo. Trata-se de um documentário, também, centrado num jogador de futebol. Um fenómeno de criatividade que foi alimentando uma multidão de admiradores, até conquistar um país inteiro com as suas prestações na Selecção Nacional brasileira. Uma enorme onda de alienação colectiva em torno de uma figura que, como é habitual nestes casos, surge dos meios mais desfavorecidos e vai aos poucos conquistando popularidade. Filho de operários e um de 15 irmãos. Foi operário numa fábrica têxtil durante anos, ao longo dos quais acompanhava o trabalho com o futebol no clube da empresa.
Voltemos, então, ao filme sobre Zidane, para percebermos as diferenças existentes. Neste, trata-se de uma imagem que se transformou em mercadoria (são assim todos os jogadores de futebol actuais: imagens/mercadoria negociáveis a valores inimagináveis). Com Garrincha, tal como o título do filme nos diz, não é de uma imagem que se trata, antes de uma vida. Uma vida que potencia a alegria do povo.
Os anos 60 no Brasil foram palco de várias mudanças políticas que coincidiram com a carreira do jogador. Algumas delas, importantes, contribuíram para que a “alegria do povo” não fosse reduzida (como por cá na mesma altura) aos homens. As imagens do filme mostram-nos com frequência a presença de mulheres nos estádios a jubilarem com a mesma alegria dos homens — a “alegria” era geral. A dimensão plural da sociedade reflectia-se nesta alegria colectiva liberta da exclusividade masculina. A vida vivida, como refere Debord, ainda não tinha sido transformada na sua representação. Trata-se, na realidade, de pura alienação, mas absolutamente ligada à realidade. Garrincha potenciava a alegria, mas, simultaneamente, fazia parte dela. A sua inserção no todo que se designa “povo” era materializável em presenças fora dos estádios; na relação íntima que mantinha com as pessoas a quem dava as alegrias enquanto ídolo desportivo e com quem se misturava de forma despreconceituosa, por exemplo, como se diz no filme, “numa peladinha” com os amigos da fábrica têxtil em que havia trabalhado. A materialização desta realidade que se chama vida vivida, quer dizer, a vida exterior ao espectáculo, é fundamental para se entender a diferença com o presente, em que os ídolos nunca se corporizam por inteiro. Antes, enquanto imagens, agora, desmaterializadas em algoritmos dispersos em pequenos blocos de imagens e à procura dos famosos likes dados pelos novos “amigos”, também eles virtuais. Garrincha era “um de nós”; hoje, os ídolos do futebol são somente uma espécie de seres híbridos sem carisma que passam e logo desaparecem. Imagens/mercadorias transaccionáveis que nunca chegarão a ser “um de nós”, talvez não por não quererem, mas porque não podem.
Estes fenómenos de massas chamam sempre a atenção dos poderes. A tentação de manipulação de pequenos ídolos é forte. Por cá, a ditadura usava a seu bel-prazer a figura de Eusébio, na dupla condição de aproximação a um povo que sentia “alegria” com as suas prestações desportivas, mas, também,na limpeza política e tentativa de apaziguamento simbólico da horrenda política colonial, à época confrontada com três guerras de libertação em curso. No Brasil de Garrincha, a ditadura que se instalou no poder durante a sua carreira, ao invés, perseguia o jogador pela sua ligação à cantora Elza Soares, conhecida pela sua aproximação à resistência ao fascismo brasileiro. Talvez a alegria do povo se tenha até aprofundado mais. Afinal, tratava-se de “um de nós”.
O filme é um estudo sociológico interessante por introduzir muitos elementos que produzem ressonância em quem o vê. Mas é, sobretudo, e isso é o que interessa, um belo exemplar de um cinema que quis ser próximo das pessoas, que quis afirmar a sua linguagem como possibilidade de significar. Que quis ser moderno no mais profundo sentido que a palavra possui: produzir rupturas e inovar no interior da sua linguagem. Desde a opção pelo preto-e-branco, que o afasta do real cromático, afirmando-o como uma obra deliberadamente construída, até às muitas sequências de imagens paradas que, juntas, se oferecem como uma radical visão do que caracteriza, afinal, o cinema: as chamadas imagens-movimento. Um objecto fílmico para ver com o tempo e o detalhe necessários, e que, nas suas diferentes camadas, nos dá a ver muito mais do que à partida se pode esperar. São assim os objectos obsoletos. Não corporizam o presente e, no entanto, afirmam a sua importância ao fazer acto de presença a partir da sua inactualidade.
Só precisamos de estar atentos.
O autor escreve segundo a antiga norma ortográfica.
Fernando José Pereira
Fernando José Pereira (Porto, 1961) é licenciado em Pintura pela Universidade do Porto e Doutor em Belas Artes pela Universidade de Vigo. Desde os anos 90, desenvolve uma prática artística na qual se destaca a utilização do vídeo. Enquanto membro do coletivo de música eletrónica experimental Haarvöl, tem vindo, mais recentemente, a explorar a relação entre o vídeo e a música. A sua obra integra as coleções da Fundação de Serralves, do Centro Galego de Arte Contemporânea e da Fundação Calouste Gulbenkian, entre outros.
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