Cabaret

Fernando José Pereira
9 de Julho de 2026

O cinema oferece inúmeras formas de confrontar a realidade. O realizador Bob Fosse, neste caso, optou pelo musical. Um musical dos anos 70 do século passado que, curiosamente, mantém uma enorme actualidade. Será, talvez, paradoxal escolher este formato para nos interrogar sobre o silêncio cúmplice, a cobardia, a alienação colectiva, a anestesia social generalizada. Ou talvez não. Apanha-nos desprevenidos, surpreende-nos. Não é isso, afinal, o que queremos de um filme?

 

Os primeiros planos mostram um cantor a entoar um refrão “Life is a cabaret”, ou seja, a vida é um local de divertimento. Fá-lo num pequeno espaço mais ou menos underground e, talvez até, libertário. Ali, parecem diluir-se os problemas políticos agudos, as questões de género, etc.

 

Existe uma dupla visualidade no filme que acentua as discrepâncias que se começavam a aprofundar na realidade da época: o interior do cabaret e o exterior, que nos situa na cidade de Berlim no início dos anos 30, mais correctamente em 1931, quer dizer, a dois anos apenas da tomada do poder por Hitler. Entre uma e outra existe uma enorme diferença lumínica, cromática e até compositiva. Se, na primeira, o espaço, a luz e a cor são fechados, nocturnos; na segunda, todos estes elementos corporizam o seu oposto. Tal como a realidade. A vida é entretenimento, diz-nos o cantor. E o resto? O que ele não canta. O exterior perigoso do quotidiano da cidade naquela época conturbada.

 

Talvez hoje algum DJ nos diga que a vida é entretenimento acompanhado pelo techno berlinense. O filme ecoa estranhamente nesta contemporaneidade que fala (volta a falar) em extermínio ou genocídio. Cá fora, na cidade, hoje, há pessoas a serem reprimidas, exposições a serem canceladas, festivais de cinema que se tornam problemáticos por se manifestarem contra o genocídio a decorrer em Gaza.

 

Estranha coincidência esta, a da mesma cidade, com 100 anos de distância, ter as mesmas atitudes relativamente à realidade. Apenas mudam os actores sociais. Sabemos, hoje, da pouca importância que, na década de 30, foi dada à ascensão do nazismo, às perseguições entretanto iniciadas nas cidades. Conhecemos também os versos de Brecht sobre o assunto. Uma representação em palco mostra-nos um homem aparentemente “cego” com o deslumbramento que a grotesca mulher que o acompanha lhe provoca. Todos o vemos; ele não. A identidade da mulher está oculta. A sua cabeça ostenta a animalidade que lhe advém da máscara animalesca. O que se encontrava oculto naquela pretensa animalidade atribuída pela ideologia odiosa do nazismo era a sua condição judia.

 

Hoje, vemos com espanto membros do governo israelita a utilizarem a mesma linguagem para classificar a população palestiniana.

 

Há coisas que parecem nunca mudar.

 

Curiosamente, nos anos 80 do século XX, nos Estados Unidos, um grupo de artistas feministas, as Guerrilla Girls, utilizaria a mesma estratégia, mas com um sentido oposto: já não como mecanismo de poder, mas como forma de o confrontar. Integrando o acto na sua prática artística, o colectivo pretendia criticar a misoginia existente na arte (e na sociedade) relativamente às mulheres. A arte e o cinema sempre utilizaram a história e a memória para nos dizerem coisas, através de formas peculiares.

 

Marx escreveu, em O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Tinha toda a razão. Embora a história não se repita de forma mecânica, o seu curso parece marcado por uma sucessão interminável de tragédias. Contudo, a mediocridade dos políticos que hoje dominam e que têm o poder de nos mergulhar na tragédia acrescenta-lhe uma dimensão farsesca. Basta olhar para o mundo contemporâneo.

 

O último plano mostra-nos o mesmo cantor a entoar o mesmo refrão do início do filme. Contudo, no seu interior, aquele espaço está mudado; o cantor está mudado. Uma belíssima panorâmica dá-nos uma imagem reflectida numa superfície que a distorce. As figuras são apenas arquétipos deformados e, no entanto, algumas cores e símbolos dão-nos a ver uma realidade diferente. Aquele espaço tinha sido já ocupado. A realidade exterior passou a fronteira, ocupou o interior anteriormente protegido.

 

Hoje, a realidade encontra-se distorcida (não em sentido moral, mas formal, como numa anamorfose) de forma diferente, mas com resultados semelhantes. O capitalismo digital impõe uma relação complexa com a verdade. Já não são somente os corpos arquetípicos que a distorção digital provoca. É a própria construção imagética que os mostra que se encontra distorcida, comprimida e neutralizada. Já não se trata sequer de imagens, antes de para-imagens, uma nova estrutura que as torna inexistentes, desmaterializadas: quando começam a aparecer, desaparecem. A figura central da farsa totalitária actual chama-se scrolling. A atenção às imagens reduz-se a este tempo sem tempo. A anestesia completa o resto, o que falta.

 

Nos anos 70 do século passado, mais ou menos no mesmo ano em que o filme foi realizado, um teórico da cibernética fez uma afirmação enigmática relativamente ao futuro sombrio que previa e que hoje merece a máxima atenção; disse ele: “Não se pode ver que não se vê o que não se pode ver.” Este é o poder do deslumbramento. Este é o poder utilizado por quem domina. Por quem induz a anestesia social, o silêncio cúmplice.

 

Simultaneamente, a sombra de um novo fascismo paira e expande-se. Talvez o refrão “Money makes the world go’round”, cantado pelo dueto numa das noites do cabaret, seja premonitório. Talvez este girar do mundo entre fascismo e dinheiro não seja novo; nova é a farsa laudatória desta aliança com que nos confrontamos quotidianamente.

 

Por isso, precisamos tanto destes filmes. Mais do que nunca.

 

É que a vida não é, de todo, um cabaret.

 

O autor escreve segundo a antiga norma ortográfica.

Fernando José Pereira
Fernando José Pereira (Porto, 1961) é licenciado em Pintura pela Universidade do Porto e Doutor em Belas Artes pela Universidade de Vigo. Desde os anos 90, desenvolve uma prática artística na qual se destaca a utilização do vídeo. Enquanto membro do coletivo de música eletrónica experimental Haarvöl, tem vindo, mais recentemente, a explorar a relação entre o vídeo e a música. A sua obra integra as coleções da Fundação de Serralves, do Centro Galego de Arte Contemporânea e da Fundação Calouste Gulbenkian, entre outros.

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