Duma Vez por Todas

miguel bonneville
24 de Maio de 2025

o meu primeiro contacto com a obra de joaquim leitão foi com a sua terceira longa-metragem, adão e eva, em 1995. eu tinha dez anos. não é de estranhar que tivesse ficado com muita vontade de o ver: foi o primeiro filme português co-produzido pela sic, que o promoveu intensamente, e a banda sonora foi composta por pedro abrunhosa, cujo álbum viagens (que me foi oferecido em substituição de um pedido de desculpas) eu ouvia repetidamente por essa altura. isso, aliado ao facto de o filme ter sido mencionado no jantar de natal, fez com que não perdesse tempo a informar o meu irmão de que queria ir vê-lo ao cinema. ele tinha 17 anos — penso que o filme estava interdito a menores de 12 —, o que significava que ele o podia ver e, consequentemente, por estar acompanhado de um adulto, eu também. fomos, então, ao cinema trindade. a sala estava cheia. a experiência foi de tal forma marcante que, mais tarde, passei horas a fazer dobragens de várias cenas do filme — sobretudo aquelas protagonizadas por ana bustorff, por quem ganhei uma enorme admiração.

essa experiência abriu-me as portas não só para o cinema português — comecei a seguir com muita atenção os filmes que se produziam em portugal —, mas também para outros tipos de cinema: os mosaicos narrativos e as comédias dramáticas de almodóvar, por exemplo.

ver duma vez por todas à luz de adão e eva fez-me admirar a inteligência e a habilidade de joaquim leitão em adaptar géneros bem-sucedidos lá fora à realidade portuguesa. atrevendo-me a generalizar: o público português tem (ou tinha) tendência a ser desconfiado e a resistir à ideia de ver narrativas “espectaculares” a apropriarem-se da sua realidade — ou talvez seja (ou tenha sido) levado a isso. antónio de macedo, por exemplo, procurou sempre alargar as possibilidades narrativas e de género no cinema português, e foi ostracizado por isso. o seu filme sete balas para selma, um policial cheio de acção e tiroteios nas ruas de lisboa, foi duramente atacado e criticado por cinéfilos e críticos como joão césar monteiro, que o acusaram de ceder a expectativas comerciais e, por extensão, ao regime ditatorial. mas isto foi em 1967, 20 anos antes da estreia de duma vez por todas.

consciente da dificuldade do público de levar a sério filmes portugueses que não fossem comédias, macedo recorreu a um “truque” no seu primeiro filme, domingo à tarde (1965): usou voz-off no início para lhe dar um tom documental — logo, mais “sério” — e condicionar positivamente a recepção do público. (segundo o realizador, a qualidade dos diálogos e a interpretação nos filmes dramáticos nacionais era excessivamente teatral e, por isso, implausível, e o público acabava por se rir, descredibilizando-os.) joaquim leitão fez algo semelhante em duma vez por todas, ao introduzir, logo no início, outro idioma e outras nacionalidades, criando um efeito de credibilidade para o espectador português e tornando mais plausível que o seu thriller noir se passasse em lisboa. ambos souberam montar pequenas armadilhas para conquistar a suspensão da descrença.

a própria utilização de actores internacionais (julian maynard em duma vez por todas e karra elejalde em adão e eva) ajuda a invocar outros imaginários e a abrir possibilidades de contaminação com outras realidades.

trata-se de um trabalho de adaptação e de educação — uma resposta às condições culturais e históricas do país. a sociedade de 1967 era bastante diferente da de 1987; há um antes e um depois da ditadura, e o novo cinema abriu caminho para outras formas de se fazer cinema em portugal. essa mudança sente-se claramente em duma vez por todas, e também, por exemplo, em atlântida: do outro lado do espelho (1985), filme fantástico de daniel del negro (director de fotografia de duma vez por todas), que, no entanto, infelizmente não teve o mesmo acolhimento — até porque nunca chegou a ser distribuído comercialmente em portugal.

com poucos meios (basta ver o curtíssimo genérico de duma vez por todas para se ter uma ideia da equipa reduzida) e muito engenho, sempre se fizeram obras mais ou menos extraordinárias em portugal — pequenos milagres que, independentemente do seu sucesso comercial, fazem parte de uma história do cinema que sinto que devo continuar a honrar convictamente.

só tenho a agradecer, por isso, a adão e eva — ou seja, ao joaquim leitão e a toda a equipa técnica e artística que o tornou possível — porque tenho plena consciência das dificuldades que se enfrentam ao fazer um filme (ou qualquer obra artística) em portugal.

miguel bonneville
miguel bonneville introduz-nos a histórias autoficcionais, centradas na desconstrução e reconstrução da identidade, através de obras que cruzam múltiplas áreas artísticas. Realizou filmes como Traça (2016), Um medo com duas grandes faces (2022), e Camera obscura (2023). Publicou os livros Ensaios de santidade (Sr. Teste, 2021), O pessoal é político (Douda Correria, 2021), e ainda as edições de artista Jérôme, Olivier et moi (Homesession, 2008), Notas de um primata suicida (2017), e, através do Teatro do Silêncio, Dissecação de um cisne (2018), Lamento do ciborgue (2021), Recuperar o corpo (2021) e Câmara escura (2022).

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