Extraviou-se o ponto de exclamação, certamente — o que faz ele aqui? Seria um remate adequado ao título de outro filme: a biografia hollywoodesca e palpitante de Cassandro (2023, com Gael García Bernal no papel principal). Aplicada ao documentário da francesa Marie Losier, a pontuação parece errónea. O assunto é o mesmo, este ícone improvável da lucha libre, mas Losier não trabalha à luz dos seus trejeitos. Tendo como matéria-prima um homem flamante e (lá está) exclamativo, o produto manda coçar o cocuruto: um ensaio visual pachorrento, de 16mm e foco variável, navegando junto à cronologia até se fartar.
É um filme evanescente, de planos esbatidos, o que parece um contrassenso. Podemos olhá-lo de outra forma: um documentário terno, ajustado ao momento em que conhecemos Cassandro; o retrato do sujeito que desperta para a sua mortalidade, na ressaca de uma glória fugidia. Têm mais cabimento umas reticências do que o ponto de exclamação, mas — ortografia à parte — a verdade é que Losier diz-nos sempre ao que vem. Vinda das belas-artes e da literatura, não da escola de cinema, tem constituído uma filmografia despudoradamente de nicho — em torno de figuras que, afinal, até são tangentes ao plano mainstream, transgressivas na sua arte e sumarentas quanto às suas memórias íntimas. A francesa é duplamente evasiva: não esmiúça as obras, tampouco vampiriza as vidas retratadas, e bem que tinha margem para isso. A saber: o casal P-Orridge (um amor consumado num projeto cirúrgico e de modificação corporal) emprestava-se a um sensacionalismo de lamber os lábios, mas disso não há vestígio em The Ballad of Genesis and Lady Jaye.
À realizadora — responsável por Peaches Goes Bananas (2024), sobre a iconoclasta canadiana — interessa estabelecer algum rapport com o narrador, pelo menos o suficiente para desbloquear a história. Disso o filme dá conta, o resto depreendemos como possível. “Quem me dera dar-te um beijo”, diz ela em videochamada com um Cassandro exaurido. “É sempre a mesma coisa: quando estás cansado, choras.” Essa intervenção de Losier denuncia um já avançado grau de amizade versus o que revela no grande ecrã. Há cuidado nas suas palavras e na sua lente trémula. Nunca insiste nas mágoas, também não esmiúça as alusões de Cassandro a uma infância de contornos abusivos ou à homofobia que sofreu no início de carreira.
A carne é fraca, e Losier só não resiste a demorar-se sobre o corpo de um lutador há 26 anos no ativo. Tem tanto de aula de anatomia como de body horror descritivo: um sem-fim de fraturas; cicatrizes de mordidas; novas próteses dentárias; cirurgias ao menisco; traumatismos... Numa montagem de fazer contorcer o espectador, Cassandro cai consecutivamente de costas — e todo o perfume da videoarte não conseguiria disfarçar o cheiro a Jackass. Ainda que wrestling seja só teatro, todo o teatro deixa marcas na pele; uma noção ainda mais relevante para um atleta a envelhecer, inconformado com a descoberta da debilidade.
Mas as encenações de Cassandro são especialmente densas, tendo em conta o quadro da lucha libre. Originária do México em princípios do século XX, já vive siderada, por excelência, com máscaras coloridas (como as de Rey Mysterio), quedas espalhafatosas e acrobacias quase aerodinâmicas. E Cassandro, sendo o que se chama de um lutador "exótico", soma-lhe outras camadas performáticas: a atuação em drag, a maquilhagem vibrante, os uniformes cromados e com lantejoulas, um cabelo algures entre George Michael em 1984, Tina Turner em 1996, e um Vegeta aparado. Sob o signo da Princesa Diana, ele é o “Liberace da lucha libre”.
Não precisávamos dessa figura para “queerizar” uma prática já fundada em suor, músculo e drama — inevitavelmente homoerótica, como as imagens de Losier ressaltam. Ainda assim, o "exótico" enriquece-a. Heather Levi investigou a lucha libre como um espaço de negociação entre o macho e o maricón: masculinidades à bulha. Uma bulha coreografada, é certo, ainda assim mais do que uma brincadeira.
O entretenimento das massas terá sempre ecos em quem o acompanha. Nem todo o “exótico” é gay, mas Cassandro é um exemplo de como a lucha libre dá aos homens homossexuais um elevador social, já desde os anos 1940: uma arena competitiva onde podem ostentar a sua força física, livre do espartilho macho, livre para abraçarem a feminilidade e o camp.
Essas não são as cores com que se pinta Cassandro, the Exotico! — talvez, justamente, por não se ter reservas em mostrar Cassandro em toda a sua amplitude. Ele é Saúl Armendáriz: a criança da cidade de Juárez, o fã do filme Santo contra las momias de Guanajuato (1972), o luchador aspirante. É o vencedor do Campeonato Mundial de Peso Ligero UWA de 1992 (ano de “Como La Flor”, de Selena, que escutamos no documentário), é o adicto em recuperação, homem espiritual e resignado. É a aparição florida no deserto. As cordas do ringue não o delimitam — e não só porque nos pode sempre surpreender com um salto suicida.
Pedro João Santos
Jornalista, radialista e programador de cinema (n. 2001). Focado na crítica de música pop, escreve para o Ípsilon, no jornal Público, e outras publicações (The Guardian, The Quietus, Bandcamp Daily). Trabalha na Antena 1, rádio para a qual concebeu o documentário Madonna: A Lei da Reinvenção. Após defender uma dissertação sobre telediscos de António Variações e Lena d’Água, tornou-se mestre em Etnomusicologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Fundou o cineclube da associação cultural Albardeira, produzindo e moderando sessões no Teatro Municipal de Ourém.
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