Clueless

Isadora Neves Marques
24 de Janeiro de 2026

Como é que o guião de um episódio piloto para televisão se transformou num dos filmes mais icónicos da década 90, cuja influência ainda se faz sentir dentro e fora das salas de cinema? Quando Clueless, a comédia romântica adolescente de Amy Heckerling, estreou em 1995, o género de drama adolescente estava entretanto fora de moda. Os tempos áureos de John Hughes tinham ficado para trás, e a década parecia confusa entre o fim da cultura slacker, com o seu renascimento alternativo no cinema e na música, e a crescente Disneyficação da vida adolescente e da cultura pop. Conservador, a Paramount, o estúdio por trás da produção, insistiu para que o protagonista fosse masculino, mas Heckerling defendeu Alicia Silverstone. O estúdio assumiu errónea e arrogantemente que, numa Hollywood dominada por heróis masculinos, fazer de uma desconhecida de 18 anos a protagonista de um filme realizado por uma mulher só podia ser um risco. Pelo contrário: Clueless arrecadou quase 60 milhões de dólares em bilheteira à escala internacional e transformou Silverstone num dos rostos dos anos 90.

Em retrospectiva, é fácil colocar Clueless no mesmo cesto das Gossip e Mean Girls e num fenómeno estilo Paris Hilton que se tornou entretanto o horizonte capitalista da feminilidade (e também de uma vasta parte do mundo queer), com o sotaque “Valley girl” californiano adotado como uma espécie de marca. Uma espécie de niilismo capitalista, longe do início dos anos 90, que cooptou grande parte da cultura contemporânea pós-2000 — afinal de contas, algures neste processo, tornou-se cool ser um sell-out. Pelo contrário, o retrato que Clueless faz de Cher — uma das melhores representações de Silverstone — e da sua turma da Bronson Alcott High School, em Beverly Hills, é muito mais um produto da autoconsciência e até ingenuidade desses inocentes, mas alternativos, anos 90. Apesar de ser uma miúda rica mimada, com uma mansão como casa e um pai advogado do piorio, Cher nunca é “mean” — as suas intenções são genuínas. Não há cinismo em Clueless; apenas humor face à alienação e pretensiosismo adolescentes. Certo, a miúda rica é tanto uma caricatura quanto o skater charrado, mas as suas representações não desejam nem subsumir nem denegrir nenhum dos dois. Neste sentido, o filme é um objeto transicional único e raro de um momento específico no tempo, impossível de replicar antes ou depois.

Esta qualidade é também o que torna Clueless uma adaptação tão honesta e humorística de Emma de Jane Austen. Cher Horowitz é literalmente Emma Woodhouse, e o mesmo com as restantes personagens — incluindo um eternamente jovem Paul Rudd como interesse amoroso de Cher. O argumento é também sensivelmente o mesmo, incluindo a transformação da nova aluna suburbana Tai/Harriet numa rapariga de estatuto social, que, para choque de Cher, se torna num monstro “mean girl”. Seria preciso esperar até Marie Antoinette de Sofia Coppola para termos outra adaptação tão astuta, moderna e irreverente do privilégio de uma adolescente burguesa. Os esforços casamenteiros de Cher e a sua comédia de enganos (“As if!”), as piadas memoráveis (ditas com total convicção), o romance entre meio-irmãos (que hoje seria censurado) e a moda (ah, a moda!) — tudo isto faz de Clueless um prazer de rever.

O filme abre com Cher a escolher que roupa vestir num computador de mesa e a optar pelo seu icónico conjunto amarelo em xadrez — e o desfile de moda só melhora a partir daí. Para capturar o glamour, Heckerling convidou o diretor de fotografia Bill Pope, acabado de sair de um Army of Darkness de Sam Raimi e de Bound das Wachowski e que viria a filmar a trilogia The Matrix e a inigualável versão de Raimi do Spider-Man. Pope decide-se por uma cinematografia brilhante e colorida, mas rica em detalhes, capturando as roupas de Cher sob a luz plástica de Los Angeles — uma estética que seria desde então copiada e esteticizada até à exaustão em comédias adolescentes.

Hoje, são muitos os filmes e séries que assumem uma atitude condescendente para com a juventude contemporânea — o uso de pronomes they/them (elu ou elx), por exemplo, são uma piada recorrente, mais recentemente de After the Hunt de Luca Guadagnino a One Battle After Another de Paul Thomas Anderson. Ou, inversamente, que a romantizam cegamente. A adolescência é um período difícil de retratar por adultos sem moralismo. Clueless, tal como Emma, sabe melhor do que tentar retratar uma geração. Em vez disso, oferece-nos o que há de clássico e intemporal na adolescência: um exagero de intrigas, superficiais mas fora de proporção; códigos privados, complexos mas infantis; hormonas e mudanças de humor; exploração pessoal e sentimentos de culpa; e o grau certo de arrogância para entreter uma audiência.

Isadora Neves Marques
Isadora Neves Marques é realizadora de cinema, artista visual e escritora. Os seus filmes estrearam em festivais como Cannes (Semana da Crítica), Toronto e Roterdão. Em 2022, foi distinguida com o Ammodo Tiger Short Award. No mesmo ano, foi a Representação Oficial Portuguesa na 59.ª Bienal de Veneza e recebeu, entre outros prémios, o Special Prize do Pinchuk Future Generation Art Prize. É cofundadora da produtora de cinema Foi Bonita a Festa e da editora de poesia Livros do Pântano. Contribui regularmente para o e-flux Journal e é autora dos livros de poesia A Campa de Marx (2025) e Sex as Care and Other Viral Poems (2020), da coletânea de contos Morrer na América (2017) e de várias antologias de pensamento. É doutoranda na Ruskin School of Art, Universidade de Oxford.

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