A Natureza das Férias

Justin Jaeckle
11 de Julho de 2026

“É preciso pouco para tudo parecer diferente. A data, a hora, o tempo que faz, a configuração do espaço, o nosso olhar ou a nossa presença de espírito… podem fazer com que tudo mude.” — Rose Lowder

 

A Natureza das Férias explora as variações de ritmos e texturas de tempo e lugar durante os meses de verão através de uma seleção de filmes que refletem sobre, habitam e jogam com a “natureza” onírica e quimérica dos espaços de escape sazonais. Levando-nos de férias nas — e através das — imagens de outros, a exposição viaja das praias argentinas até à casa de férias de Andy Warhol em Montauk, passando pelas costas de França e da Tailândia, com desvios pelos mundos do software e da cloud, simultaneamente refletindo e recordando que os filmes, por si mesmos, têm a capacidade de nos proporcionar umas curtas férias.

 

Imagens de férias são, muitas vezes, sinónimo de férias. É nessa época que mais se tiram e partilham fotografias — calcula-se que nos meses de verão sejam publicadas nas redes sociais mais 20% a 30% de imagens do que durante o resto do ano. Mas essas imagens podem ir além do postal ou da função performativa, e os seis artistas reunidos nesta exposição têm algo de diferente para partilhar.

 

Pouco tempo após a morte do marido, John F. Kennedy, Jackie Kennedy perguntou-se se uma máquina de filmar poderia ser uma fonte de distração para os filhos, na sequência da tragédia familiar. Jonas Mekas foi a pessoa recomendada para os iniciar no mundo do cinema e os pequenos fragmentos de paraíso deste período do final dos anos 1960 — que se conservam numa fantasia cinematográfica urdida por Mekas, décadas mais tarde, à beira da viragem do milénio — evocam uma poesia universal entretecida a partir dessa intimidade e das recordações pessoais.

 

Através da sua mágica (e muito idiossincrática) amálgama de tradições do cinema estrutural e da pintura ao ar livre, Rose Lowder cria um registo entrecortado e estroboscópico da realidade. Guiada por notas meticulosas de trabalho de campo — como notação coreográfica —, que indicam que imagens são registadas onde e quando numa bobine de filme de 16mm, e fazendo avançar e rebobinando o filme na sua câmara de filmar Bolex mecânica, Lowder capta imagens de forma não sequencial, um fotograma de cada vez, e arranja-as numa espécie de música visual. Se o tempo é sentido de um modo diferente nos meses de verão, talvez os filmes inundados de sol de Lowder deem forma a essa sensação. Voiliers et Coquelicots funde paisagens distintas, registadas ao longo de três meses, numa espécie de miragem impossível. Na série Bouquets, iniciada há quase 30 anos, Lowder centra-se num único local para cada um dos “ramos” numerados de fotografias, reunindo 1440 imagens em filmes de um minuto. Transportando-nos para essas diferentes paisagens, os filmes podem ser considerados substitutos cinematográficos da experiência da artista do lugar — uma viagem para ser feita na sua companhia.

 

Se as férias são a altura em que grande parte das fotografias são captadas, fazer férias também pode ser sentido como habitar uma imagem, algo que Mariano Llinás e Tulapop Saenjaroen exploram com entusiasmo. Para Llinás, a fantasia das “modernas cidades pagãs dedicadas ao culto do mar” torna-se uma fonte de infinito e obsessivo fascínio, à medida que, como um sarcástico e perplexo banhista, conduz uma minuciosa investigação sociológica do “estádio multiusos do areal” e das “cidades faraónicas” construídas ao lado. Repleto da exuberante tendência para a efabulação labiríntica e o jogo meta-cinematográfico que culminaria na epopeia gargantuesca de Llinás, La Flor (2018), este “Episodio de las playas” é retirado de Balnearios, a primeira longa-metragem do realizador, um “documentário” em quatro capítulos.

 

Para Saenjaroen, a popular imagem de Bangsaen, cidade turística tailandesa, é construída sobre outras projeções. É este artifício que o seu filme procura tanto revelar como habitar, através de uma aposta na estética de software e automatizações que nos afastam cada vez mais da perceção do “real”. Por outro lado, o artista procura examinar o que reside para lá do enquadramento de imagens criado para a nossa busca de prazer e ócio, num lugar precisamente preconcebido com esse objetivo.

 

Será possível que uma fotografia turística do pôr do sol na baía de Bangsaen faça parte do monumental Set, de Peter Miller? Será uma praia tailandesa o paradisíaco cenário digital de 911 king,de Petra Cortright? No pacote de férias que constitui esta exposição, Miller e Cortright propõem-nos viagens ao espaço digital, recordando-nos que viajar não requer que se saia do lugar — e talvez como gesto de solidariedade para com todos aqueles que fazem férias sem sair de casa.

 

Muito antes de a palavra “selfie” ter entrado no dicionário e de o TikTok ter monopolizado a rede móvel, Petra Cortright ganhou notoriedade por volta de 2007, no meio artístico pós-Internet, graças aos seus filmes realizados com webcams comuns. A par de uma prática proeminente na pintura digital, Cortright utilizava a Internet como meio, fonte, contexto e local de distribuição do seu trabalho, produzindo imagens digitais e físicas através de software. À medida que as fronteiras entre fantasia e realidade se esbatem na exposição, Cortright oferece-nos dois caminhos para o escapismo, num diálogo entre os seus primeiros vídeos publicados nos primórdios do YouTube e as suas mais recentes abstrações digitais, cada vez mais complexas. Uma câmara incorpórea embarca numa viagem pelo sublime virtual da paisagem viva de wet sunlight Paradis “pomme de terre” 3D, e nós somos convidados a acompanhá-la, enquanto, em 911 king, recebemos um postal diretamente do quarto da artista, de um tempo já longínquo da era online.

 

Entretanto, recorrendo a outros postais enviados para o éter digital, Peter Miller — um artista que, em criança, sonhava ser mágico e que, posteriormente, dedicou a sua prática a truques de ilusionismo utilizando elementos irredutíveis do cinema — oferece-nos um sol que cintila com uma excitação inquieta, como raios refletidos no mar, num movimento perpétuo composto pela animação de 10.000 fotos descarregadas da Internet.

 

Talvez visitar uma exposição seja algo como ser um turista de imagens. Convidamos-vos a fazer uma pausa — e desejamos-vos boas férias.

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