Days and Nights in the Forest

Cristina Fernandes
6 de Setembro de 2026

A primeira imagem do filme de Satyajit Ray é um travelling da paisagem. A câmara está dentro de um carro e alguém lê uma passagem de um livro do século XIX, de Sanjib Chandra Chattopadhyay, sobre os encantos da floresta de Palamau. Aos poucos, percebemos que se trata de uma viagem de libertação: quatro amigos da burguesia abastada de Calcutá — solteiros e muito diferentes uns dos outros — querem regressar às leis da natureza por uns dias para esquecer os seus próprios problemas e as regras sufocantes da cidade. Apesar do carro e da estrada, Days and Nights in the Forest (1969) é um falso road movie; mal chegam a Kechki, tentam ficar, mesmo sem autorização, num albergue do Estado. Para impressionar o encarregado, Shekhar apresenta os amigos como VIPs, omitindo, porém, que ele próprio não passa de um desempregado. Acabam por subornar o pobre homem, que teme ser despedido. “Thank God for corruption”, diz Ashim, do alto da sua sobranceria. Embora tencionem não fazer a barba, como se fossem hippies, vê-se logo que não deixaram os privilégios de classe em casa e comportam-se com tiques de colonizadores.

 

Instalam-se rapidamente e, depois de uma breve deambulação por entre as árvores com gritos à Tarzan, deixam-se levar pelo álcool. A câmara filma-os bêbados como se estivessem na barra de um tribunal (um tipo de plano que há-de repetir-se, ainda com mais intensidade, no jogo da memória). Ashim e Sanjoy têm noção de que as regras da vida adulta os entalaram em empregos aborrecidos e relações vazias, e a alegria dos tempos da faculdade perdeu-se para sempre. Quanto mais alto se sobe, maior é a queda. O que não esperavam é que a floresta, em vez de os apaziguar, começasse a pôr a nu os seus defeitos. Para que não restem dúvidas, Satyajit Ray mostra-os ao longo do filme em três flashbacks poderosos: a arrogância de Ashim, a cobardia de Sanjoy, e a cólera egocêntrica e agressiva de Hari. Só Shekhar escapa a esse ajuste de contas porque a sua personagem (interpretada pelo actor cómico Rabi Ghosh) é uma espécie de bobo, cuja única ambição é dizer piadas e umas palavras em inglês num simulacro ingénuo de cosmopolitismo. Na prática, existe para criar atrito, como contraponto dos outros que serão um dia um exemplo perfeito do homem bom, convencional e dócil da classe média bengali.

 

De manhã, conhecem Aparna e Jaya, e também o fiscal que lança alguma instabilidade sobre a estadia deles no albergue. O microcosmo está fechado e hierarquicamente organizado: os aldeões locais, o vigilante, Lakha, Duli (a desinibida rapariga Santhal) — tratados com desdém e até mesmo violência — estão no segmento mais baixo; ao mesmo nível, mas inacessíveis, as duas jovens misteriosas e sofisticadas que eles tentam impressionar com enorme inépcia.

 

Segue-se uma série de peripécias que vão revelar o seu verdadeiro carácter por trás da pose pretensiosa: a rotina das bebedeiras nocturnas, onde extravasam as suas frustrações; o caso da carteira perdida que leva Hari a acusar injustamente Lakha — o homem que lhes faz recados — e a agredi-lo (mais tarde, ele vingar-se-á); o confronto arrogante com o director do albergue, do qual só se saem bem graças à serena intervenção de Aparna; ou o piquenique sobre a erva que começa com biscoitos, como uma cena de Renoir, mas descamba num embate psicológico. Enquanto dizem nomes de figuras famosas, como Karl Marx, Cleópatra ou Shakespeare, a câmara apanha-os em grandes planos rápidos e reveladores. O jogo de memória deixa de ser um divertimento e transforma-se numa questão de poder. No fim, Aparna condescende mais uma vez e deixa Ashim ganhar.

 

O momento mais forte do filme, porém, é a ida à feira (outra vez Renoir!), quando as tensões românticas e as ilusões de superioridade dos quatro amigos de Calcutá acabam por colapsar. O grupo divide-se e Satyajit Ray sublinha esse afastamento com uma montagem paralela cheia de ritmo. Os cortes rápidos, a que se juntam planos da comunidade Santhal, expõem os contrastes morais dos quatro: Shekhar segue o seu caminho menor, crava algum dinheiro a Ashim, joga e perde. Ao mesmo tempo, o filme justapõe a contenção burguesa e intelectual dos diálogos de Ashim com Aparna, ou de Sanjoy com Jaya, à crueza da aproximação carnal de Hari com Duli na floresta. As ligações entre os pares são evidentes; porém, perante a força e inteligência das mulheres, os homens mostram-se demasiado falhos de carácter. Há um breve plano em que se vêem veados, mas nada se resolve. Em vez de se lamentarem, os quatro amigos precisavam, como Aparna diz a Ashim, de perder alguma da sua arrogância.

 

No dia seguinte, regressam todos a Calcutá. Sim, como dizia Chattopadhyay, há imensa melancolia na floresta.

Cristina Fernandes
Cristina Fernandes (Porto, 1966) é investigadora independente na área do cinema. Desde 2004, escreve sobre filmes e literatura em diversas plataformas, atualmente no blogue Bicho Ruim. Tem publicado artigos em revistas e projetos editoriais dedicados ao cinema, assim como traduções de autores como Emil Cioran, Chantal Akerman e Marguerite Duras, em editoras como Edições 70, BCF e Contracapa. O seu percurso combina crítica, tradução e investigação, refletindo um interesse pelo diálogo entre artes, pensamento e imagens em movimento.

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