Um texto que, como Days, seja abundante em pausas e em silêncio.
(é tão melancólico, o silêncio, quando está cheio de ruído)
Através da janela, um homem observa a chuva, o vento, os seus efeitos nas árvores. A seu lado, pousado na mesa, um copo com água.
A água na rua é violenta. A água dentro de casa é contida, organizada pela forma do copo.
O homem olha para fora ou para dentro de si?
Um texto que abra vazios, espaços onde se.
Um texto bem imperfeito, cheio de malhas caídas.
A escrita habituou-nos a esperar linhas contínuas, narrativa. O cinema também. Days conta-se por rotinas, momentos soltos que se estendem e que, talvez, sejam dias.
Contemplar, não porque a imagem é perfeita.
Imagens perfeitas não exigem tanto tempo,
o cérebro lê-as num instante.
Dizemos perfeitas apenas porque são mais fáceis de ver?
Será assim para tudo?
A última vez que me detive tanto tempo num rosto, talvez estivesse a desenhar. Um olhar contemplativo, mas ainda assim útil, necessário. Um olhar ferramenta.
Tsai Ming-Liang decide quanto tempo devemos observar um homem a percorrer uma rua. Apercebo-me de que só intermitentemente vejo o homem e a rua. O cérebro preenche vazios com memórias e significados. Penso muito enquanto vejo. Será que outra pessoa, com outras memórias, viu naquela imagem uma imagem diferente?
Estamos a desenhar.
Tsai Ming-Liang, a partir de planos longos e desoladores, faz-nos desenhar o quotidiano de dois homens e das suas vulnerabilidades.
Um corpo envelhece com dores e viaja à cidade em busca de alívio.
Um outro corpo, imigrante, deslocado, cozinha num ambiente desconfortável e tenta recriar os sabores da sua aldeia. Vende o seu corpo e tenta recriar amor.
Numa casa de banho, lava legumes. Noutra casa de banho, lava o corpo nu de outro homem.
É preciso um corpo para reconfortar um corpo.
Duas solidões encontram-se num quarto de hotel.
Uma massagem, um momento íntimo com falhas, hesitações e recomeços.
São assim, imperfeitos, os primeiros encontros sexuais da vida real. Mas estas tentativas de acertar à primeira quase nunca são representadas no cinema.
As solidões e as dores de cada um, já vínhamos desenhando há muito. Os planos, as imagens anteriores, deram-nos informação para ler aqueles instantes de desejo e de prazer. Com tempo, observação e disponibilidade, fomos desenvolvendo compaixão por aqueles corpos.
Um homem roda muito lentamente o manípulo de uma caixinha de música. A música pinga quase nota a nota. O meu cérebro tenta recriar a velocidade da melodia original, preencher os vazios. Os nossos cérebros estão sempre à procura de continuidade.
A escrita habituou-nos à continuidade das linhas.
O cinema também.
Numa entrevista, o cineasta fala sobre Lee Kang-Sheng, o seu ator fetiche.
Diz que o encontrou na rua, que ele não estudou representação. Que apenas age. Sinto que, mais do que um ator, ele parece um modelo de pintura. Um corpo disponível para se dar a ver, lentamente. Uma disponibilidade generosa, até comovente.
Lee Kang-Sheng relaxa e age devagar, em frente à câmera. Tsai Ming-Liang diz que isso é precioso, porque é muito difícil não atuar. Que as pessoas estranham, porque têm preconceitos sobre como alguém deve agir diante de uma câmera. Quando tiramos fotografias, devemos sorrir. Se não sorrirmos, algo está mal.
Lee não sorri. Estava mesmo doente quando estas imagens foram captadas.
Dois homens comem lentamente, indiferentes à velocidade e ao ruído dos carros. É uma despedida. A velocidade, o ruído, são gigantescas montanhas que alienam os corpos silencioso se quietos. Homens como chuva dentro de copos.
André Tecedeiro
André Tecedeiro é poeta, dramaturgo e artista plástico. É licenciado em Pintura (FBAUL) e em Psicologia (FPUL) e mestre em Artes Plásticas e em Psicologia do Trabalho. Publicou oito livros de poesia em Portugal, Brasil, Colômbia e Espanha, entre os quais A Axila de Egon Schiele (Porto Editora, 2020), recomendado pelo Plano Nacional de Leitura. Os seus poemas estão representados em mais de vinte revistas literárias e antologias. Para teatro, escreveu Joyeux Anniversaire (2021), Desfazer (2021) e O Ensaio (2023).
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