Fish Tank (2009) acompanha Mia, uma adolescente de 15 anos que vive com a mãe e a irmã mais nova num bloco de habitação social em Essex. Rebelde, solitária e com um temperamento explosivo, foi expulsa da escola e passa os dias sozinha, sonhando em tornar-se dançarina de hip-hop, praticando coreografias num apartamento vazio do bloco onde vive. A sua vida muda quando Connor, o novo namorado da mãe, se instala em casa. Atraente e atencioso, de um modo a que Mia não está habituada, torna-se uma figura ambígua para ela, uma espécie de pai-substituto, mas também objeto de um desejo confuso e crescente. Podemos lembrar que este é um filme em espelho. A realizadora, Andrea Arnold, nasceu em 1961 em Dartford, Kent, Inglaterra. Cresceu numa família de classe trabalhadora, criada por uma mãe jovem, deixando um lastro autobiográfico neste trabalho. Ao longo da narrativa, o filme acompanha, de forma quase imersiva, o estado emocional de Mia: a raiva, a solidão, o desejo de fuga e a procura de afeto num ambiente marcado pela precariedade económica e afetiva.
Trata-se, na verdade, de um filme que se inscreve, sem ambiguidade, numa linhagem muito específica do cinema britânico: o realismo social que atravessa décadas com Ken Loach, Mike Leigh ou Alan Clarke. Ali, encontramos uma cinematografia que trata a classe trabalhadora mais como protagonista do que como pano de fundo, como outras tendências cinematográficas de raiz ocidental. Clarke, por exemplo, é conhecido por um cinema cru, violento e sem sentimentalismo, que recusa qualquer consolo moral ao espectador. Os seus filmes centram-se quase sempre em jovens da classe trabalhadora inglesa, presos em ciclos de violência, delinquência e instituições opressivas: escolas, prisões, reformatórios.
Voltamos ao nosso filme. Fish Tank usa, numa tradição que se cola e, ao mesmo tempo, se distancia do documentarismo do cinema direto, atores não profissionais e casting de rua, num registo de interpretação que recusa o polimento, as frases feitas e os clichés que tantas vezes se constroem romanticamente desde fora. Em termos de cinematografia, a câmara ao ombro e uma estética quase documental produzem uma fotografia colada aos corpos, sem movimentos coreografados, continuando a gramática visual que este cinema foi consolidando desde os anos 1960 e 70 na ideia de que a câmara deve testemunhar, não compor. A câmara persegue as personagens, que lhe parecem escapar. Mas Fish Tank não aponta o dedo a uma política específica. Interessa-se mais pela experiência subjetiva de Mia, o seu corpo, o desejo, a raiva e não tanto pela denúncia estrutural, num olhar mais sensorial do que verbal. Arnold parece confiar mais na imagem, no som, no corpo em movimento (a dança de Mia) do que na palavra. Trata-se, na verdade, de uma mulher realizadora a filmar a adolescência feminina, na tradição de um cinema que se foca no coming-of-age. A sensorialidade de Fish Tank vem sobretudo de escolhas formais que fazem o espectador sentir a experiência de Mia: o formato 4:3, fechado e quase quadrado, cria uma sensação física de aperto e confinamento, transformando o próprio ecrã num aquário. Na realidade, o próprio título do filme parece ser uma chave e uma metáfora fundamental para esta obra. Mia, a protagonista, vive num bloco de habitação social, um espaço fechado, repetitivo, do qual parece não conseguir sair. A sua vida é feita de ambientes apertados (o apartamento da família, o corredor onde dança, o próprio bairro), que funcionam como paredes de vidro transparentes, mas intransponíveis. Ela vê o mundo lá fora, através dos ecrãs de televisão da casa, mas sente-se presa dentro de um espaço do qual não consegue escapar, tal como um peixe dentro de um aquário vê o exterior sem poder atravessá-lo. Por outro lado, está constantemente a ser observada, avaliada, julgada, seja pela mãe, pelos vizinhos, pela escola ou por Connor, sem grande controlo sobre o espaço que a rodeia. O desejo de fuga que atravessa o filme, culminando na partida final para “algures”, pode ler-se como o desejo de sair do aquário, de romper o vidro que a mantém confinada a um destino que parece traçado à partida pela classe social e pelo lugar onde nasceu.
De facto, a câmara ao ombro, nervosa, que se cola a Mia sem lhe dar espaço para respirar transmite ansiedade e falta de liberdade através do movimento da imagem, e não tanto através do diálogo ou de uma espécie de factualidade narrativa. Fish Tank não rompe com o realismo social britânico, cumprindo praticamente todos os seus protocolos formais e temáticos. O que o distingue dentro desta tradição é a substituição da lente política pela lente sensorial: Arnold herda o método, mas usa-o para filmar a interioridade de uma adolescente, não para argumentar sobre o Estado. É realismo social, mas com o centro de gravidade deslocado da sociedade para o corpo.
Catarina Alves Costa
Catarina Alves Costa é realizadora e antropóloga, doutorada pela na Universidade Nova de Lisboa com a tese “Camponeses do Cinema. Representações da Cultura Popular no Cinema Português”. Realizou, entre outros filmes, Orlando Pantera (2025), Margot (2022), Pedra e Cal (2016), Falamos de António Campos (2010), Nacional 206 (2009), O Arquiteto e a Cidade Velha (2004) e corealizou Um Ramadão em Lisboa (2019). É professora associada da Universidade Nova de Lisboa e coordenadora do Mestrado em Antropologia — Culturas Visuais e do LAV — Laboratório Audiovisual do Centro em Rede em Antropologia (CRIA). É autora do livro Cinema e Povo (2022, Edições 70).
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