Cloud

Riar Rizaldi
15 de Abril de 2026

Imagina viveres como burlão anónimo na internet, afadigado todos os dias a arquitetar uma escassez artificial como modo de vida dentro da lógica das plataformas digitais. Toda a tua existência assenta no engano, na manipulação, tanto do valor das coisas como dos sentimentos das outras pessoas. Lucras com a ansiedade e o desejo delas por um objeto. Numa tal situação, em quem poderias confiar? Em quem poderias depositar a confiança nesse ritmo incessante da tua vida, enquanto acumulas bens e atuas como uma espécie de especulador do comércio eletrónico na circulação de mercadorias terciárias? Esta é a questão que continua a assombrar Ryosuke Yoshii, o protagonista do filme de Kiyoshi Kurosawa muito adequadamente intitulado Cloud.

Há em Yoshii uma tensão entre confiança e controlo que o faz desconfiar de tudo. No mundo paranoico onde habita, nas margens daquilo que o economista Vili Lehdonvirta descreveu como “cloud empires [impérios na nuvem]”, Yoshii encontrou uma forma de sobrevivência paralela ao seu emprego servil a dobrar roupa. Esta circunstância obriga-o a questionar-se constantemente se pode confiar em alguém: na sua namorada, no seu antigo superior, naqueles com quem se cruza na sua vida diária. No final, apenas confia em si mesmo — alguém que age sem nunca refletir seriamente sobre as consequências daquilo que faz. No entanto, essas ações vão revelar-se uma bomba-relógio num mundo online saturado de comunicação anónima e mentalidade de grupo.

Ao falar sobre confiança, Kurosawa parece regressar uma vez mais ao seu próprio ceticismo sobre a tecnologia, especialmente a internet. Se no início dos anos 2000 o seu filme de terror Pulse (2001) evocava uma atmosfera nitidamente tecnofóbica em torno da Web 1.0, em Cloud essa desconfiança é atualizada para a era da tecnologia pós-Web 2.0 — plataformas digitais e redes sociais, nas quais o atrito social é inflamado e explorado pela própria lógica do capitalismo de plataforma. Da perspetiva de Kurosawa, a tecnologia não é uma mera extensão dos sentidos humanos, nem pura e simplesmente um meio, mas antes uma forma de desumanização e uma porta de entrada no caos apocalíptico. Podemos ver isso no modo como ambos os filmes, Pulse e Cloud, terminam numa nota niilista no que diz respeito ao futuro das suas personagens.

Como revendedor e acumulador, Yoshii depende literalmente das plataformas para o seu sustento e a sua sobrevivência. Na arquitetura do capitalismo de plataforma da internet, vendedor e cliente estão separados pela mediação da plataforma, de tal forma que qualquer coisa que se adquira online nunca revela inteiramente a sua origem, ainda que uma interação direta entre as partes seja possível na própria plataforma. Quando essas plataformas se tornam espaços onde os revendedores inflacionam os preços ou negoceiam bens duvidosos, o anonimato passa para primeiro plano como parte das regras do jogo sujo online. Depois de ter operado na sombra durante muito tempo, Yoshii tem agora de enfrentar aqueles que enganou, que saem do mundo virtual e o procuram em pessoa. Finalmente, vai ter de se confrontar com as manifestações reais do potencial de terror e raiva coletiva das redes sociais, desde a denúncia à tentativa de homicídio às mãos de uma multidão anónima.

O que é curioso e surpreendente em Cloud é o desaparecimento da plataforma como intermediária quando o caos deflagra. Após uma escalada lenta e demorada em torno dos mecanismos e da economia da própria plataforma, vemo-nos subitamente atirados para a realidade de como a pequena criminalidade e a insatisfação podem culminar em justiceirismo, posto em cena como um thriller norte-americano ou um filme de vingança dos anos 1970, com tons outonais, uma casa na margem de um lago e um ambiente pesado de invasão doméstica — um desvio das convenções mais atmosféricas do terror asiático. Inevitavelmente, recordamos filmes com cenários semelhantes, desde Straw Dogs (1971) até outros, com ecos de Canuxploitation, como Death Weekend (1976). Cloud materializa também a primeira vez que vemos Kurosawa realizar cenas de ação que parecem genuinamente excitantes, usando um estilo de filmagem realista, cheio de breves tremores nervosos.

Para além de se centrar na plataforma digital e em todas as suas intrigas capitalistas, Cloud também se caracteriza pelo anonimato que envolve cada uma das suas personagens. Não há uma motivação sólida ou completamente compreensível em praticamente todas as figuras que Kurosawa criou para o filme: pelo contrário, parecem vagas, crípticas, sem passados ou objetivos claros que possam justificar as suas ações, quase como se fossem imitações do comportamento reacionário dos utilizadores da internet. A sua presença veicula o quão caótica e angustiante se tornou a interação no espaço digital anónimo. No contexto do Japão pós-pandemia e pós-Jogos Olímpicos, tão profundamente marcado pela precariedade e pela ausência de coesão social, estas personagens não podem escolher emergir como figuras totalmente coerentes; têm de existir dentro da lógica do anonimato. E é justamente isso que Kurosawa expõe em Cloud com tanta precisão.

Um quarto de século após o lançamento de Pulse, Kurosawa ainda parece incapaz de depositar qualquer fé na ideia de um futuro tecnológico. Mas isso não é necessariamente uma coisa negativa. Pela sua estranha capacidade de entender como a tecnologia continua a funcionar como um pharmakon — simultaneamente cura e veneno — na vida humana e de refletir isso através dos códigos de um cinema de género impregnado de mistério, estou ansioso por ver como vai o realizador reagir ao que virá a seguir: talvez a Web 3.0, Web 4.0, Web 5.0 e por aí fora.

Riar Rizaldi
Riar Rizaldi trabalha como artista e cineasta. As suas obras foram exibidas em vários festivais internacionais de cinema (incluindo Berlinale, Locarno, Roterdão, FID Marseille, BFI London, Cinéma du Réel, etc.), bem como no Museum of Modern Art (2024), na Whitney Biennial (2024), na Bienal de Taipé (2023), na Bienal de Istambul (2023), na Bienal de Arquitetura de Veneza (2021), na National Gallery of Indonesia (2019) e noutros locais e instituições. Recentemente, apresentou exposições individuais e programas temáticos em: Gasworks, Londres (2024), ICA Londres (2024), Z33, Hasselt (2024), Centre de la Photographie Genève (2023), entre outros.

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