A Swedish Love Story

Pedro João Santos
19 de Dezembro de 2025

Passados 24 minutos de A Swedish Love Story acontece algo potencialmente inquietante para o português médio: a coprotagonista leva à boca uma bolacha Maria. Ponham-se já os pontos nos is, para que ninguém a reivindique por patriotismo: este farináceo não provém de Portugal, tendo sido uma invenção londrina por ocasião de um casamento real; a popularização ibérica deve-se a um excesso de farinha na sequência da Guerra Civil Espanhola (1936–39). Prossigamos... ou não.  

Os lanches incaracterísticos, fisgados da despensa sem pensamento, são tão diegéticos como qualquer outro elemento na estreia de Roy Andersson em longa-metragem. Saída do plástico, uma barra de chocolate aciona uma das poucas instâncias de comédia: segura-a na mão esquerda um ciclista sereníssimo, em fato de treino; a outra mão vai no guiador, em movimento, mostrando a Pär — o nosso coprotagonista, apenas um garoto numa motorizada — a verdadeira imagem de cool. Mais tarde, as rodelas de chourição entre fatias amanteigadas de pão branco: a merenda possível, preparada pela também pré-adolescente Annika (o outro hemisfério do filme) para Pär. Insossa ou não, a comida demonstra-se ternura, nesse momento-charneira das nossas vidas: receber em casa alguém de quem esperamos intimidade.  

Mas o que sabem dois pirralhos acerca do amor? Essa é a pergunta central a uma obra que não se atreve a enunciá-la; fazê-lo seria já declinar a paixão no diminutivo. Não é uma questão derivada apenas de os vermos simularem a idade adulta, da qual só conhecem casacos de cabedal e cigarros acesos (talvez suspeitem dos próximos capítulos e só queiram mesmo conhecer os adereços; chamem-nos burros). É que Andersson faz bom uso das suas personagens, e isso permite-lhe poupar nas palavras: esta é a primeira de várias mood pieces na sua filmografia, servindo-se principalmente da presença visceral dos graúdos. 

Aí está um indício do realizador que viemos a conhecer em Songs from the Second Floor (2000) e A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence (2014): o esteta urbano, o surrealista-via-Tati ainda ausente em 1970. Mas, tal como fará nos seus filmes do século XXI, em A Swedish Love Story, Andersson coreografa os adultos num bailado aparentemente ilógico. Sem cobiçar algum drama de proporções bergmanianas, predominam as caras e motivações impenetráveis, os berros e agressões ainda mais imprevisíveis. No banquete de lagostins, patrocinado pelos pais de Pär, é encenado um pequeno terror psicológico com o pai de Annika. Destabilizado pela felicidade (pouco esfuziante) e apelidado de “charlatão de frigoríficos”, o homem estilhaça duas garrafas de espumante e ri-se violentamente. (E a inexplicável bofetada a Eva rima, tristemente, com a cena final de The Idiots, de Lars von Trier.) 

A relação entre Annika e Pär funciona no mais simples e expressivo contraste com esse pano de fundo: a esperança a montante, o desencantamento a jusante. A perda da inocência não se faz sentir à la Vittorio De Sica: quem vai pensar nas pobres criancinhas, cérebros de plasticina, corrompidos por uma sociedade devassa? Para tal, era preciso restar uma infinitésima de desejo nestes adultos: beges como os seus lares, desbaratinam à conta de novas persianas e reservam a felicidade para um improvável novo apartamento (há que reconhecê-lo: os pais de Pär, aparentemente satisfeitos na sua vida campestre, de pijama e avental, excluem-se desta narrativa). Marca-se apenas um ponto médio no degradê entre verdinhos e cinzentos: o olhar esvaziado de Eva, na fronteira dos trintas. “Qual é a tua idade, mesmo?”, pergunta à miúda de 14, revendo nela a tão familiar, tão inútil pressa de crescer.

Encontramos a mesma rebeldia de isqueiro e guitarra em Tarde para morir joven, de Dominga Sotomayor, situado numa comunidade ecológica dos anos 1990. Faz sentido a chilena reconhecer em A Swedish Love Story um filme formativo para a sua prática. Ao jeito de Andersson em 1970, Sotomayor faz um coming-of-age naturalista q.b.: nenhum deles preocupado com impressionar o espectador; nenhum com pachorra para o abalroar (para já) com as esperadas marcas de autor. Evanescente e orgânico, mas também inesperado e brutal, em sintonia com todas as emoções afloradas.

Oito anos depois de “Tous les garçons et les filles” (1962), canção fundadora do desamor juvenil, Annika e Pär experimentam um amor claramente pós-Françoise Hardy: mais do que passeios e promessas platónicas, há toque e calor, apalpões sem grande nexo. E é hormonal em 360º: à libido junta-se o sentimento primal, curto de pavio, materializado na choradeira de recreio e, ato contínuo, no reencontro das madalenas arrependidas. Afinal de contas, o que sabem os adultos do amor? 

Pedro João Santos
Jornalista, radialista e programador de cinema (n. 2001). Focado na crítica de música pop, escreve para o Ípsilon, no jornal Público, e outras publicações (The Guardian, The Quietus, Bandcamp Daily). Trabalha na Antena 1, rádio para a qual concebeu o documentário Madonna: A Lei da Reinvenção. Após defender uma dissertação sobre telediscos de António Variações e Lena d’Água, tornou-se mestre em Etnomusicologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Fundou o cineclube da associação cultural Albardeira, produzindo e moderando sessões no Teatro Municipal de Ourém.

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