A Melhor Mãe do Mundo, de Anna Muylaert, nasceu da memória traumatizada de um relacionamento abusivo da realizadora e da imagem de uma mulher a transportar os filhos numa carroça — dois factos reais que nos remetem para a brutalidade dos maus-tratos que todos os dias sufoca as mulheres pelo mundo fora e enche as páginas dos jornais. A libertação das mulheres ainda não se cumpriu e já a História parece dar vários passos atrás — ai de nós.
O filme começa com um plano negro e a leitura seca de um auto de agressão. Ouve-se “próxima” e vemos a nuca de uma mulher negra: é Gal (Shirley Cruz), vítima de violência e violação em casa. Quando bebe, Leandro (Seu Jorge) perde as estribeiras e transforma-se no típico agressor que exige sexo, a bem ou a mal. Um dia, Gal não aguenta mais e vai à esquadra determinada a apresentar queixa, mas a frieza da burocracia quebra-lhe o raciocínio. Confrontada com o peso de uma denúncia irreversível e os sentimentos que ainda a prendem àquele homem, acaba por desistir da via oficial e decide fazer as coisas à sua maneira.
Quase sem dinheiro, vê-se obrigada a traçar um plano meio tosco: mete alguns pertences e os filhos na carroça que usa para recolher lixo para reciclagem e foge de casa — não sem antes Anna Muylaert revelar que Leandro tem uma arma. O objectivo é refugiar-se em casa da prima Val (Luedji Luna), em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo. Gal parece um animal de carga, um touro mitológico vindo das profundezas do tempo. Para sossegar Rihanna e Benin, tenta transformar a provação numa aventura divertida: uma breve passagem pela feira popular — onde os planos na montanha-russa servem de ilustração do que os espera —, acampar ao ar livre, refeições improvisadas e até mesmo banhos em fontes. “Coisa de cinema”, como diz a protagonista.
Nesta pequena odisseia, Gal vai encontrar de tudo: desde a ajuda genuína de Munda (Rejane Faria), que lhe fala da comunidade de ocupas crucial para o desfecho, até ao aproveitamento de Reginaldo (Lourenço Mutarelli) — o sujeito paternal que lhe dá comida e dinheiro, mas que no fim tenta cobrar favores sexuais. Depois de muitos percalços, ela e os filhos acabam por chegar a casa da prima; no entanto, é evidente que nem lá estão em segurança. Val massacra-a com as frases do costume: o marido engana-a e ela deixa passar; uma mulher tem de aguentar certas coisas, principalmente quando tem filhos; é assim para todas. A fatalidade da submissão em todo o seu esplendor. Anivaldo (Rubens S. Santos) vai ainda mais longe e avisa Leandro, que aparece de surpresa num churrasco.
Fiel ao papel de agressor de duas caras, Leandro vem de mansinho, com flores e presentes, anel de noivado e pedido de casamento. Depois de uns copos, porém, volta ao mesmo e, num deslize, deixa antever que Rihanna será a próxima vítima. É talvez isso que faz Gal fugir de novo — agora sem a carroça, pois Anivaldo tomou precauções e tirou-lhe um pneu. O desespero é maior: pela primeira vez, ela chora e confessa aos filhos que a aventura era mentira, “papo furado”, mas os filhos insistem que foi bom e agora são eles que reanimam a fantasia. Quando ouvem tiros, percebem que é dia de jogo do Corinthians e pedem à mãe para ir ao estádio, como ela tinha prometido no início. Ela diz “só se São Jorge aparecesse montado no cavalo branco”. Anna Muylaert condescende — e não é que surge uma carroça puxada por um cavalo branco? A trama vira conto infantil: eles vão pela estrada entusiasmados e vibram no estádio. No fim, porém, quando a carroça volta a ser uma abóbora, Gal tem de tomar uma decisão: bloqueia o telefone de Leandro — um gesto fácil que não impedirá o agressor de a perseguir — e procura a ajuda de Munda.
Na comunidade de ocupas, encontra enfim um lugar para viver com alguma dignidade e protecção até resolver a sua vida, algo que nem o Estado nem a família lhe garantiram. Talvez por se sentir em segurança, Rihanna confessa-lhe que tinha medo de Leandro e afirma que ela é a melhor mãe do mundo. As últimas palavras do filme resumem na perfeição o tom maniqueísta da narrativa. Gal sorri pela primeira vez e afasta-se da câmara. O filme fica por aí, com um plano tipo postal com uma lua cheia ao fundo e Gal novamente de costas. Uma esperança pequena e forçada.
Na ânsia de passar uma mensagem, Anna Muylaert recorre a estereótipos e lugares-comuns que esvaziam a experiência cinematográfica: é tudo demasiado previsível e pouco substancial. Apesar das boas intenções, a mistura entre o realismo duro da situação e a fábula que Gal inventa para proteger os filhos também não se sustenta — o argumento tanto quer elucidar um problema terrível dos nossos tempos que se torna frouxo e fica sempre aquém, como mostra esse final de pacotilha: feliz, mas demasiado apressado e nada plausível. Outro dos problemas de A Melhor Mãe do Mundo é a proximidade: a câmara está demasiado perto de Gal, quase não nos dá a distância necessária para ver o que se passa; mais parece uma reportagem televisiva simplista que se esgota sem deixar lastro. Falta espaço para o cinema, o que significa que falta espaço para o mistério e o pensamento. Ficamos com algumas imagens de Shirley Cruz à espera de outra luta com mais sombra.
Cristina Fernandes
Cristina Fernandes (Porto, 1966) é investigadora independente na área do cinema. Desde 2004, escreve sobre filmes e literatura em diversas plataformas, atualmente no blogue Bicho Ruim. Tem publicado artigos em revistas e projetos editoriais dedicados ao cinema, assim como traduções de autores como Emil Cioran, Chantal Akerman e Marguerite Duras, em editoras como Edições 70, BCF e Contracapa. O seu percurso combina crítica, tradução e investigação, refletindo um interesse pelo diálogo entre artes, pensamento e imagens em movimento.
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