Don’t Bother to Knock

Beatrice Loayza
31 de Maio de 2026

Antes de 1953, ano em que se tornou uma genuína estrela com o “triplo salto” de Niagara (1953), Gentlemen Prefer Blondes (1953) e How to Marry a Millionaire (1953), Marilyn Monroe estava desesperada por provar que era uma verdadeira atriz — e estava a chegar lá, devagar, mas de forma segura. A sua pequena participação em All About Eve (1950) tinha-lhe garantido o respeito de Bette Davis (a grande dama de Hollywood tinha vaticinado que Monroe seria, em breve, uma das maiores estrelas da indústria cinematográfica) e, em 1951, conseguiu um lucrativo contrato de longo prazo com a 20th Century Fox. O seu talento crescente só era igualado pela aura de escândalo em torno do seu nome como antiga pin up, transformada em bomba sexual no grande ecrã.

O thriller psicológico de grande tensão de Roy Baker, Don’t Bother to Knock (1952), foi uma das primeiras tentativas da Fox de capitalizar a popularidade de Monroe, embora o papel de Nell — uma mulher que fora recentemente internada numa instituição psiquiátrica e fica encarregada de tomar conta de uma criança durante uma noite — se destaque por ser sombrio e perverso. Nell não é uma mulher fatal sensual nem uma ingénua sorridente, mas antes o tipo de mulher que veríamos mais de uma década depois nos filmes de Hitchcock (talvez até nos de Polanski ou de Brian De Palma). Bosley Crowther, crítico do New York Times na época, não ficou muito impressionado com o filme: escreveu que, apesar dos seus esforços, Monroe não tinha talento suficiente para conseguir interpretar uma psicopata — mas eu permito-me discordar. A sua voz débil e o seu olhar ausente dão-nos uma impressão de inocência que estranhamente contrasta com a intrigante perversidade dos seus atos: por outras palavras, ela não é apenas louca, mas também uma mulher doente, mergulhada nas trevas da sua própria mente, com resultados tão perturbadores quanto melancólicos.

Mas isto não retira nada ao filme enquanto entretenimento sensacional. Começa por mostrar Marilyn num papel contranatura: como a tímida e modesta sobrinha de Eddie, paquete num hotel de luxo e benevolente tutor de Nell. Eddie conseguiu que Nell ficasse como babysitter da pequena filha de um casal abastado hospedado no hotel, enquanto os pais assistiam a uma receção no salão de baile no rés-do-chão. A tarefa é simples, mas percebemos que há algo de errado pela impaciência que a rigidez de Nell e a sua respiração entrecortada nos transmitem; os olhos não estão propriamente vazios, mas deixam transparecer que o seu espírito está noutro lugar. Assim que os pais da pequena Bunny desaparecem pela porta, Nell enfia a criança na cama de modo rude e vasculha a bagagem da mãe, passeando-se pouco depois pela sala com um glamoroso vestido de noite e brincos de diamante que tomou emprestados. E aqui vemos a Marilyn que conhecemos — cativante, sexy, pronta a seduzir. Mas não passa de um disfarce, ou antes, uma ilusão. Um pouco como o sonho de se tornar uma estrela de Hollywood. Não percebendo no que se está a envolver, um piloto bem-parecido chamado Jed (Richard Widmark) telefona para a mulher deslumbrante cujo quarto vê da sua janela e aceita o convite dela para ir até lá para uma bebida. Pouco importa que o quarto não seja realmente o dela. A partir daqui, Don’t Bother to Knock desenrola-se numa série de acontecimentos agradavelmente absurdos e cheios de suspense, exacerbados pelo facto de Eddie ou de os pais de Bunny poderem bater à porta a qualquer momento.

Em certa medida, Nell pode ser vista como um mero catalisador para a transformação de Jed. Apresentado desde o início do filme como o protagonista — cujas atitudes evasivas levam a sua namorada, uma cantora morena, a terminar o relacionamento com ele —, Jed vai perceber, graças a Nell, não só que já não está interessado em relações casuais de uma noite, como também que é capaz de se sentir genuinamente interessado por uma mulher, para além daquilo que ela lhe possa proporcionar como objeto sexual. A sua preocupação com Bunny, que o mantém preso no descalabro de Nell muito depois de ela revelar as suas cartas, também prova que está pronto para ser pai. Mas tudo o que transparece deste guião um tanto degradante é eclipsado, na minha opinião, pela narrativa alternativa evocada pela lenda da própria Marilyn: desde a sua infância cruel em famílias de acolhimento e orfanatos até à sua morte, em 1962, considerada suicídio. Também Nell tinha crescido na pobreza e vítima de abusos, e um dos momentos mais chocantes do filme é ver as cicatrizes nos seus pulsos. São poucos os papéis de Monroe no grande ecrã que expõem esta contradição tão primordial acerca da mulher por trás da imagem; e são ainda menos os que retratam de forma simpática o seu desejo de uma vida melhor — mais esplendorosa e romântica. Vestir a roupa de outra mulher e pôr em perigo a vida de uma criança, só para viver uma fantasia durante alguns momentos, é seguramente um ato de loucura; mas, na representação de Marilyn, é também profundamente triste. Ao assistir a Don’t Bother to Knock, uma parte de nós quer que os jogos perigosos de Nell sejam interrompidos. E há uma outra parte que compreende a frustração dela e teme o tal bater à porta do título que ameaça destruí-la. Quando uma criança está mergulhada no seu mundo imaginário, não há nada mais angustiante do que ver esse mundo de sonhos destruído pelas imposições dos adultos. Nell anseia ficar sozinha nessa realidade fictícia que ela própria criou, onde o seu amante morto ainda está vivo e a sua vida é a de uma outra pessoa.

Beatrice Loayza
Beatrice Loayza é crítica e historiadora, e vive em Brooklyn. É colaboradora regular do New York Times e o seu trabalho pode ser encontrado na Criterion Collection, Film Comment, Atlantic, Nation, New York Review of Books, 4Columns, entre outros. É também professora no departamento de cinema da School of Visual Arts e está atualmente a trabalhar num livro sobre as atrizes da Nova Vaga francesa.

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